Crítica | Constantine 1X08 e 09: The Saint of Last Resorts

estrelas 5,0

Atenção: contém spoilers

Constantine acaba de nos entregar um vislumbre de como seria caso não fosse uma série procedural. E que vislumbre! A narrativa conjunta do oitavo e nono episódios desta primeira temporada foi certeira, não só nos adiantando consideravelmente em termos de trama geral, como introduzindo um orgânico encadeamento de eventos, que culmina em uma possível e gigantesca repercussão para o restante da temporada. The Saint of Last Resorts é certamente um dos melhores episódios da série, colocando-se em pé de igualdade com o ótimo e dramático A Feast of Friends, que, por sua vez, é citado mais de uma vez ao longo da trama – afinal, estamos novamente cara a cara com alguém do passado de John.

Antes de entrarmos de forma propriamente dita no episódio, vamos rememorar o que sabemos das ameaças ao universo de Constantine. Sabemos que há uma tal de rising darkness que enfraquece a barreira entre o Inferno e a Terra. Sabemos que Manny, o anjo, está bastante temeroso em relação a isso e conta com o exorcista inglês como uma espécie de faz-tudo. O que não temos a menor noção, contudo, é da causa dessa iminente calamidade ou até mesmo de que forma ela está se estabelecendo. Se olharmos mais com um pouco maior de cuidado logo perceberemos que a problemática foi inserida logo no primeiro episódio e que desde então muito pouco foi revelado – mais peças entraram no tabuleiro (Blessed Are the Damned é um ótimo exemplo disso), mas nada foi explicado.

Entramos, portanto em The Saint of Last Resorts, que, enfim, dá nome aos bois, revelando os verdadeiros culpados por trás da escuridão crescente (ou ascendente, dependendo da interpretação). Trazendo Anne Marie Flynn (Claire van der Boom) direto do passado perturbado de Constantine, o roteiro de Carly Wray – inexperiente, mas responsável pelo ótimo capítulo da sétima temporada de Mad MenWaterloo – já garante um tom mais sério à narrativa. Sabemos que haverá uma significativa progressão do enredo aqui, seja através do background dos personagens, seja por um literal avanço da trama. Obviamente, tal noção apenas se intensifica pelo nosso conhecimento prévio de que se trata de um midseason finale/ première.

Com uma estrutura dividida em duas partes, Wray sabiamente trabalha com dois atos claramente distintos. O primeiro gira em torno dos sequestros dos bebês e o segundo da possessão de John. Trata-se de duas histórias bem distintas, mas que contam com elementos coesivos que garantem a sensação de unidade. O mais notável desses é a construção da personagem Anne Marie, que ainda é claramente perturbada pelos eventos ocorridos na Inglaterra. Não é preciso dizer que a Brujeria é outro dos elementos que prendem o espectador nessa narrativa única.

Similar ao que vimos em Blessed Are the Damnedo capítulo expande consideravelmente a mitologia da série e, de forma interessante, trabalha com pontos que trazem uma notável ancestralidade à toda aquela conspiração. A já citada Brujeria é a mais evidente dessas, mas temos também a criatura que ataca John nos esgotos, que segundo o protagonista não havia sobrevivido ao último dilúvio. Trata-se apenas de uma linha rápida em um diálogo entre John e Zed, mas que abre curiosas indagações – o quanto do conteúdo bíblico, de fato, existe nesse universo?

Lidando agora diretamente com a segunda parte do episódio, impossível não elogiar o trabalho de Matt Ryan, que realmente nos faz acreditar em sua possessão. Obviamente não temos algo tão dramático quanto o que ocorre em Penny Dreadful, mas Ryan transmite perfeitamente a dor de seu personagem, em especial todo o sentimento de que ele ainda não pagou pelos seus pecados passados, tema bastante tratado durante a trama em questão. O mesmo, contudo, não pode ser dito de Angélica Celaya, que traz uma atuação quase robótica, sem qualquer emoção, consistindo em alguns pontos de quebra de ritmo durante o capítulo. Ainda assim, foi interessante observar uma divisão de pontos de vista, algo pouquíssimo utilizado em Constantine.

The Saint of Last Resorts é o que a série deveria ser em todos os seus capítulos, nos trazendo uma narrativa contínua, dramática, com uma resolução nada simples que deixa inúmeras pontas abertas para o restante de Constantine. A escuridão crescente, enfim, é levemente explicada e já prende o espectador no que está por vir. Resta saber se não voltaremos à velha estrutura (provavelmente sim) de demônio da semana. Felizmente, temos Matt Ryan para continuar a nos oferecer um ótimo trabalho como protagonista.

Constantine 1X08 e 09: The Saint of Last Resorts (EUA, 2014/15)
Showrunner: 
Daniel Cerone
Direção: T.J Scott
Roteiro: 
Carly Wray
Elenco: 
Matt Ryan, Angélica Celaya, Charles Halford, Harold Perrineau, Claire van der Boom,  Jonjo O’Neill, Charles Parnell

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.