Crítica | Coração Selvagem (1990)

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estrelas 3,5

Quando David Lynch lançou Veludo Azul, o diretor cravou definitivamente seu nome na história do cinema, construindo uma obra intrigante e provocativa que pode ser tranquilamente colocada no grupo de obras-primas daquela década. Além disso, Lynch já possuía trabalhos magistrais em sua carreira, como o fantástico O Homem Elefante e Eraserhead. Portanto, a expectativa para seu próximo longa era enorme, mas o realizador deixou de lado os filmes enigmáticos e apostou em uma história de amor, contada de maneira bastante peculiar, como vemos em Coração Selvagem.

A obra conta a história de dois jovens namorados, Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern), que tentam fugir da perseguição de Marietta (Diane Ladd), mãe da garota e que não aprova a relação, portanto, ela manda assassinos profissionais matar o rapaz. Durante a viagem, eles fazem muito sexo, compartilham seus passados e conhecem diversos pessoas bizarras, mas a mais estranha delas se chama Bobby Peru (Willem Dafoe), um ex-fuzileiro que tenta se aproximar do casal.

David Lynch nos entrega aqui uma verdadeira subversão dos contos de fada, deixando clara sua estratégia logo na cena inicial, quando somos apresentados a um ambiente polido e com música clássica que logo é rompida por uma guitarra alta e um assassinato brutal, cometido pelo protagonista. Mas, assim como em qualquer outro conto de fadas, há um casal apaixonado como protagonista, mas o roteiro, escrito por Lynch, conta a história de amor com uma pegada juvenil e atual, por exemplo, a demonstração de afeto dos dois personagens acontece durante o sexo e os elogios apaixonados são referentes à atuação do parceiro na cama ou ao tamanho do pênis dele e peito dela, aliás, repare como Sailor presenteia Lula com uma pulseira feita de doces, destacando a infantilidade da paixão deles. Além disso, Lynch desenvolve a relação dos protagonistas durante sua viagem pela estrada, que, inclusive, é comparada várias vezes com o caminho de tijolinhos amarelos, de O Mágico de Oz, dando um ritmo leve e dinâmico ao longa, que torna-se uma divertida mistura de conto de fadas com road movie.

Portanto, os melhores momentos do longa envolvem justamente a interação entre o casal, como na belíssima cena em que Sailor canta Love Me, de Elvis Presley, para sua amada, enquanto Lynch magistralmente banha o momento com um intenso vermelho para representar o amor. Falando nisso, o protagonista é construído como uma espécie de versão alternativa do famoso cantor, algo destacado pela sensacional atuação de Nicolas Cage, em um dos grandes trabalhos de sua carreira, demonstrando toda a irreverência, jovialidade e ar de liberdade do personagem. Entretanto, se o casal principal funciona, é também graças à interpretação de Laura Dern, sabendo dosar com maestria a ingenuidade e intensa sensualidade da garota.

Para evocar o mundo dos contos de fada, Lynch inteligentemente recorre à diversos adereços cênicos e uma fotografia colorida e vibrante. Durante as cenas de sexo, por exemplo, o diretor opta por alguns cortes que enchem o quadro com as cores vermelho e amarelo, demonstrando o momento ‘‘mágico’’ e apaixonado que o casal vive. Baseado nisso, repare como o carro utilizado pelo Sr. Peru, responsável por instigar Sailor a cometer um assalto, é vermelho, mesma cor da maçã utilizada pela bruxa para tentar a Branca de Neve a comê-la; ou como Lula observa a estatueta de um cavalo enquanto espera seu amado, como se fosse uma princesa aguardando seu príncipe chegar com o alazão. Por fim, a direção de arte e figurino são hábeis em criar contrastes entre Lula e sua mãe, mostrando como uma é autêntica e livre, enquanto a outra se esconde atrás de uma aparência refinada, como em sua casa pintada com um exagerado branco, assim como suas vestes, mas que escondem seu lado macabro, algo destacado pela chocante cena em que ela pinta seu rosto com batom.

No entanto, se os melhores momentos do filme envolvem a dupla de protagonistas, os piores ocorrem quando os vilões estão em tela. O diretor falha na maneira que dosa a presença dos antagonistas, uma vez que eles somem e aparecem da narrativa sem sutileza alguma e, para piorar, personagens que aparentam ser importantes dentro da trama, como o excêntrico casal de negros contratados para assassinar Sailor, são pouco explorados e não passam de uma ponta. Além disso, o grande vilão do filme, interpretado brilhantemente por Willem Dafoe, surge faltando apenas 40 minutos, deixando a sensação de que ele não foi aproveitado o suficiente. Ademais, até as motivações de Marietta, representada de maneira insana por Diane Ladd, parecem fúteis, soando como um mero ódio por ódio ou algo ainda mais simplista, como uma espécie de ciúmes que ela sente por sua primogênita.

Para compensar, o desfecho da película é bastante emocionante. Mesmo depois de vários momentos violentos presentes no terceiro ato, é belíssima a cena final em que Sailor canta Love Me Tender para Lula, música que ele prometeu, no início do filme, interpretar apenas para sua futura esposa, um mérito do roteiro que plantou a informação para entregá-la depois, despertando uma inevitável sensação boa quando nos lembramos da referência.

Se comparado a outros filmes da carreira de David Lynch, Coração Selvagem diminui consideravelmente; contudo, mesmo não sendo uma obra-prima do cineasta, ainda é um trabalho de Lynch, portanto, algumas ideias desenvolvidas aqui são muitos mais interessantes do que em diversos filmes do gênero.

Coração Selvagem (Wild at Heart) — EUA, 1990
Direção:
David Lynch
Roteiro: David Lynch (baseado na obra de Barry Gifford)
Elenco: Nicolas Cage, Laura Dern, Willem Dafoe, J. E. Freeman, Crispin Glover, Diane Ladd, Calvin Lockhart, Isabella Rossellini, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie, Sherilyn Fenn
Duração: 124 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.