Crítica | Contato

estrelas 4,5

The universe is a pretty big place. If it’s just us, seems like an awful waste of space.

Carl Sagan

Carl Sagan teve a ideia inicial para Contato em 1979. Sua intenção era realizar uma obra na qual fosse possível imaginar um contato entre humanos e alienígenas de um ponto de vista científico, cosmológico, afastando as vertentes mais comuns da ficção científica a respeito, que normalmente pendiam para o trágico, o medonho ou romântico. Com a contratação de Lynda Obst, uma grande amiga de Sagan, como Produtora Executiva da Casablanca FilmWorks, o projeto teve o primeiro impulso para se tornar um filme. Sagan e Ann Druyan (sua futura esposa) trabalharam em um tratamento de roteiro que ficou pronto em novembro de 1980. A partir daí, a transformação de Contato em filme iria percorrer uma longa jornada.

Depois de altos e baixos da produção sem um resultado prático, Sagan resolveu transformar o roteiro em um romance, que chegou às livrarias em setembro de 1985. Doze anos depois, já com o autor doente acompanhando a produção definitiva da obra (infelizmente ele não veria o filme pronto), Contato começou a ser rodado em diversas locações, tais como no Radiotelescópio de Arecibo (Porto Rico), no Observatório Very Large Array e National Radio Astronomy Observatory (Novo México, EUA), Ilhas Fiji, Parque Nacional Gros Morne (Canadá) e diversos lugares do Arizona, Flórida e Califórnia. Uma grande equipe de produção, com diversas unidades de filmagem e um grande desafio em termos de efeitos especiais e visuais, que envolveu 8 empresas do ramo, foram utilizados para representar na ficção um contato entre duas espécies, considerando o olhar da ciência para a grandeza e enorme riqueza do universo.

Com roteiro de James V. Hart e Michael Goldenberg, tendo como base o livro Contato (1985) e o tratamento de roteiro escrito por Sagan e Druyan em 1980, o filme faz uma profunda analogia entre ciência e religião, às vezes colocadas como inimigas, às vezes como lados diferentes de uma mesma moeda, chegando assim ao impasse entre as vertentes intelectuais e filosóficas (práticas e teóricas) da exploração do Universo, especialmente para o ramo de pesquisa encabeçado pelo SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), que mesmo agora, no século XXI, encontra grande preconceito por parte da comunidade científica e do público em geral.

Por mais que haja uma camada romântica no filme, não há nenhuma orientação no roteiro para que este ponto tenha maior destaque que outros mais importantes. O filme possui um pequeno problema de ritmo e encadeamento narrativo no início, mas depois que vemos a Doutora Eleanor Arroway em cena (Jodie Foster em uma interpretação forte e emotiva, especialmente no final), a trama segue fluída, com antagonistas interessantes e não demonizados pelo roteiro; fortes críticas ao escanteamento da mulher no mundo da ciência; indicações de apropriações indevidas de cientistas sobre a obra de colegas de profissão e, claro, o impasse religião X ciência que em um primeiro momento parece ser apenas um “tema chocante” do enredo, mas que se revela uma enorme porta aberta para a relativização das convicções dos indivíduos e o quanto o princípio metodológico da Navalha de Occam pode servir para justificar ou desacreditar qualquer pessoa que defende a existência/ocorrência de algo e não pode provar o que diz.

Entendam que o filme jamais coloca isso como justificativa para a defesa ensandecida de bobagens quaisquer. A obra questiona os princípios pessoais dos indivíduos, o embate entre seu intelecto e suas crenças e filosofias de vida, que muitas vezes os colocam em situações-armadilha difíceis de se desvencilhar. Percebam que a intenção geral é explorar essa armadilha de forma crítica, cética e até irônica, primeiro porque não se trata de uma coisa simples e depois porque seja na religião ou na ciência, a questão é a forma como a coisa é exposta e o que se pretende fazer com ela. Ao afirmar e defender uma teoria X, um indivíduo está apenas mostrando uma visão sua (ou de um grupo) para esse tema. Se não é intenção de tal indivíduo transformar isso em regra universal e forçar, condenar, acossar, segregar outros indivíduos por causa dessa teoria sem provas, não há absolutamente nenhum mal nisso, mesmo que, no final das contas, a afirmação de pouco valerá até que possa ser provada mediante os aceitáveis padrões científicos em vigência.

Percebam a postura da Doutora Eleanor Arroway ao final, que se colocou no lugar de seus “acusadores” e afirmou que havia sim a possibilidade de que tal experiência não tenha acontecido e que no lugar dos outros ela estaria agindo da mesma forma. Porque ela era uma cientista e sabia separar uma experiência possível de ser provada e uma outra que, pelo sim pelo não, fora apenas uma “vivência pessoal”. Quase religiosa, por assim dizer, inclusive este é o paralelo que o filme faz. Sem valor para a comunidade mas com enorme valor para a pessoa que passou pela experiência. Esta é a melhor forma de mostrar honesta e criticamente a tal briga de religião e ciência… A Doutora Eleanor Arroway não criou uma Inquisição pessoal para queimar os que não acreditavam nela, não explodiu os que eram contra sua experiência, não condenou ou segregou pessoas que adotavam um pensamento diferente daquilo que ela acreditava existir. Ela foi coerente o bastante para separar as coisas e seguir vivendo como cientista.

Contato é mais uma grande viagem em questões ético-morais e científicas que o cinema nos proporciona e isso feito com primazia desde a excelente sequência inicial, com uma tomada de perspectiva cósmica a ser melhor explorada com enorme uso de tela azul na viagem da Doutora Eleanor Arroway até Vega. Da preparação da viagem (a segunda vez) até o seu desfecho, temos os melhores momentos da música de Alan Silvestri e da fotografia de Don Burgess, que souberam ligar a carga emocional desse grande bloco dramático à sua importância dentro do filme. Há declaradas influências de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) nesse momento, que ganhou uma construção final extremamente poética, tratamento que inspiraria De Palma três anos depois, a seguir um rumo parecido no desfecho de Missão: Marte.

Contato é um dos filmes mais honestos e mais realistas ao trabalhar com o tema de encontro entre humanos e seres inteligentes de outros lugares do Universo. Como citei antes, o tema ainda causa polêmica e encontra forte resistência em diversas áreas da sociedade, postura que por si só já merece análise. As questões aqui expostas, no entanto, estão cada vez mais fortes e a cada nova descoberta de um exoplaneta em uma zona habitável, ganham um ponto a mais de relevância. Com o avanço da tecnologia aeroespacial, telescópios e outras máquinas que possam nos ajudar a conhecer melhor o Universo, talvez elas sejam sim, parte de nossas discussões em um futuro não muito distante.

Contato (Contact) — EUA, 1997
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: James V. Hart, Michael Goldenberg (baseado na obra de Carl Sagan e em um tratamento de roteiro de Carl Sagan e Ann Druyan).
Elenco: Jodie Foster, David Morse, Jena Malone, Geoffrey Blake, William Fichtner, Sami Chester, Timothy McNeil, Laura Elena Surillo, Matthew McConaughey, Tom Skerritt
Duração: 150 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.