Crítica | Corrente do Mal

corrente do mal

estrelas 4

Numa época de excesso de memória e numerosos filmes estreando a cada final de semana, torna-se muito difícil atingir um grau de inovação, principalmente no gênero terror, uma categoria que parece já ter feito de “tudo”. A Corrente do Mal, dirigido e escrito por David Robert Mitchell prometia mais uma narrativa requentada, com a famigerada punição para os adolescentes que se relacionam sexualmente fora do casamento, com metáforas para as doenças sexualmente transmissíveis, dentre outros temas batidos. O filme, entretanto, vai além.

Indicado ao Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes, em 2014,  A Corrente do Mal nos apresenta a jovem Jay (Maika Monroe), uma moça que leva a vida tranquila no subúrbio de Detroit. A ida para a escola, as paqueras e os passeios no lago local são as atividades cotidianas que envolvem a rotina da garota, mas uma relação sexual vai mudar todo o cenário.

O garoto com quem ela dormiu explica que carregava uma força maligna transmitida apenas pelo ato sexual. Para se livrar, ela precisa passar adiante ou morrerá. E muito pior: se ao passar o “mal”, a pessoa seguinte não conseguir repassar e continuar a corrente, a sina retorna para a pessoa anterior, fazendo-a ter de lutar mais uma vez pela vida. Angustiante e assustador, concorda? Enquanto não consegue passar o malefício adiante, a moça sofre perseguições e alucinações com imagens que só ela enxerga.

Se fosse num filme de terror dos anos 1980, provavelmente o sexo condenaria os adolescentes da narrativa. No entanto, ao subverter o clichê, em A Corrente do Mal, é preciso fazer sexo para sobreviver. “É o novo clichê”, como diz um dos personagens de Pânico 4, ao alegar que entre as novas regras do gênero está o desejo de filmar os assassinatos e que as virgens também podem morrer. Em 2000, Medo em Cherry Falls também brincou com isso, ao apresentar um assassino em série que ataca apenas as virgens da cidade, fazendo com que haja um verdadeiro carnaval no que tange às relações sexuais.

O filme, como apontado, vai além desta questão sexual. Não há personagens exalando atitudes predadoras, nem garotas extremamente sensuais. A dependência por drogas, os atos suicidas, a família ausente e o cenário desolador da juventude contemporânea demarcam o eixo crítico do filme. A ausência de personagens adultos sugere um mundo de relacionamentos fracassados entre pais e filhos, bem como o fio desencapado que transmite o vínculo entre os jovens e os seus responsáveis. Em suma, uma interessante radiografia das relações contemporâneas.

O “mal” pode ser encarado como uma metáfora do egoísmo, principalmente de grande parte da sociedade estadunidense, geralmente envolvida em conflitos hegemônicos com outras nações do mundo: é preciso pensar em si para sobreviver. Como na fala popular, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Dane-se o outro, o ideal é passar para sobreviver. Esta questão inclusive nos remete aos chamados carimbadores, grupo de pessoas que carrega o vírus HIV e transmitem de forma proposital para outras pessoas, como uma forma de “vingança” por ter adquirido este que é considerado um dos maiores males da humanidade.

A equipe técnica de A Corrente do Mal está de parabéns. Para ilustrar os temas abordados pelo roteiro, a fotografia de Mike Gioulakis é cinzenta às vezes, melancólica sempre. No design de produção, Michael Perry investiu em um tempo e espaço atemporal, com um pé no passado, mas relacionando-se com (um pouco) com a tecnologia do presente. A trama se inicia em Detroit, local fundamental para compreensão das “intenções” narrativas. A terra natal da Madonna foi cidade símbolo do american way of life, da prosperidade do pós-guerra, mas, atualmente, é um local desolado pelas crises econômicas que passou.

O roteiro investe em cenas diurnas, outra subversão aos ditames dos filmes de terror. O medo não vem dos sustos fáceis, mas da paranoia, pois qualquer um ao seu lado pode ser um “portador” do mal. A trilha sonora, assinada por Rico Vreeland, toma de empréstimo os sintetizadores e o estilo “vintage” de Halloween, numa homenagem apropriada ao clássico filme de John Carpenter.  Há também outras referências ao gênero, como uma proximidade narrativa com Vampiros de Almas e o nome da personagem Jay, assumida relação com a rainha do grito Jamie Lee Curtis.

Sob a direção segura de David Robert Mitchell, a produção de 100 minutos busca inovar e consegue bons resultados.  Coeso, dinâmico e com um desfecho diferenciado, trecho dos filmes de terror onde os produtores geralmente derrapam e perdem o rumo, A Corrente do Mal é uma tempestade de boas ideias no desolador cenário de seca do gênero. Um filme que pede para ser observado e cultuado.

A Corrente do Mal (It Follows, EUA – 2014)
Direção: David Robert Mitchell
Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco: Maika Monroe, Olivia Luccardi, Keir Gilchrist, Bailey Spry, Lili Sepe, Daniel Zovatto, Jake Weary
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.