Crítica | Conversas com Kubrick, de Michel Ciment

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estrelas 4,5

Por alguma razão que não consigo explicar exatamente, não gosto de biografias e autobiografias. Pode ser pela reverência à pessoa biografa ou pelos auto-elogios ou simplesmente algo mais primal, simplesmente não sou atraído por elas. Já li várias e de vários tipos de pessoas, mas nunca realmente gostei de nenhuma.

Mas queria ler algo mais consistente sobre Stanley Kubrick e imaginei que uma biografia seria o caminho mais fácil. Existem várias por aí. Folheei muitas, quase comprei algumas, mas sempre hesitei. Até que me deparei com Conversas com Kubrick, escrita pelo grande crítico francês Michel Ciment, editor da revista de cinema Positif. Seu nome, mais do que o do próprio Kubrick, me fisgou e, em um impulso, comprei. Ajudou em minha escolha a bela edição em português da editora Cosac Naify, em capa dura, detalhes em laranja e capa e ilustrações em preto-e-branco. No mínimo ficaria bonito em minha estante.

kubrick livroQuando comecei a ler, senti-me inicialmente enganado. Afinal de contas, o título é Conversas com Kubrick. Esperava um livro de entrevistas com esse grande diretor, entrevistas essas capitaneadas por Ciment. Mas esse título é só mesmo em português, pois o original é, simplesente, Kubrick, o que dá maior amplitude à obra e mais liberdade estrutural à Ciment.

Todos sabem – ou deveriam saber – que Stanley Kubrick era um homem obcecado pelo processo criativo de seus filmes e sua preocupação era com todos os estágios da produção, até mesmo com as campanhas de marketing que venderiam suas obras ao público. Mas ele era um recluso. Não exatamente um ermitão, mas alguém que, mudando-se para a Inglaterra, procurou viver com sua família e seus animais de estimação em uma casa afastada da civilização exatamente para poder se concentrar no que gostava, na sua obsessão. Assim, seu tempo – e sua vontade, claro – para sair por aí falando de seus filmes era muito pouco e o resultado disso é que, em sua vida, ele deu relativamente pouquíssimas entrevistas e só a repórteres de sua escolha. Michel Ciment era um deles, mas, mesmo assim, e isso pode ser visto em Conversas com Kubrick, suas respostas e comentários eram um exemplo de concisão, erudição (mas não daquele tipo desnecessário, só para mostrar que sabe) e inteligência. Nada de enrolação, só, efetivamente, as respostas.

O resultado de tudo isso, então, não daria mais do que um curtíssimo livro e Ciment trabalhou em volta das entrevistas, recheando sua obra com suas impressões (são bem mais que críticas) sobre as obras do diretor e, também, com entrevistas com colaboradores de Kubrick, como o produtor James B. Harris (O Grande Golpe, Glória Feita de Sangue, Lolita), o diretor de arte Ken Adam (Barry Lyndon e Dr. Fantástico), o diretor de fotografia John Alcott (Laranja Mecânica, Barry Lyndon e O Iluminado), o diretor de publicidade Julian Senior, encarregado da divulgação de filmes da Warner na Europa (e que trabalhou em Laranja Mecânica) e diversos outros, sem se esquecer, claro, da dupla Jack Nicholson e Shelley Duvall, de O Iluminado. Assim, temos uma visão de 360º de Kubrick, um panorama técnico, outro sentimental, outro diretamente da boca dele e outro visto por quem viveu o dia-a-dia das produções em diversas capacidades. E, apesar da 1ª edição do livro datar de 1980, ele é atualizado até depois da última obra do mestre, De Olhos Bem Fechados, com impressões e entrevistas complementares.

Apesar de potencialmente não ser mais profundo do que uma biografia poderia ser, Conversas com Kubrick não é um livro básico, simples. Apesar de ter o tom reverencial – mas mais discreto – do documentário Stanley Kubrick: A Life  in Pictures, o livro é muito mais denso do que a obra de Jan Harlan. Isso porque Ciment não se preocupa em pavimentar o caminho que vai trilhar. Ao contrário, ele escreve para quem, por contra própria e a partir de outras fontes, especialmente os próprios filmes do diretor, já pavimentou completamente esse caminho. Nada de Kubrick básico. Esse livro é para quem já viu, reviu e reviu mais outras vezes cada uma das obras do diretor e já leu muita coisa sobre ele. É um complemento detalhista de diversos aspectos da obra que foca nos filmes, não exatamente no diretor, ainda que os primeiros sejam, evidentemente, extensões da mente do segundo. Assim, Conversas com Kubrick não deve ser a fonte de onde um interessado em Kubrick deva beber primeiro.

