Crítica | Constantine 1X04: A Feast of Friends

estrelas 5,0

Depois de um episódio morno, Constantine dá uma rápida volta por cima, nos entregando o seu melhor capítulo até agora. Com uma história retirada diretamente do primeiro volume de Hellblazer, Cameron Welsh constrói seu roteiro trazendo à tona um interessante enfoque na personalidade de John, deixando claro que ele é um homem disposto a sacrificar a qualquer um para o suposto “bem maior”.

A trama tem início nos mostrando a perspectiva de Gary Lester (Jonjo O’Neill), um homem claramente perturbado, com uma aparência típica de usuário de drogas mais pesadas. No aeroporto ele é retido pela polícia e porta apenas uma estranha urna. Desavisado, o policial decide abri-la, libertando um demônio em forma de um enxame de besouros. Os efeitos especiais mal finalizados de The Devil’s Vinyl sofreram uma completa mudança para o melhor. As criaturas saindo do vaso e entrando no corpo do oficial já nos causam um marcante desconforto, característica que se mantém pelo restante da projeção.

O que se sucede foge completamente de nossas expectativas, nos surpreendendo a cada sequência. O demônio em questão é relacionado à gula e causa nos hospedeiros uma fome insaciável, que os causa a procurar a fonte de alimento mais próxima e devora-la prontamente. Em diversos pontos parecemos estar diante de zumbis e , de fato, o paralelo com a gula se estabelece de forma óbvia. Mas, como eu disse anteriormente, o enfoque do capítulo não é nesse “vilão da semana” e sim na psiquê de Constantine, que prontamente assume o caso após seu antigo amigo, Gary Lester, pedir ajuda a ele.

A partir desse ponto a trama assume um caráter não visto ainda na série. Ao mesmo tempo que somos revelados mais fatos do passado de John. A carga dramática vai se intensificando com o passar dos minutos e a direção de John F. Showalter é precisa nesse sentido. Realmente acreditamos em cada um daqueles personagens e Matt Ryan, que já se destacava antes, aqui atinge seu ápice. Além de seu constante sarcasmo, agora o acompanhamos diante de uma difícil decisão, que, ainda assim, ele faz sem pestanejar. A sua amargura interior vai se tornando evidente com o passar dos minutos, alcançando seu ápice no dramático encerramento do capítulo, que nos deixa com o estômago revirado.

Mas a trama não é efetiva somente por tais fatores. Trata-se de uma história que não perde tempo com um excesso de coadjuvantes ou subtramas. Temos uma linha narrativa clara estabelecida, que poucas vezes muda o foco do personagem. Essa característica reflete diretamente na montagem, que não mais sofre com os distintos problemas dos dois primeiros capítulos. Há uma maior calma na história em questão. Tal escolha do roteiro se encaixa perfeitamente com o resgate da linguagem de filmes de terror vista em Non Est Asylum, garantindo a tensão no espectador e até tirando o sono de alguns.

A Feast of Friends é um episódio nada menos que sensacional de Constantine, unindo uma boa história com uma direção precisa e intimista e atuações dramáticas. A qualidade do capítulo é ainda marcada pela forma como ele se sustenta, sem precisar dos outros anteriores, mas se aprofundando na construção do protagonista, que, até então, foi mostrado de forma rasa, ainda que cativante. Certamente um capítulo que merece ser visto e revisto.

Constantine 1X04: A Feast of Friends (EUA, 2014)
Showrunner: Daniel Cerone
Direção: John F. Showalter
Roteiro: Cameron Welsh
Elenco: Matt Ryan, Angélica Celaya, Charles Halford, Harold Perrineau, Jonjo O’Neill, Charles Parnell
Duração: 43 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.