Crítica | Corpo e Alma (2017)

O candidato da Hungria ao Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro e que abocanhou, dentre outros, o Urso de Ouro do Festival de Berlim, é uma belíssima história de amor que, em muitos aspectos, lembra A Forma da Água, de Guillermo del Toro. Basta, para isso, retirar o aspecto fantástico e trazer a história para um recorte da realidade e imaginar uma aproximação entre a bela e a fera de uma maneira bem menos óbvia e fabulesca, ainda que o elemento de fábula continue presente. Não entenderam? Então deixe-me tentar explicar.

Mária (Alexandra Borbély) é uma bela, mas extremamente tímida mulher que começa a trabalhar como inspetora de qualidade de um abatedouro onde o mais velho e abrutalhado Endre (Géza Morcsányi) é o diretor financeiro. Inicialmente, estabelece-se um conflito com a presença de Mária por ali, já que ela é extremamente rígida em suas avaliações, logo rebaixando o selo de qualidade da carne que é lá processada, o que provoca os primeiros contatos de Endre com ela, todos infrutíferos. Ao longo desse início lento, mas intrigante, as sequências são intercaladas com outras lindíssimas sequências em que vemos dois cervos – um macho e uma fêmea – em uma paisagem nevada, lentamente se aproximando e estabelecendo contato.

É instintivo conectar a história de Mária e Endre com os cervos, mas, conforme a história se desenvolve, o toque fabulesco que mencionei acima começa a surgir quando, em razão de um incidente esdrúxulo que acontece off camera, uma psicóloga é contratada para avaliar todos os funcionários do abatedouro e, no processo, os dois descobrem – e nós, como observadores – que as sequências com os cervos são sonhos que ambos têm simultaneamente. Mas calma, pois isso não é spoiler e sim a premissa da narrativa.

Usando essa bizarra conexão como trampolim, o roteiro de Ildikó Enyedi vai lentamente fazendo as histórias de Mária e Endre convergir, sem deixar de pontuar a narrativa com a brutalidade do dia-a-dia do abatedouro como pano de fundo. Aos poucos, vamos descobrindo um pouco mais da reclusa moça que vive em um redoma justa em volta de si mesma, impedindo-a de viver a vida em sua plenitude e um pouco mais do maduro Endre, com um passado que projeta sombras no presente que o deixa incomodado. Sua aparência mais velha e seu braço paralisado, que dificultam seus movimentos e sua vida doméstica, emprestam o viés “Fera” em oposição à “Bela” que é a tônica desse conto moderno, assim como o é, mais obviamente, o já citado filme de Del Toro.

Alexandra Borbély e Géza Morcsányi têm uma improvável química que os conecta em suas respectivas relutâncias. Muito mais com olhares e gestos discretos – além de uma exata movimentação de câmera – do que com palavras, o estranho romance entre os dois que já acontece no mundo onírico começa a tomar um semblante de forma no mundo real. Os cervos poderosos, belos e vivos nos sonhos contrastam fortemente com o gado sendo morto ritualisticamente no abatedouro, entrelaçando os dois com a tentação da “carne” de uma forma sem dúvida grotesca, mas que ganha uma execução de se tirar o chapéu. É particularmente interessante ver a relação de Mária, tão delicada e avessa a contatos físicos, com a brutalidade do que a cerca diariamente. A jovem, talvez exatamente por ser como é, consegue passar incólume pelo massacre e picotamento de vacas que embrulha o estômago até dos mais carnívoros dos humanos. Ou, talvez, ela seja como é em razão de sua profissão, vai saber.

A diretora se esmera em contrastar os dois também em seus rituais diárias. Frugais, ambos vivem um vida repetitiva, monótona e muito simples, sem luxos, mas Mária é a antítese de Endre. Ela é tomada por T.O.C., não consegue deixar farelos ou gotas em cima de superfícies, sendo obsessiva na forma como faz as coisas, desde suas avaliações da carne do abatedouro até a maneira como ela tira os chinelos para dormir. E a fotografia de Máté Herbai reflete em sua escolha da paleta de cores esse mundo de Mária, com cores pasteis tomando seu apartamento e sua vida. O outro lado da moeda é o apartamento escuro e bagunçado de Endre, algo explicado por seu problema motor, mas também por sua forma desleixada de lidar com sua vida. A aproximação dos dois chega a ser cômica, mas sensível e bonita.

Perpassando o aspecto central da fita, Ildikó Enyedi não deixa de salpicar sua história com elementos que fincam a narrativa no mundo em que vivemos. O machismo em breves comentários aqui e ali, o preconceito baseado em aparências, o assédio sexual (ou, pelo menos, comportamentos reprováveis) se fazem presentes constantemente, inclusive e especialmente em relação a Endre.

A beleza de Corpo e Alma está em ver o estranho tornar-se amável e compreensível, o feio tornar-se bonito e o improvável efetivamente acontecer. Sim, há uma carga de fábula no filme, mas essa carga é, apenas, um fio condutor para um história com grandes atuações que delicadamente tocará corações.

Corpo e Alma (Teströl és lélekröl) – Hungria, 2017
Direção: Ildikó Enyedi
Roteiro: Ildikó Enyedi
Elenco: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider, Ervin Nagy, Tamás Jordán, Zsuzsa Járó, Réka Tenki, Júlia Nyakó, Itala Békés
Duração: 116 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.