Crítica | Corra!

estrelas 4,5

O audiovisual costuma tratar frequentemente de temas relevantes para a sociedade, sendo que, o racismo, recentemente confrontado pela série Dear White People, foi ganhando cada vez mais espaço nas últimas décadas. O tratamento de uma denúncia social através de um gênero mais específico, fora os dramas e comédias usuais, consegue ser assim um frescor à linguagem cinematográfica, visto que a problemática, de fato, não precisaria de uma renovação. O racismo está aí, para quem quiser ver, sublimado pela mídia e pelo povo, que quando não consegue omitir a sua existência, busca se esquivar de uma concreta participação no fato social. A recém-entrada de Jordan Peele, vindo do âmbito humorístico, para o gênero do terror, então origina Corra!, que, por intermédio de uma revisão satírica dos conflitos raciais, conduz explicitamente e implicitamente uma fervorosa capacidade de análise social sobre a temática.

O enredo baseia-se, de início, nos famigerados primeiros encontros com a família do seu par romântico. No caso, Chris Washington (Daniel Kaluuya) namora Rose Armitage (Allison Williams), uma garota branca, que pretende levar seu namorado, que é negro, para finalmente conhecer sua família presumidamente não-racista. O roteiro introduz, logo de cara, uma subversão perspicaz no cenário do subúrbio americano e consequentemente, aborda um caso específico de racismo envolvendo um policial. Jordan Peele vai, deste modo, introduzindo inúmeras possibilidades enquanto manipula o espectador para dentro da casa dos Armitage, onde Chris irá começar a questionar a real natureza do que está acontecendo. Apesar da assombrosa trama, no entanto, a força matriz de Corra! está no fato do diretor situar nas entrelinhas uma relevante argumentação crítica, moldada por meio do clássico “tapa na cara” da sociedade.

A atmosfera criada por Peele enclausura o espectador dentro do filme fazendo-o provavelmente paralisar-se diante de um magnífico jogo psicológico. Todas as sequências de submersão hipnótica são claustrofóbicas, permitindo que o senso de perigo se estenda incrivelmente por meio de uma inventiva idealização da sensação por detrás da prisão criada sobre Chris. A queda sem fim alonga minuciosamente a vontade descontrolada do próprio espectador retomar seu próprio corpo. Aliás, essa aproximação do protagonista para com o público é muito bem explorada. Cada desconforto é inteligentemente refletido nas reações organicamente plausíveis do personagem de Daniel Kaluuya.

A desconfiança é agilmente colocada como recurso narrativo, abruptamente interrompendo as consequentes definições das características dos personagens, para iniciar, de fato, a brincadeira com o espectador. Enquanto Catherine Kenner transmite uma suavidade incômoda, utilizando da paciência inquieta para principiar uma tensão contínua, Bradley Whitford aborda com bastante competência, em seus momentos iniciais, e especialmente, em seu relacionamento com Chris, uma figura de bom moço, que utiliza pseudos princípios, ações, e palavras para surpassar uma imagem distorcida de si mesmo. A crítica ao racismo, impregnada intrinsecamente na obra, encontra maior sagacidade no fato de Dean, um neurocirurgião e Missy, uma psiquiatra não possuírem os esteriótipos de pessoas preconceituosas. Eles são pessoas liberais, que como bem apontam, votariam no Obama para um terceiro mandato, portanto sendo, supostamente, incapazes de agir contra alguém por conta da cor da pele.

Por outro lado, o papel de Allison Williams abre margens para o estabelecimento de uma inocência, prematura diante das derradeiras resoluções. Se há dúvidas de que Dean e Missy são pessoas normais, a perfeita harmonia na relação entre Rose e Chris garantem ao público um juízo de confiança muito grande no que refere-se à parceira do protagonista. Os dois estão apaixonados, dignos de trocas de carícias e desabafos, em uma união que soa quase infalível. De tal forma pode-se categorizar o elenco como acuradamente encaixado, sendo que até Jeremy Armitage (Caleb Landry Jones), se sai bem graças ao seu intérprete. O personagem, por outra via, é definitivamente o mais deslocado em relação a engenhosa argumentação de Peele, que não prevê artifícios baratos para se debater o racismo, sendo um ponto fora da curva que tal seja mais correlacionável aos arquétipos sulistas.

As estranhezas, que começam a ser agravadas com a apresentação dos empregados da casa: Georgina (Betty Gabriel) e Walter (Marcus Henderson), são, como apontadas anteriormente, recepcionadas realisticamente por Chris, que é sem sombra de dúvidas, um dos pontos mais altos do longa. Daniel Kaluuya, já conhecido do público pela sua participação em Black Mirror, desponta aqui como um ator de enorme expressividade. Dialogando com as piadas constrangedores feitas por Dean, ainda no primeiro ato do filme, Daniel encara com extrema veracidade sua resposta ao desconforto, quase como em uma piada sem graça, onde a risada sai para que a situação não seja mais embaraçada. No entanto, o que mais surpreende é a amplitude emocional presente nos olhos do ator. Na sequência da primeira hipnose de Chris, Kaluuya vai aos poucos, com extrema sensibilidade, graduando seu olhar até chegar na destruição psicológica total, estratificadamente esmagada.

Tendo em vista a origem profissional de Jordan Peele, ou seja, a comédia, é de surpreender-se a competência que o humorista tem em trabalhar o terror de modo tão extraordinário e responsável como o feito aqui. Dito isto, também é curiosa a maneira como o diretor e roteirista consegue fazer uma excelente utilização de sua veia cômica para realçar as tensões do filme. O melhor amigo de Chris, Rod Williams (Lil Rel Howery), aufere uma boa presença, aliadas a recortes extremamente plausíveis, que buscam se distanciar de uma quase paródia. A exceção mais grave, que prejudica levemente o tom do filme, reside na aparição da atriz Erika Alexander, pois, mesmo possuindo uma genuinidade por de trás da situação, é inegável uma percepção mais cartunesca da qual deveria ter sido produzida.

Ao chegar, enfim, o momento das revelações, Corra! permite-se, até mesmo na exposição gratuita, surpreender o espectador e angustiá-lo, concentrando o pavor no modo como apresenta as soluções dos quebra-cabeças para seu espectador. No estupendo ato final, Jordan Peele, prova por definitivo uma já notabilidade como cineasta, encaixando todos os itens apresentados por meio de algumas penetrantes metáforas, como as alusões à escravidão. O roteiro ainda guarda para seus últimos minutos um pungente desespero, aterrado essencialmente à fuga permanente do cidadão negro das mãos de uma sociedade passivamente, e agressivamente, preconceituosa. Com uma abordagem original da questão racial dentro dos Estados Unidos, Corra! é, mormente, um filme de terror de excelência.

Corra! (Get Out) — EUA, 2017
Direção:
Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Lil Rel Howery, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Stephen Root, Catherine Keener, Betty Gabriel, Marcus Henderson, LaKeith Stanfield, Erika Alexander, Zailand Adams
Duração: 103 min

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?