Crítica | Cortina Rasgada

estrelas 3Para muitos, Cortina Rasgada marca o início da decaída que se fez presente no final da carreira de Alfred Hitchcock. Assim como Marnie – Confissões de uma Ladra e Trama Macabra, os últimos trabalhos do diretor foram considerados, por boa parte da crítica e do público, como indignos perante os geniosos trabalhos que Hitch havia feito no passado, como Psicose, Um Corpo Que Cai e Festim Diabólico, todos considerados obras-primas.Mas verdade seja dita: Cortina Rasgada consegue agradar quando analisado isoladamente, sendo um entretenimento bem mais funcional que a maioria dos filmes-pipoca atuais.

Que Cortina Rasgada está longe de figurar entre as melhores obras de Hitchcock, isso não se nega. Mas também é verdade que, sendo um filme do famoso “Mestre do Suspense”, temos muitos momentos dignos de estarem entre as melhores sequências filmadas pelo diretor. A cena do museu é incrivelmente tensa por sua subjetividade, onde apenas o som de passos consegue nos gerar nervosismo e apreensão, sem usar nenhum tipo de trilha sonora. Da mesma forma, a cena do assassinato de Gromek (Wolfgang Kieling) surpreende por seu realismo, já que o objetivo de Hitchcock na cena era mostrar o quão difícil é matar um homem, e a extensão da cena passa exatamente esta sensação, sendo concluída de maneira memorável. Mas o melhor destes momentos se passa na longuíssima sequência do ônibus, onde os protagonistas se refugiam para escapar. A cada situação enfrentada pelos personagens no veículo, a cada parada necessária, Hitchcock vai atenuando a tensão e o nervosismo no espectador, deixando apreensivo e curioso acerca do destino dos personagens.

Hitch, aliás, soube manter o interesse pela narrativa de forma bastante crível. Sendo sutil em muitos diálogos, o diretor acerta na divisão dos três atos do longa, cada um sendo mostrado através de um ponto de vista diferente. Existem informações que apenas os personagens sabem, assim como existem outras informações que apenas nós sabemos. Esses conflitos entre as informações mantém nossa atenção até o fim, tornando a obra imprevisível na maior parte do tempo.

Hitchcock também mantém o respeito pela inteligência do espectador ao investir em closes e zooms que nos indicam para onde devemos prestar atenção, para qual pequeno momento devemos manter fresco na mente para compreendermos os caminhos tomados pela trama.Mas Cortina Rasgada possui um único, mas grave problema, que prejudica seriamente algum apreço maior pela obra. Na época, Paul Newman (Gata em Teto de Zinco Quente) e Julie Andrews (ganhadora do Oscar por Mary Poppins, e que também havia estrelado o clássico A Noviça Rebelde) estavam entre os astros mais respeitados e consagrados do cinema, porém foram injustiçados ao receberem papéis de personalidades tão desinteressantes e intragáveis. Armstrong segue como um brucutu durante toda a projeção, tratando sua parceira com arrogância e rispidez. E Sarah segue como uma personagem de pouquíssimo valor, ao fazer questão de seguir Armstrong para todos os lugares, e mesmo diante do tratamento grosseiro e frio de seu parceiro, permanece com a ideia de que ele é o homem mais maravilhoso do mundo. São personagens desagradáveis, de personalidades vazias, onde nem mesmo a química entre Newman e Andrews gera alguma empatia pelo casal. Se a obra ainda funciona, é pelo maravilhoso trabalho de Hitch na direção, que acerta na composição das cenas, na apresentação dos diálogos e no clima de mistério. Sem isso, não seria injusto deixar Cortina Rasgada no posto dos mais esquecíveis de Hitchcock.

Talvez pelo fato de Hitchcock não ter tido maior tempo para “ajeitar” seu roteiro é que Cortina Rasgada seja lembrado, até hoje, como um dos mais fracos de Hitchcock (vale lembrar que o diretor discutiu com Paul Newman durante as filmagens, devido a palpites diferenciados). Mas quando analisado mais de perto, percebe-se que é uma autêntica obra hitchcockiana, carregando muitas das características que fizeram deste um dos diretores mais respeitados e cultuados da história do Cinema.

Cortina Rasgada (Torn Curtain, EUA, 1966)
Roteiro
: Brian Moore
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Paul Newman, Julie Andrews, Lila Kedrova
Duração: 128 min.
RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.