Crítica | Counterpart – 1ª Temporada

Mesmo considerando a fascinante premissa de Counterpart, a 1ª temporada da série, com apenas 10 episódios, não é muito movimentada, com pouca coisa realmente acontecendo ao longo da narrativa. Não afirmo isso de forma negativa ainda que tenha detectado um problema relacionado a esse aspecto, mas sim, apenas, para que os leitores que não a tenham assistido ainda ajustem suas expectativas de acordo, já que a criação sci-fi de espionagem de Justin Marks merece mais atenção do que talvez venha recebendo.

Tomarei o cuidado de circunavegar os detalhes da história, pois a própria estrutura da série usa o segredo e um certo grau de “confusão benigna” para erigir e conduzir a narrativa, de maneira que, diria, é muito semelhante ao que vemos em Dark. Aliás, há vários pontos de convergência entre a série alemã do Netflix e a produção americana da STARZ, a começar pelo fato de que a ação de Counterpart se passa na Alemanha, em Berlim mais especificamente, com muitos diálogos na língua nativa. Além disso, a atmosfera opressiva, com tonalidades de cinza, permeiam a história, ainda que, claro, o ambiente natural seja trocado pelo urbano. Da mesma forma, além das duas serem ficções científicas que lidam com mais de uma versão do nosso mundo, o conceito de doppelgänger, ou do “duplo”, é explorado por ambas as séries, ainda que, em Counterpart, esse seja o verdadeiro diferencial da obra, com uma magnífica exploração das habilidades dramáticas de J.K. Simmons.

Mas as semelhanças param por aí. Afinal, a pegada sci-fi de Dark é muito mais presente do que em Counterpart que estabelece uma inusitada situação que de certa forma replica a Berlim dividida entre Aliados e União Soviética ao final da 2ª Guerra Mundial: depois de um evento misterioso, um prédio em Berlim passa a conter uma passagem entre a Terra que conhecemos (Terra Alfa) e outra igual, mas cada vez mais diferente (Terra Prime), com os mesmos habitantes. Essa passagem (literalmente um túnel em escombros) é, logicamente, rigidamente controlada pela ONU pelas mais diversas razões e a existência de duas Terras é mantida em sigilo absoluto das respectivas populações mundiais e até mesmo de grande parte das pessoas que trabalha no tal prédio-portal. Claro que há mais detalhes tanto de um lado quanto de outro, mas, como disse, a cadência da narrativa roga que o espectador aprenda sobre essa surreal situação aos poucos, saboreando-as como aperitivos rebuscados em uma festa que, porém, nunca de verdade chega no clímax.

Deixe-me, portanto, abordar de uma vez minha maior reticência em relação à temporada. Ao longo dos episódios, a trama, que é substancialmente de espionagem inter-mundos, promete um grande evento que mudará a relação hesitante que foi estabelecida entre as Terras. Sinais disso são pontilhados desde o primeiro episódio e, a partir da segunda metade, eles são intensificados, ganhando até mesmo um episódio-flashback sobre um dos personagens e seu treinamento. No entanto, quando os roteiros engrenam na ação climática, o que acontece na prática foi, pelo menos para mim, desapontador. E não, não esperava fogos de artifício vazios ou algum evento bombástico no sentido literal da expressão, mas sim algo que fosse menos do que apenas burocrático, distante, incapaz de estabelecer sensação de perigo ou mesmo de preocupação pelo destino de alguns personagens. Foi como assistir mais um evento comum e não algo que servisse de encerramento.

Claro que a promessa de algo maior é renovada ao final, com tudo o que acontece sendo, tão somente, a proverbial “ponta do iceberg”, mas o ponto é que a narrativa, assim, fica aberta demais, não na forma de cliffhanger, mas sim como se o 10º episódio fosse a metade de uma temporada de 20, o que chega às raias da trapaça, para usar de toda minha sinceridade. Ah, mas com isso a temporada é ruim? Certamente que não e  a avaliação em estrelas acima deixa isso evidente. O ponto é que a temporada não entrega o que parece prometer e funciona somente se aceitarmos que ela é a primeira metade de uma história que continua. E antes que algum apressado me diga que “é óbvio que ela continua”, reitero: as melhores temporadas de séries deveriam funcionar como arcos narrativos fechados e, aqui, ao revés, o que temos é quase que como uma introdução.

