Crítica | Coraline e o Mundo Secreto

estrelas 5,0

Tem muita gente que acha que o diretor de O Estranho Mundo de Jack é o aclamado – mas repetitivo – Tim Burton. Pois é: tem muita gente errada.

O diretor do mais famoso desenho animado em stop-motion (técnica de animação com bonecos que são movimentados à mão, quadro-a-quadro, 24 vezes por segundo) é, na verdade, Henry Selick. Tim Burton produziu O Estranho Mundo de Jack apenas. O que ele dirigiu com essa técnica foi Noiva Cadáver e, mais recentemente, Frankenweenie. Independente disso, é fato que tanto O Estranho Mundo de Jack quanto Noiva Cadáver e Frankenweenie são primores dessa técnica.

No entanto, Coraline consegue, talvez, ser ainda melhor que os demais. Mérito de Henry Selick que novamente insistiu na técnica que o deixou famoso. Não sei exatamente explicar o que diferencia o stop-motion da computação gráfica estilo Pixar sob o ponto de vista do espectador médio, mas há diferenças palpáveis. Talvez saber que um filme foi feito em stop-motion nos faça dar mais valor a ele pois, afinal de contas, cada segundo do filme gerou a movimentação dos bonecos e do cenário 24 vezes. Façam as contas e vejam quantas vezes a câmera parou para os técnicos movimentarem os personagens, as árvores e tudo mais que vemos diante das câmeras e imaginem o pesadelo logístico que deve ser isso. Filmes bons em stop-motion merecem todos os elogios e apoio dos espectadores. Não é à toa que O Estranho Mundo de Jack é reprisado todos os anos nos cinemas americanos, na semana do Halloween.

Coraline vai dois passos além em comparação com seus antecessores: é o primeiro stop-motion filmado diretamente em 3D e é baseado em obra literária (que depois foi adaptada para quadrinhos) de ninguém menos do que Neil Gaiman. É o avanço tecnológico (duvido em geral, no caso do 3D) e o contar histórias de Gaiman reunidos em um só pacote.

Sobre o 3D, essa técnica, apesar de usada e abusada pelos estúdios americanos, tem sido instrumento narrativo de algumas poucas obras que se destacam no meio de um manancial de armadilhas para o nosso dinheiro. Minha posição sobre o 3D é bastante óbvia e já a deixei clara nesse artigo aqui, mas basta dizer que a considero inútil 99% das vezes. Apesar de Coraline não entrar na minha lista pessoal de “melhor uso de 3D”, a grande verdade é que o esforço de Selick merece reconhecimento, pois a técnica acaba enriquecendo a narrativa nos ajudando a efetivamente entrar em seu colorido mundo alternativo (ou “mundo secreto” do desnecessário sub-título em português).

Sobre Neil Gaiman, ele é o criador de histórias sensacionais, conhecido pelo clássico Sandman, o psicodélico “super-herói” dos sonhos e, no cinema, por Stardust: O Mistério da Estrela e Máscara da Ilusão, dois ótimos filmes, especialmente o segundo. Seu estilo neo-gótico é carregado perfeitamente bem para dentro da história, em um trabalho mais assustador do que qualquer outra coisa.

A fita narra a história de Coraline, uma menina que se muda com os pais para um casarão rosa. Eles são severos e trabalham o tempo todo escrevendo livros de jardinagem, apesar de não gostarem de jardins, atividade que lhes toma todo o tempo disponível, afastando-os da menina. Coraline, então, sai explorando o terreno e a casa e acaba encontrando um garoto estranho que é neto da proprietária da mansão e, também, os três outros inquilinos: duas senhoras que outrora foram atrizes de teatro e que, hoje, vivem do passado junto com seus cães Terrier (e vários outros empalhados como se fossem anjinhos de presépio) e um malabarista louco que tem um circo de camundongos saltadores, mas que ele não mostra para ninguém.

Nesse ambiente, Coraline acaba se sentindo sozinha e esbarra em uma porta secreta que se abre para outro mundo, uma espécie de outra dimensão em que seus  pais alternativos só dão atenção à ela e seus vizinhos são, digamos, mais coerentes. O único problema é que, nesse mundo, todas as pessoas, inclusive seus pais, têm botões no lugar dos olhos. Coraline então descobre que nem tudo são flores e sua aventura começa a ficar perigosa.

Apesar de ser vendido como uma obra infantil, Coraline não é para os bem pequenos. Só o conceito de botões no lugar de olhos – tal qual bonecas antigas – já é bastante tenebroso, algo que, quem conhece, sabe ser bem no estilo de Neil Gaiman. Mas o que realmente retira Coraline da categoria de “filmes para criancinhas” é sua atmosfera gótica e escurecida. O design de produção é preciso na criação de elementos fantásticos que assombram pela originalidade, sem se preocupar com a beleza em seu conceito pasteurizado que aprendemos a gostar. Assim, dos personagens às casas e aos animais, passando pelos objetos do dia-a-dia e vegetação, nada é de aceitação automática. Somos forçados a nos despir do que esperamos para sermos agraciados com generosas doses de originalidade e, sim, genialidade.

A fotografia, também emulando a atmosfera gótica, trabalha com iluminação esparsa, usada de maneira cadenciada e precisa para nos passar, ao mesmo tempo, deslumbramento e assombração. Isso pode ser visto especialmente quando Coraline rasteja pelos mais diversos lugares escuros ou quando atravessa o “portal para a outra dimensão”. A trilha sonora, composta por Bruno Coulais e por They Might Be Giants alterna entre tons de thriller de suspense e de melancolia, em uma mescla que não só nos faz enxergar o âmago da entristecida mas valente Coraline, como combina perfeitamente bem com a atmosfera criada pelo design de produção e fotografia. É como assistir e ouvir um pesadelo benigno, se é que algo assim realmente pode existir.

No final das contas, a história, que conta com mensagem importante e muito necessária nos dias de hoje (dê valor ao que você tem!) e roteiro impecável, somada à realmente impressionante qualidade do stop-motion, torna Coraline um grande filme para todas as gerações, ainda que os mais novos vão se assustar mais do que extrair a moral da história.

Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, EUA – 2009)
Direção: Henry Selick
Roteiro: Henry Selick (baseado em obra de Neil Gaiman)
Elenco: Dakota Fanning, Teri Hatcher, Jennifer Saunders, Dawn French, John Hodgman, Ian McShane, Keith David, Robert Bailey, Jr., Aankha Neal
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.