Sobre a estrutura do livro, a primeira parte é toda escrita por Ciment e ele rapidamente faz um histórico da carreira de Kubrick, como ele começou na vida de cineasta. Depois, ele parte para uma estranha seção em que ele “joga” 20 pensamentos dele sobre a obra completa do diretor, em parágrafos um tanto desordenados. Esse é o trecho que mereceria um certo reparo no livro, ainda que a intenção do escritor tenha sido basicamente usar o capítulo para fazer apontamentos um tanto quanto aleatórios, mas nunca desinteressantes. Em seguida, no capítulo Kubrick e o Fantástico, ele nos apresenta aos dois filmes de Kubrick que ele considera são do gênero que ele classifica como “fantástico” (não em qualidade, mas como gênero mesmo). Ele classifica Laranja Mecânica e Dr. Fantástico como ficções políticas, não científicas para justificar o porquê de seu foco ser 2001 e O Iluminado, as duas únicas obras que, segundo ele, não apenas tangenciam o fantástico, como mergulham profundamente nele.

E, com isso estabelecido, ele parte para fazer um ensaio de cada um desses filmes, mas de forma conectada, mostrando magnificamente como a estrutura de O Iluminado acompanha a estrutura de 2001. Ele mostra, com lógica irrefutável, que “sua [de O Iluminado] estrutura narrativa também obedece ao número quatro, mesmo que a relação temporal entre as partes seja singularmente diferente”.

Que número quatro é esse? Vejam, então, sua brilhante conclusão, que resumirei aqui em brevíssimas e, provavelmente, incompletas palavras: (1) a abertura de O Iluminado é composta de “uma paisagem grandiosa de montanha, florestas e lagos, onde os personagens estão perdidos, esmagados, dominados” e a abertura de 2001, com “A Aurora da Humanidade” mostra exatamente a mesma coisa; (2) o segundo movimento de O Iluminado, no Hotel Overlook, apresenta “relações sociais estereotipadas”, na sequência em que Jack é tratado cordialmente pelo diretor do hotel; em 2001, o mesmo acontece antes da partida da Discovery na Lua; (3) o terceiro movimento é o isolamento do Hotel Overlook e o encaminhamento para a loucura e não é que o mesmo acontece no isolamento na nave espacial de 2001 e a “loucura” de Hal?; (4) finalmente, o quarto movimento, que encerra os filmes, é sem falas, “uma viagem de iniciação, de morte e de transfiguração, dessa vez dentro do labirinto, e que termina no passado, com uma música nostálgica dos anos 1920” e que remete à decoração antiga do “quarto” de David em 2001 com a valsa de Strauss. Se isso não é uma das razões para se ler o livro, não sei como mais faria para convencê-los.

Mas, em seguida aos ensaios, vemos três entrevistas com Kubrick, no estilo que tratei mais acima, uma em 1972 (Laranja Mecânica), outra em 1976 (Barry Lyndon) e, finalmente, a terceira em 1980 (O Iluminado). Kubrick é direto e técnico em suas respostas, sendo quase inacreditável que ele as tenha dado assim, de supetão, a Ciment (mas Ciment é franco ao dizer que Kubrick sempre lia e aprovava antes o texto final, para ter certeza que nenhum repórter deixaria algo importante de fora ou alteraria o sentido do que falara).

Em seguida, vêm os depoimentos que fecham a edição original de 1980. Nas duas seções que seguem, acrescentadas nas edições seguintes, Ciment trata do que ele chama de “O Número 12” e “O Número 13”, referenciado, claro, Nascido para Matar e De Olhos Bem Fechados e emula, com mais brevidade e encapsulado nesses capítulos, a estrutura que mencionei anteriormente composta de suas impressões, entrevista com Kubrick e depoimentos de terceiros.

O resultado é um livro de rara visão sobre a obra de um cineasta de enorme influência na Sétima Arte. Conversas com Kubrick pode não substituir uma bem-escrita biografia, mas sua combinação de elementos díspares em um todo coeso nos coloca em diversas posições diferentes para observarmos o conjunto da obra de Kubrick e, por isso, é essencial para quem quer saber mais sobre o diretor.

Conversas com Kubrick (Kubrick, França – 1980, 1987, 1999, 2001, 2004, 2011)
Autor: Michel Ciment
Editora (na França): Calmann-Lévy
Editora (no Brasil): Cosac Naify (edição publicada em 2013)
Tradução: Eloisa Araújo Ribeiro
Páginas: 386

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.