Crítica | Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3 – O Insulto Final

Se o original Corra Que a Polícia Vem Aí! funcionou muitíssimo bem como um filme recheado de piadas hilárias que não paravam de se suceder, a sequência Corra Que a Polícia Vem Aí 2½ se revelou como um trabalho bem menos inspirado, com situações que não alcançavam o efeito cômico desejado. Assim, é um alívio chegar a este Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3 – O Insulto Final e perceber que seus realizadores conseguiram revitalizar o material que possuíam, mas sem abrir mão do humor nonsense habitual, entregando uma experiência muito mais engraçada e envolvente do que a vista no longa anterior. Enquanto os outros dois filmes apostavam na mesma estrutura narrativa do policial que encontra seu grande amor em meio a um grande mistério, desta vez a estratégia adotada não podia ter sido mais diferente — e, felizmente, melhor e mais bem explorada.

Abrindo a história com uma sequência que ouso dizer ser a melhor abertura de todas da trilogia, o filme logo nos mostra que o outrora tenente Frank Drebin (Leslie Nielsen) está agora aposentado e casado com Jane (Priscilla Presley). Porém, além de possuir diversos problemas conjugais, Drebin é atormentado por sonhos e lembranças de seu passado glorioso como tira. É neste contexto que ele recebe uma visita de seus antigos parceiros da luta contra o crime, Ed (George Kennedy) e Nordberg (O. J. Simpson), que pedem um favor ao ex-policial, para que este os ajude em um caso. Mesmo receoso, o atrapalhado Frank aceita o pedido e dá início a mais uma investigação, que desta vez envolve Rocco (Fred Ward), um especialista em bombas, além de sua sedutora companheira Tanya (Anna Nicole Smith) e de sua perigosa mãe Muriel (Kathleen Freeman).

Quem dirige este Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3 – O Insulto Final é Peter Segal, mesmo que David Zucker — que fora responsável por comandar os filmes anteriores — assine o roteiro ao lado de Pat Proft e Robert LoCash. Dito isso, um dos grandes trunfos do script é o de fornecer para Drebin situações inéditas, isto é, que não foram vistas ou exploradas nos outros capítulos, nos permitindo ver o protagonista realizando suas artimanhas em diversas novas circunstâncias. Assim, através deste ar de novidade, os roteiristas conseguem alcançar efeitos cômicos tão eficientes quanto àqueles vistos no original. Neste aspecto, as piadas relacionadas com a vida conjugal de Frank, bem como as situações vividas por ele na prisão, estão entre os melhores momentos do longa. Da mesma forma, ao construir a narrativa com inúmeras situações que não fazem muito sentido para a história, mas que arrancam risos certeiros do espectador, o filme resgata o espírito ágil e dinâmico que carecia ao seu antecessor.

Outro aspecto que perdura por toda a projeção de O Insulto Final é a sátira feita a filmes clássicos de diversos gêneros. Desde Fugindo do Inferno até Thelma & Louise, e passando por Os Goonies, o roteiro faz uso de elementos marcantes destes trabalhos, e os subverte com a visão distorcida de Segal e de seus roteiristas. E quando digo que esta paródia perdura por toda a projeção, é porque ela é utilizada até a exaustão pelos seus realizadores – o que, em certos momentos, pode causar estranheza e até mesmo prejudicar a experiência do público que não é familiarizado com as obras imitadas.

Conduzido pelo diretor Peter Segal através de um ritmo ágil e leve, o longa apenas perde seu fôlego no terceiro ato, que parece levar muito mais tempo do que realmente leva para atingir o clímax. Também, em algumas ocasiões, quando as piadas tratam de humor físico, o diretor falha ao não conseguir provocar o riso no espectador – particularmente, algumas gags visuais soam forçadas e batidas.

Trazendo novamente Leslie Nielsen seguro e confortável no papel de seu icônico personagem, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3 – O Insulto Final encerra a trilogia com o mesmo humor nonsense de sempre, mas com um sopro de novidade na abordagem de seu universo ridículo e deliciosamente absurdo. Assim, as atrapalhadas e estúpidas aventuras do tenente Frank Drebin permanecem uma excelente pedida quando o assunto é diversão descompromissada.

Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3 – O Insulto Final (Naked Gun 33 1/3: The Final Insult, EUA, 1994)
Direção: Peter Segal
Roteiro: Pat Proft, David Zucker e Robert LoCash (baseado no seriado Police Squad! criado por Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker)
Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, George Kennedy, O.J. Simpson, Fred Ward, Kathleen Freeman, Anna Nicole Smith, Ellen Greene, Ed Williams, Raye Birk, Matt Roe, Wylie Small, Sharon Cornell, Earl Boen
Duração: 83 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.