E isso é ainda mais saliente quando lembramos da estrutura de “mistérios a conta-gotas” da temporada, que mantêm o espectador no ar, confuso mesmo, por um bom número de episódios, até que seja possível aclimatar-se aos acontecimentos, como a visão acostuma-se com a escuridão com o tempo, permitindo que vejamos formas e vultos aqui e ali. Essa jornada é muito interessante e prende a atenção de quem tiver paciência, mas, ao não resultar em algo mais significativo, a impressão que fica é um pouco, digamos, vazia.

Mas tudo isso empalidece diante do monstro chamado J.K. Simmons no papel duplo de Howard Silk. Na Terra Prime, ele é um experiente espião que vem para a Terra Alfa (a nossa – ou uma versão mais próxima possível da nossa) encontrar-se com ele mesmo como um funcionário do baixo escalão do tal prédio-portal que não faz ideia da existência de um segundo mundo, vivendo uma vida mecânica, monótona, repetitiva, executando uma tarefa que, para ele, não faz sentido algum, já que ele não tema visão do todo. Os dois Howards são tão idênticos quanto diferentes, algo que Vincent Vega chamaria de “pequenas diferenças” e é aí que entra a embasbacante atuação de Simmons, que deveria levar dois Emmys e dois Golden Globes por esses trabalhos.

Enquanto o Howard Alfa representa o homem que se acomodou, o Howard Prime representa o homem ambicioso, que não para nunca. O primeiro parou no tempo e, o segundo, avançou vertiginosamente. E sabemos disso sem nos esforçar demais, bastando olhar detidamente para cada um deles. Chega a ser inacreditável como um mesmo ator pode viver o mesmo personagem de maneiras tão diferentes. Postura curvada vs postura ereta, olhos tristes vs olhos altivos, boca caída vs boca sustentada, andar arrastado vs andar altivo, diálogos cansados vs diálogos que comandam. E isso porque nem mesmo entrei na questão da sutileza da maquiagem que coloca – ou tira, realmente não sei – a papada embaixo do queixo, aumenta (ou diminui) as marcas ao redor dos olhos, nas testa e ao redor da boca e assim por diante. Quando nossos olhos se acostumam, as tomadas que estabelecem em que Terra estamos tornam-se completamente desnecessárias, pois usamos os Howards como bússola. Aplausos efusivos também vão para os efeitos especiais discretíssimos que fundem as tomadas com os Howards de maneira absolutamente perfeita, convencendo-nos piamente que Simmons simplesmente tem que ter um irmão gêmeo que também é ator.

Pode ser que, para muitos, Counterpart seja lenta e confusa (e propositalmente é), falhando no desfecho da temporada (o ponto fraco, como salientei acima), mas a jornada de Howard Alfa e Howard Prime compensa qualquer esforço em razão das memoráveis atuações de Simmons. Mesmo que tudo que a criação de Justin Marks nos mostrasse fosse um longo diálogo entre os Howards, a série já valeria a pena. Considerando toda a atmosfera de espionagem com pitadas de ficção científica, ela se torna completamente irresistível.

Counterpart – 1ª Temporada (Idem, EUA – 10 de dezembro de 2017 a 1º de abril de 2018)
Criação: Justin Marks
Direção: Morten Tyldum, Stephen Williams, Jennifer Getzinger, Alik Sakharov
Roteiro: Justin Marks, Amy Berg, Erin Levy, Zak Schwartz, Justin Britt-Gibson, Gianna Sobol
Elenco: J. K. Simmons, Olivia Williams, Harry Lloyd, Nazanin Boniadi, Sara Serraiocco, Ulrich Thomsen, Nicholas Pinnock, Mido Hamada, Kenneth Choi, Guy Burnet, Stephen Rea, Bernhard Forcher, Sarah Bolger, Bjorn Johnson, Jamie Bamber, Lotte Verbeek, Marco Khan
Duração: 56 a 60 min. por episódio (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.