Crítica | Coração Satânico

Em determinado trecho do poema trágico Fausto, o alemão Goethe afirma que “desde Adão até os dias atuais”, os seres humanos são seduzidos pela enigmática figura diabólica. Seus registros estão presentes em vários “cartórios” da humanidade. Asmodeus, para os hebreus. Eblis, conforme os mulçumanos. The Old Man, para os escoceses. O Macaco de Deus, ao longo da Idade Média. O Inimigo, o Tentador, o Pai da Mentira, o Príncipe das Trevas, o Maligno, o Tinhoso. São muitos nomes, diversas as alcunhas, representações múltiplas de uma das entidades mais referenciadas, como já apontado, na história da humanidade.

Poucos personagens em nossa história cultural possuem um legado tão vasto, repleto de releituras que interpretam, aos seus respectivos modos, a sua existência. Pelo título, o leitor já sabe de quem estamos falando. Dele mesmo, do chamado “Príncipe das Trevas”. Só no campo das biografias, o Diabo já demonstrou participação plena, tal como uma celebridade da cultura pop. Em 1966, Alberto Cousté lançou Biografia do Diabo. No começo dos anos 1990, Gerard Messadié veiculou História Geral do Diabo no meio editorial, seguido de O Diabo – Uma Máscara Sem Rosto, de Luther Link, em 1995, e O Diabo – Uma Biografia, de Peter Stanford, em 1996.

Pensa que acabou? Ledo engano. Nos anos 2000, tivemos Uma História do Diabo, de Robert Muchembled e O Diabo no Imaginário Cristão, de Carlos Roberto Nogueira, além de Escrituras de Deus e o Diabo, publicado por Bárbara Simões e Robert Daubert Jr, em 2012. Diante do exposto, o personagem, tal como ilustrado nesta sequência de filmes, possui muita popularidade, uma das maiores que possamos imaginar, quando olhamos pelo viés “literário” da questão. No bojo do cinema, as interpretações são vastas e uma das mais conhecidas é Coração Satânico, dirigido e escrito por Alan Parker, em 1987, inspirado no livro homônimo de William Hjortsberg.

Harry Angel (Mickey Rourke) é a vítima da vez. Ele é um detetive particular envolvido numa investigação que se complica ao passo que cada peça da análise dos dados da situação vai ganhando significado e dando forma ao terrível segredo por detrás da contratação do enigmático cliente, o soturno Louis Cyphre (Robert De Niro). A história se inicia em 1955, em Nova Iorque, para logo mais, deslocar para Nova Orleans. Angel é contratado para encontrar Johnny Favourite, um cantor desaparecido, personagem que possui elo com o poderoso Cyphre, mas na esteira da investigação, várias pessoas abordadas pelo detetive começam a morrer misteriosamente. O que pode estar por detrás de tanto mistério?

É o que Alan Parker e sua competente equipe de produção contam ao passo que o filme, visualmente eficiente, narra. Em Coração Satânico, os realizadores dão conta do clima soturno proposto pelo roteiro, inspirado no eficiente livro de William Hjortsberg. O design de produção de Brian Morris delineia a agonia interna dos personagens por meio da densa e macabra atmosfera externa, repleta de símbolos ocultos. A presença do vermelho, em contraste com as a paleta opaca de alguns trechos, colabora com a construção visual do filme, repleto de cenas sangrentas, bastante presente no filme, haja vista os rituais e sacrifícios constantes. A direção de fotografia de Michael Seresin é certeira ao apostar nos movimentos e enquadramentos ideias na captação do que é essencial para o desenvolvimento da narrativa. No que tange aos aspectos sonoros, o filme consegue êxito, graças ao eficiente Trevor Jones na condução musical.

Diante do exposto, podemos afirmar que Coração Satânico é um filme bem sucedido. Há, no roteiro de Alan Parker, uma articulação com o clássico alemão Fausto, de Goethe. O texto é sábio ao emular os elementos centrais do mito de Fausto, erguido com base nos elementos locais do tempo e do espaço narrativo, isto é, a cultura de Nova Orleans, interpolada por ressonâncias francesas, africanas, espanholas e britânicas, numa mixagem cultural que dialoga com rituais demarcados por regras específicas, tais como as danças simbólicas, os sacrifícios de animais e as músicas/rezas encantatórias.

Há, ainda, alguns paralelos com a trajetória de Édipo Rei, tragédia grega de Sófocles. O protagonista de Coração Satânico tenta ao máximo evitar confrontar o destino que lhe é reservado, mas ao encontrar na pessoa investigada a própria identidade, percebe que não há escapatória diante das que está destinado. Johhny Favourite faz uso da magia negra para se apossar do corpo de Harry Angel, homem que sequer tem consciência da sua vida pregressa. O Diabo, de forma irônica, manipula o personagem, tendo em vista cobrar o débito em aberto.

Desta maneira, percebemos que Johhny Favourite, diante do abismo da vaidade humana, um dos pecados prediletos do personagem de Al Pacino em O Advogado do Diabo, se vê tentado a pactuar com o Diabo em troca de sucesso em sua carreira fadada ao fracasso, haja vista o seu parco talento como artista da música. O problema é que ele tenta de toda maneira se esquivar do contrato diabólico, mas o “tinhoso” consegue estabelecer um plano maquiavélico e sabota as suas estratégias de fuga.

Favourite, provável leitor de Platão, filósofo que acreditava ser o corpo apenas um veículo para a alma, a “verdadeira essência do ser humano”, acreditava ser possível se livrar dos pecados anteriores por meio de uma nova vida, sem ter que pagar a dívida com Lúcifer. Novo corpo, nova vida, novos rumos. Era o esperado, mas para a desgraça de Harry Angel, as forças do inferno estavam com planejamento bem mais articulado.

Carregado de elementos inquietantes, Coração Satânico eleva ao máximo a sua carga dramática ao nos revelar que a jovem Epiphany (Lisa Bonet), personagem com quem Harry Angel manteve relações sexuais, na verdade, era a sua própria filha, o que faz aumentar ainda mais a agonia do personagem diante de tantas revelações pavorosas.  Por meio de estratégias narrativas que nos remete ao estilo noir, a produção é demarca uma das mais criativas e bem estruturadas incursões do Diabo no cinema.

Coração Satânico — (Angel Heart) Estados Unidos, 1987.
Direção: Alan Parker
Roteiro: Alan Parker, William Hjortsberg
Elenco:  Mickey Rourke, Robert De Niro, Arlena Rolant, Brownie McGhee, Charles Gordone, Charlotte Rampling, Curtis Pierre, Dann Florek, Darrell Beasley, Dave Petitjean, Deacon John Moore, Eliott Keener, Elizabeth Whitcraft, Ernest Watson, Francesca J. Ridge, George Buck, Gerald Orange, Greer Goff, Hope Clarke, Jarrett Narcisse, Jerome Reddick, Joel Adam, Joshua Frank, Judith Drake, Karen Davis, Karmen Harris
Duração: 108 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.