Crítica | Corra Que a Polícia Vem Aí!

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Na cidade de Beirute, localizada no Líbano, líderes mundiais fazem um encontro para discutir o que fazer quanto à hegemonia que os Estados Unidos da América possui sobre o restante do planeta. À medida que o debate esquenta e ideias cada vez mais ameaçadoras vão surgindo, uma espécie de garçom vai servindo chá aos presentes. Porém, quando um destes figurões da política afirma que o povo norte-americano é fraco e covarde, os nervos do garçom sobem a flor da pele, e ele se revela como sendo ninguém menos do que o policial disfarçado Frank Drebin (Leslie Nielsen). Em seguida, o policial dá socos e murros nos homens sentados à mesa, criando uma enorme confusão; ele pega pelo pescoço certa figura política famosa e limpa certa mancha inconfundível que este possui na cabeça, e se vira para a câmera dizendo “Eu sabia!”; e ele ainda descobre que por baixo do turbante de um muçulmano existe nada menos do que um moicano laranja.

Através da cena descrita acima, que abre este Corra Que a Polícia Vem Aí!, é possível perceber uma das principais características que perduram por toda a obra: a sátira em cima dos filmes de ação policial feita através de um humor absurdamente nonsense – característica esta que, diga-se de passagem, fica mais perceptível pelos efeitos sonoros exagerados utilizados na briga inicial, bem como pelas coreografias simplistas e por vezes ridículas da mesma. Escrito por Pat Proft, Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker, e dirigido por este último, o filme acompanha os esforços do atrapalhado policial Frank Drebin, retirado diretamente do seriado Police Squad!, de 1982. Após a já citada incursão pelo Oriente Médio, o policial retorna a Los Angeles, onde descobre que seu parceiro Nordberg (O. J. Simpson, o condenado ex-jogador de futebol americano) foi baleado em uma operação envolvendo drogas. Com isso, Drebin passa a investigar o caso das drogas, bem como buscar os responsáveis por ferir seu amigo, o que o leva a conhecer o mafioso Vincent Ludwig (Ricardo Montalban, o Khan original da franquia Jornada nas Estrelas) e sua assistente Jane Spencer (Priscilla Presley).

Apostando principalmente em piadas rápidas que começam e terminam momentaneamente, a paródia citada acima aos filmes de ação policial é uma das principais atrações do longa. Desde subornos que policiais fazem a bandidos até carros que explodem com meros dois tiros na lataria, são muitas as situações de filmes deste gênero que o roteiro reproduz aqui. Da mesma forma, no decorrer da projeção, tal sátira ainda acontece de maneira mais sutil aos filmes noir – a narração em off e a trilha sonora melancólica do saxofone – e aos filmes de espionagem – os aparatos inventados no laboratório da polícia.

E é justamente por extrair humor de gêneros e situações tão familiares do público que o filme funciona tão bem enquanto narrativa. Neste sentido, o trabalho dos realizadores do filme se mostra excepcional, pois eles compreendem que, para nós, o que importa são as situações em si e a maneira com que são exibidas, e não as causas e consequências das mesmas. E isto é fundamental para que o espectador não de muita atenção à lógica por trás da história e dos acontecimentos vistos no longa – pois, evidentemente, a estrutura da narrativa tem o mínimo de coerência possível (quando o tem) para que o filme se desenvolva. Como se isto já não bastasse, a genialidade dos roteiristas vai além: perceba como eles injetam humor distorcendo a forma com que nos exibem praticamente tudo aquilo que compõe o universo e os personagens (não apenas na sátira de gêneros), obtendo sucesso neste aspecto também.

E se disse anteriormente que a sátira era uma das principais atrações do filme, é porque a principal delas é inegavelmente a interpretação de Leslie Nielsen para seu Frank Drebin. Com um carisma fundamental para conquistar o público, o policial surge em cena encarando o universo que habita com a maior seriedade possível – o que, além de tornar certas situações ainda mais cômicas, é excepcional para o funcionamento das mesmas. O elenco secundário também não faz feio: Montalban torna seu personagem mais memorável do que deveria; Priscilla Presley funciona bem como o interesse romântico do herói; George Kennedy como o capitão de polícia Ed Hocken pontua bem os momentos de humor; e O. J. Simpson brilha quando aparece, e só não rouba a cena graças à atuação inspirada de Nielsen.

Conduzido por Zucker através de um ritmo ágil e pra lá de divertido, e contando ainda com inúmeras gags visuais hilárias, Corra Que a Polícia Vem Aí! pode até não ter o frescor de Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu (o maior sucesso do trio formado por Abrahams, Jerry e David Zucker), mas certamente é um delicioso trabalho que sobreviveu ao longo do tempo. De fato, o estilo nonsense pode não funcionar tão bem para uns quanto para outros, mas o filme permanece um clássico da comédia dos anos 80.

Corra Que a Polícia Vem Aí! (The Naked Gun: From the Files of Police Squad!, EUA, 1988)
Direção: David Zucker
Roteiro: Pat Proft, Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker (baseado no seriado Police Squad! criado por Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker)
Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, Ricardo Montalban, George Kennedy, O.J. Simpson, Susan Beaubian, Nancy Marchand, Raye Birk, Jeannette Charles, Ed Williams
Duração: 85 minutos.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.