Crítica | Corra Que a Polícia Vem Aí 2½

PLANO CRITICO CORRA QUE A POLICIA VEM AÍ 2 PLANO CRITICO FILME

Depois do sucesso alcançado por Corra Que a Polícia Vem Aí!, que transformou Leslie Nielsen em um astro, era improvável que uma continuação para as atrapalhadas aventuras do tenente Frank Drebin não fosse confirmada. Assim, em 1991, três anos após o filme original, foi lançado este Corra Que a Polícia Vem Aí 2½, que novamente acompanha Drebin (Nielsen) na luta contra o crime. Porém, desta vez, ele se vê investigando uma trama que envolve o uso de energias renováveis ao invés das tradicionais energias não renováveis (como petróleo e carvão), o que desagrada alguns empresários donos de indústrias relacionadas com este último tipo de energia. Assim, Quentin Hapsburg (Robert Goulet), um destes grandes empresários, resolve raptar o responsável pelo plano do governo norte-americano de utilizar energias limpas, o Dr. Meinheimer (Richard Griffiths, o tio Valter da série Harry Potter), e substitui-lo por uma sósia, para que, com isto, possa ter seus interesses satisfeitos. Além disto, nesta investigação, Drebin reencontra Jane (Priscilla Presley), seu amor do passado que agora é companheira de Quentin.

Após uma eficiente sequencia de abertura, que brinca com corporações ligadas a fontes de energia – preste atenção nas siglas –, logo fica visível a inferioridade desta sequencia com relação ao original. A cada cena que se sucede, o espectador fica a espera das geniais sacadas vistas no primeiro filme, cujas se repetem aqui de maneira bem mais esporádica. Escrito por Pat Proft e David Zucker, e dirigido novamente por este último, Corra Que a Polícia Vem Aí 2½ possui uma trama levemente mais bem construída e que consegue fazer mais sentido do que aquela vista no filme anterior. Porém, ironicamente, este é um dos fatores que enfraquece o longa, pois muitos dos diálogos e das situações hilariantes assistidas no original cedem espaço para elementos que servem meramente para construir o universo visto aqui.

Assim, a forma artificial e forçada (características inerentes da própria natureza nonsense do filme, diga-se de passagem) com que estas situações são exibidas ao espectador torna a experiência deste Corra Que a Polícia Vem Aí 2½ mais monótona e até mesmo mais tediosa do que deveria ser. Da mesma forma, a falta de criatividade e de momentos genuinamente cômicos acaba por forçar os roteiristas a alongarem diversos momentos do filme, mas sem que estes alcancem o efeito humorístico desejado – como, por exemplo, o incidente que Drebin se envolve com uma cadeira de rodas em um jantar, e uma apresentação musical com temática mexicana.

É fato que diversos elementos do original se repetem: as piadas com os filmes do gênero de ação policial, as gags visuais, as piadas envolvendo sexo (uma cena de amor específica está entre os melhores momentos do longa) e as tiradas com o sentido literal das palavras. Além do mais, o filme ainda encontra espaço para parodiar grandes trabalhos como Casablanca e E.T. – O Extraterrestre, o que rende boas cenas. Entretanto, boa parte destes momentos arrancam um riso fraco e por vezes forçado, e os blocos verdadeiramente engraçadas surgem com uma frequência muito menor do que esperado.

Assim, chegamos ao grande trunfo de Corra Que a Polícia Vem Aí 2½: a interpretação de Nielsen para seu atrapalhado tenente Drebin, que surge novamente esbanjando carisma e se mostrando muitíssimo confortável no papel. Extraindo humor tanto nos momentos mais escrachados quanto nos momentos em que apenas algumas caras e bocas já servem para provocar o riso, é no protagonista da história que se encontra o motor que impulsiona o longa para frente.

Contando com um elenco secundário que novamente auxilia em alguns instantes, o resultado final de Corra Que a Polícia Vem Aí 2½ é positivo principalmente graças ao trabalho de Leslie Nielsen. Contudo, o longa demostra a falta de fôlego dos seus realizadores na construção de momentos originais e inspirados, que fizeram do primeiro filme um trabalho tão memorável.

Corra Que a Polícia Vem Aí 2½ (The Naked Gun 2½: The Smell of Fear, EUA, 1991)
Direção: David Zucker
Roteiro: Pat Proft e David Zucker (baseado no seriado Police Squad! criado por Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker)
Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, George Kennedy, O.J. Simpson, Robert Goulet, Richard Griffiths, Jacqueline Brookes, Anthony James, Lloyd Bochner, Tim O’Connor, Peter Mark Richman, Ed Williams
Duração: 85 minutos.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.