Crítica | Corpo Fechado

CorpoFechado

estrelas 5,0

Obs: Há potenciais spoilers

Após o enorme sucesso de O Sexto Sentido, a expectativa sobre o próximo filme de M. Night Shyamalan foi enorme. Além de demonstrar talento em conduzir a narrativa, o diretor chamou a atenção por seu roteiro complexo e com o famoso plot twist no final. Apesar de alcançar a fama através de uma história sobrenatural, o indiano escolheu para seu próximo longa contar uma história de super-herói, trazendo para o subgênero o famoso suspense que ele já mostrou saber construir.

O longa conta a história de David Dunne (Bruce Willis), um segurança que sai completamente ileso de um acidente de trem que matou todos os passageiros, espantando os médicos e a si mesmo. Buscando explicações sobre o ocorrido, ele encontra Elijah Price (Samuel L. Jackson), um estranho que apresenta uma explicação bizarra para o fato.

Grande fã de histórias em quadrinhos, Shyamalan constrói aqui um verdadeiro filme de super-herói, com vários elementos do gênero: o protagonista descobrindo seus poderes, a interferência que isso traz para sua família, a revelação de seu ponto fraco, o medo em agir como herói, entre outros. Mas, ao invés de optar pelo fantástico, o diretor desenvolve sua trama com os pés no realismo, exemplificado pelo ritmo lento da obra, que busca contar sua história sem pressa, mostrando que o processo de se tornar um herói necessita de várias reflexões do protagonista.

Portanto, não há aqui efeitos especiais exagerados ou cenas de ação a cada 15 minutos, Shyamalan, que também escreveu o roteiro, foca totalmente em David e Elijah, mostrando como as peculiaridades de seus corpos afeta a vida de ambos, uma vez que, não apenas Elijah sente o peso da fragilidade de seus ossos, como também David não aceita em um primeiro momento ser dotado de tantos poderes, demonstrando um certo desejo em descobrir que em algum momento de sua vida já foi frágil, escolha acertadíssima para humanizá-lo e dar dramaticidade à história. Mas o grande mérito da história é compreender que todo herói precisa de um grande vilão, mostrando como na mitologia um não surge sem o outro e por isso o desenvolvimento dos protagonistas é tão importante, sendo uma preparação eficiente para o plot twist presente no fim.

Além disso, a construção dos dois personagens é brilhante. David é apresentado como um homem constantemente triste, desacreditado e que não sabe nem os próximos passos que tomará na vida, enquanto Elijah, mesmo trabalhando com algo que gosta, mostra-se fissurado por encontrar alguém que seja o seu oposto, destacando como ainda é infeliz. Apesar das diferenças, a situação de ambos os coloca na mesma busca: o seu lugar no mundo. Portanto, além de um belo longa de super-herói, Corpo Fechado é também uma obra sobre descobrimento interno e a procura de sentido na vida.

Aliás, os momentos onde eles interagem são o ponto alto do filme, não apenas pelo ótimo roteiro, mas graças também as ótimas composições dos atores que dão vida aos personagens. Bruce Willis cria uma composição onde Dave está sempre com um olhar cansado e voz mansa que destaca a desesperança dele com sua situação atual, como se estivesse entregue ao fracasso, mas transmite com perfeição como a descoberta de seus poderes insere otimismo a ele. Já Samuel L. Jackson se destaca construindo em Elijah uma pessoa complexa, que transmite segurança no que fala, profunda inteligência e perplexidade por não entender o porque nasceu tão frágil, demonstrando que fará tudo para concluir sua busca pelo seu oposto.

A opção de Shyamalan pelo realismo se mostra acertadíssima também para explorar aquilo que ele sabe fazer de melhor: o suspense. Portanto, há momentos absolutamente tensos aqui, conduzidos com maestria pelo diretor, como, por exemplo, na cena onde David entra em um quarto para salvar uma mulher, mas acompanhamos suas ações atrás de uma cortina, impossibilitando ver toda a ação, criando uma sensação de incômodo e susto quando de repente vemos o herói olhando diretamente para a câmera. Aliás, Shyamalan mostra aqui uma habilidade impressionante em conduzir a câmera, utilizando vários travellings para reposicionar os elementos na composição quando são destacadas mudanças internas nos personagens, como na cena onde David relembra que já teve pneumonia e a câmera desloca-o para o lado esquerdo do quadro, ressaltando como a descoberta o enfraquece. Além disso, o realizador usa vários long shots, tornando as cenas mais perturbadoras, tensas e construindo uma eficiente atmosfera de suspense.

O diretor utiliza ainda outras estratégias inteligentíssimas à serviço da história, como o uso constante de vidro nos momentos envolvendo Elijah, veja como em seu nascimento ele é refletido por um espelho e na infância é filmado através do vidro de uma televisão, chegando ao ápice na cena onde ele cai de uma escadaria e sua bengala de vidro se estilhaça no chão, representando o impacto que a queda teve sobre seu corpo. Por fim, Shyamalan constrói um interessante esquema de cores baseado no roxo para representar Elijah e verde e amarelo para representar David, decorando tanto os cenários quanto o figurino dos personagens, repare, por exemplo, como na cena onde Joseph brinca com um boneco de super-herói as cores do brinquedo são verde e amarelo, ressaltando como a criança passa a idealizar o pai.

Apesar de ser um filme de super-herói, Corpo Fechado é uma obra madura, que explora a fundo as angústias de seus personagens e compreende perfeitamente a mitologia que está abordando, construindo não apenas um grande protagonista, mas também um vilão à altura. Além da ótima história, Shyamalan mostra mais uma vez sua enorme habilidade em conduzir a narrativa e criar uma atmosfera de tensão, mostrando como é um dos diretores mais talentosos de sua geração.

Corpo Fechado (Unbreakable) — EUA, 2000
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright Penn, Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard, Eamonn Walker, Richard E. Conselho, M. Night Shyamalan
Duração: 106 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.