Crítica | Corra!

estrelas 4,5

“Se eu pudesse, eu teria votado em Obama para um terceiro mandato.”

O audiovisual costuma tratar frequentemente do racismo, recentemente confrontado pela série Dear White People, ganhando mais espaço nas últimas décadas. O tratamento de uma denúncia social através de um gênero mais específico, fora os dramas e comédias usuais, consegue ser um frescor à linguagem cinematográfica, visto que a problemática, de fato, não precisaria de uma renovação. O racismo está aí, para quem quiser ver, menosprezado pela mídia e pelo povo, que, quando não consegue omitir a sua existência, busca se esquivar de uma concreta participação no fato social. O umbigo coça mais. A recém-entrada de Jordan Peele, vindo do âmbito humorístico, no gênero do terror, origina Corra!, que, por intermédio de uma revisão satírica dos conflitos raciais, conduz explicitamente e implicitamente uma fervorosa capacidade de análise sobre a temática. Na trama, Chris Washington (Daniel Kaluuya) namora Rose Armitage (Allison Williams), uma garota branca que pretende levar seu namorado, que é negro, para finalmente conhecer sua família presumidamente não-racista. O roteiro introduz, em um primeiro plano, uma subversão perspicaz ao cenário do subúrbio americano, abordando, inicialmente, um caso específico de racismo envolvendo um policial – importantíssimo para nossa apreensão ao final do longa, em determinada cena que nos remete a este evento passado. Mas é dentro da casa dos Armitage que o medo do absurdo inerente a certas inconveniências nos mostrará a verdadeira alma da obra.

A atmosfera criada por Peele enclausura o espectador dentro do filme, paralisando-o diante de um magnífico jogo psicológico. Todas as sequências de submersão hipnótica são claustrofóbicas, permitindo que o senso de perigo se estenda incrivelmente, por meio de uma inventiva composição visual, para a sensação de aprisionamento criada sobre Chris. A queda sem fim alonga minuciosamente a vontade descontrolada do próprio espectador retomar seu corpo. Aliás, essa aproximação do protagonista com o público é muito bem explorada. Cada desconforto é inteligentemente refletido nas reações organicamente plausíveis do personagem de Daniel Kaluuya. A desconfiança é agilmente colocada como recurso narrativo, abruptamente interrompendo as consequentes definições das características dos personagens, para iniciar, de fato, a brincadeira com o espectador. Enquanto Catherine Kenner transmite uma suavidade incômoda, utilizando da paciência inquieta para principiar uma tensão contínua, Bradley Whitford aborda com bastante competência suas facetas iniciais; uma figura de bom moço, que reproduz princípios convenientes para surpassar uma imagem distorcida de si mesmo. A crítica ao racismo, impregnada intrinsecamente na obra, encontra maior sagacidade no fato de Dean, um neurocirurgião, e Missy, uma psiquiatra, não possuírem os esteriótipos dos preconceituosos americanos. Ambos são liberais que, como bem apontam, votariam no Obama para um terceiro mandato, presumidamente incapazes de agir contra alguém por conta da sua cor da pele.

O papel de Allison Williams, por outro lado, abre margens para o estabelecimento de uma inocência prematura. A perfeita harmonia na relação entre Rose e Chris garante ao público um juízo de confiança muito grande, distanciando-a dos parentes da garota. O elenco, de tal forma, evidencia-se como acuradamente encaixado, sendo que até Jeremy Armitage (Caleb Landry Jones) funciona na narrativa, meramente graças ao seu intérprete, já que, no texto, o personagem é definitivamente o mais deslocado do cerne da engenhosa argumentação de Peele, a qual, aparentemente, não previa artifícios baratos, como o do arquétipo sulista, para se debater o racismo. As estranhezas, para tratar do protagonista, agravadas com a apresentação dos empregados da casa, Georgina (Betty Gabriel) e Walter (Marcus Henderson), são recepcionadas realisticamente por Chris, um dos pontos mais altos do longa, não apenas pelo trabalho de Peele, mas, igualmente, por conta de seu ator. Daniel Kaluuya revela-se como um artista de enorme expressividade. Dialogando com as piadas constrangedores feitas por Dean, o ator encara com extrema veracidade sua resposta ao desconforto; uma piada sem graça, na qual a risada sai forçada, para que a situação não seja mais embaraçosa. No entanto, o que mais surpreende é a amplitude emocional presente nos seus olhos. Na sequência da primeira hipnose, Kaluuya vai aos poucos, com extrema sensibilidade, graduando seu olhar até chegar na destruição psicológica total, esmagadoramente tocante.

Tendo em vista a origem profissional de Jordan Peele – a comédia -, a competência do humorista em trabalhar o terror de modo tão extraordinário e responsável surpreende. Também é curiosa, dito isto, a maneira como o diretor e roteirista consegue fazer uma excelente utilização de sua veia cômica para realçar as tensões do filme. O melhor amigo de Chris, Rod Williams (Lil Rel Howery), aufere uma boa presença, aliada a recortes extremamente sensatos, que buscam se distanciar de uma quase paródia. A exceção mais grave, que prejudica levemente o tom do filme, reside na aparição da atriz Erika Alexander. Uma percepção mais cartunesca da qual deveria ter sido produzida é inegável. Contudo, ao chegar, enfim, o momento das revelações, Corra! permite-se, até mesmo na exposição gratuita, surpreender o espectador e angustiá-lo, concentrando o pavor no modo como apresenta as soluções dos seus quebra-cabeças. No estupendo ato final, Jordan Peele prova, por definitivo, uma já notabilidade como cineasta, encaixando todos os itens apresentados por meio de penetrantes metáforas – como as da escravidão. O roteiro ainda guarda, para seus últimos minutos, um pungente desespero, aterrado essencialmente à fuga permanente do cidadão negro das mãos de uma sociedade passivamente e agressivamente preconceituosa. Quem tem as mãos no volante? O horror está no ar. Com uma abordagem original da questão racial dentro dos Estados Unidos, Corra! é, mormente, um filme de terror de excelência.

Corra! (Get Out) — EUA, 2017
Direção:
Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Lil Rel Howery, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Stephen Root, Catherine Keener, Betty Gabriel, Marcus Henderson, LaKeith Stanfield, Erika Alexander, Zailand Adams
Duração: 103 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.