Crítica | Corra, Lola, Corra

Tudo de outrora. Nada mais nunca. Nunca tentado. Nunca falhado. Não importa. Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor.

Pra Frente o Pior, de Samuel Beckett

SPOILERS!

No final dos anos 90 – mais precisamente no ano de 1998 -, o diretor alemão Tom Tykwer lançou um dos filmes mais criativos da década. A Europa e os EUA viviam o auge dos videoclipes e essa estética tão ágil conquistava facilmente os jovens. Com muita esperteza e sem qualquer preconceito contra essa forma audiovisual, o longa-metragem de Tykwer soube importar muitas de suas características, combinando-as com um ótimo roteiro e um excelente trabalho de direção. Sim, é verdade que o cinema já havia utilizado muitos dos recursos contidos na estética dos videoclipes. Mas não é possível dissociar Corra, Lola, Corra de seu tempo. O cinema influenciou os videoclipes, mas foi a estética videoclípica que entregou esses elementos, reunidos e superlativizados, de volta ao cinema. Não é à toa que, quase 20 anos após seu lançamento, o filme permaneça cultuado como um clássico daquela geração. Contudo, longe de estar datado.

A história de Lola, que corre contra o tempo para conseguir 100 mil marcos alemães e salvar a vida do namorado Manni, já demonstra seu sincretismo logo de saída. A sentença do célebre poeta norte-americano T. S. Elliot se combina à citação de Sepp Herberger, um técnico de futebol alemão. Os aforismos coadunam com perfeição entre si e colocam lado a lado o erudito e o popular. Também enunciam o caráter perfectível do homem dentro de um intricado jogo, com duração definida mas resultados incertos. Após o pontapé inicial (literalmente), o filme se inicia e se desenvolve circularmente, abordando três resultados possíveis que Lola vai construindo enquanto corre pelas ruas de Berlim. Cada uma dessas possibilidades é produzida por forças que se chocam em diferentes medidas. Na primeira, a força do mundo supera a de Lola. Na segunda, a força de Lola supera a do mundo, mas também produz tragédia. Apenas na terceira tentativa, a protagonista consegue responder adequadamente ao acaso.

Esmiuçando um pouco mais, vale observar que Lola inicialmente é coadjuvante de sua própria narrativa. Ao receber a notícia de que precisaria conseguir uma enorme quantia de dinheiro, um travelling circular rápido e desacelerado mostra a personagem tentando lembrar de alguém que pudesse salvá-la. A câmera gira como uma roleta e o pai é escolhido. O acaso age sobre Lola e a desautoriza. Ela acata a autoridade paterna e, no fim, é derrotada. É importante comentar o excelente simbolismo que se encontra na animação que repete a cena índex.  O menino com o cachorro representa a consciência de Lola sobre a sua posição de autora da própria história. Nessa primeira tentativa, ela o ignora. Na segunda, ele obstaculiza seu caminho e a derruba. A derrota no segundo jogo já está anunciada, mas dessa vez ela toma consciência de sua posição de sujeito, transgride a ordem paterna e erra melhor. Falha, mas o faz de outro modo.

Na terceira tentativa de salvar o namorado, Lola não ignora mais o menino na escada e, agora, consegue transpor o obstáculo (pula sobre a perna dele). Obtém o dinheiro em um cassino e não mais pedindo ao pai ou roubando o banco. Negocia enfim com o acaso e, com um grito de fúria, consegue dobrá-lo à sua vontade. Não podemos esquecer que a ideia de construir três possibilidades de futuro para um mesmo personagem já havia sido abordada por Krysztof Kieslowski na década anterior, com o excelente Sorte Cega. Isso não significa, entretanto, que Corra, Lola, Corra apenas requente a fórmula com outra estética. O filme alemão introduz um elemento que modifica inteiramente o discurso. Cada vida de Lola lhe deixa um novo aprendizado, que aumenta seu repertório de ação para a vida seguinte. Ela aprende a manejar um revólver no assalto ao supermercado (ainda na primeira vida) e o faz automaticamente, com certo atavismo, quando rende o pai e rouba o banco (na segunda tentativa). Se o personagem de Kieslowski apenas refaz o percurso, a protagonista de Tykwer estabelece vínculos que determinam uma evolução entre uma vida e a seguinte.

Corra, Lola, Corra é extremamente competente em seus simbolismos. Sua trilha sonora eletrônica embala a corrida de Lola para vencer o destino de modo tão incessante quanto os movimentos de dolly e steadycam que acompanham a personagem. A montagem também contribui para o excelente ritmo em um filme que não se torna cansativo, mesmo se baseando na repetição de planos e cenas. O cross-cutting e o split screen são usados a todo momento para segurar a atenção do espectador enquanto tantas ações ocorrem paralelamente, dentro do curto intervalo de 20 minutos. Tecnicamente, o filme se sai muitíssimo bem. Seu único erro é a interpretação um tanto selvagem que faz da chamada teoria do caos. O encontro da protagonista com personagens secundários muda a trajetória destes de modo brutal. A senhora empurrando um carrinho de bebê, por exemplo, ora se torna uma sequestradora de crianças, ora ganha na loteria e se torna uma milionária. É paradoxal que um filme sobre a capacidade de atuação sobre o real negue a seus coadjuvantes qualquer possibilidade de reagir a ele. Parece forçoso imaginar todos esses personagens sendo simplesmente arrastados pelo acaso.

No restante, contudo, Corra, Lola, Corra propõe sua reflexão de modo extremamente agradável e coeso. Um filme que conquista tanto os que desejam um suspense bem conduzido quanto os que esperam uma boa oportunidade de discutir filosofia sem maiores hermetismos.

Corra, Lola, Corra (Lola Rennt) – Alemanha, 1998
Direção: Tom Tykwer
Roteiro: Tom Tykwer
Elenco: Armin Rohde, Franka Potente, Herbert Knaup, Joacim Król, Moritz Bleibtreu, Nina Petri
Duração: 81 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.