Crítica | Conto do Inverno

estrelas 2

Escrita em 1623, Conto do Inverno conta com uma narrativa que pode confundir o leitor pela sua classificação como comédia. Os três primeiros atos da peça desenrolam o drama psicológico de Leontes, rei da Sicília, que suspeita que seu amigo de infância, Camillo, e sua esposa, Hermione, estão tendo um caso. Somente nos dois atos finais a produção, enfim, caminha para seu tom mais leve de comédia, encerrando desta forma.

A adaptação de Jane Howell, parte da BBC Shakespeare Collection, consegue trazer para a tela toda a angústia e ciúmes de Leontes. Seus dilemas e diálogos internos são realizados através de uma quebra de realidade, na qual o personagem se vira para a câmera, proferindo todas as suas dúvidas – ponto herdado diretamente do teatro. Tal fator, não comumente utilizado no cinema, consegue entreter o espectador graças à atuação de Jeremy Kemp, que nos entrega um rei verdadeiramente aflito. Tal qualidade, porém, não se mantém ao longo da trama – quando de fato há a mudança no tom da narrativa o personagem não acompanha, provocando uma quebra de imersão do espectador.

Tal imersão, porém, já era prejudicada pela escolha de Howell a utilizar apenas um set para todo o filme. O resultado de tal opção são cenários vazios, pouco detalhados que dão um toque de produção amadora à obra. A diferença nas estações é somente evidenciada pela troca do fundo (através de tons monocromáticos). No fim parece realmente estarmos assistindo um teatro filmado, por mais que a fotografia e montagem tentem esconder isso. Nesse aspecto, há um grande contraste com outras obras da mesma coletânea, como é visto em Como Gostais.

A tentativa de trazer a peça em sua integridade para a tela também não contribue para o resultado final, dando uma duração desnecessária para o longa-metragem. Diversas cenas poderiam ter sido cortadas, contribuindo para a dinâmica do filme que vai se perdendo conforme atinge seu tom de comédia. No fim, poucos elementos conseguem prender a atenção do espectador, tornando esta uma obra um atrativo somente para os aficionados por Shakespeare.

Conto do Inverno é um filme prejudicado pela própria mudança de tom da obra original e pela ausência de cenários bem trabalhados. O cuidado com o figurino não atingiu todas as partes do longa e a comédia não chegou até determinados personagens, que vão perdendo sua força conforme o longa progride.

Conto do Inverno (The Winter’s Tale) – Reino Unido, 1981
Direção: Jane Howell
Roteiro: William Shakespeare
Elenco:  John Welsh, David Burke, Robert Stephens, Jeremy Kemp, Anna Calder-Marshall, Jeremy Dimmick, Merelina Kendall, Cyril Luckham, Margaret Tyzack, John Benfield.
Duração: 173 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.