Crítica | Cowboy Bebop (Anime Completo)

estrelas 5,0

Não há spoilers.

O que faz um anime ser inesquecível? Personagens, para ser curto e grosso. Cowboy Bebop é uma das melhores animações de todos os tempos porque, em seus 26 episódios de 20 minutos cada, consegue atingir a alma do espectador em arestas que o próprio espectador desconhecia ser possível de serem atingidas, ainda mais por uma obra desenhada. O anime de Shinichiro Watanabe (Animatrix, Samurai Shamploo) tem estilo – muito jazz! –, humor e drama permeados de qualidade e, principalmente, de um tom próprio, destacando-se em qualquer lista de melhores animes e tornando-se único.

E que tom seria o de Cowboy Bebop? De forma aproximada, pode-se dizer melancólico, com pitadas bem dosadas de um convicto cinismo. A verdade é que há variedade demais em gênero e roteiro para defini-lo em uma etiqueta apenas. Sim, é um anime de ação e ficção científica, situado em 2071 onde caçadores de recompensa viajam pela galáxia na nave Bebop em busca de um prato de comida. Mas tal sinopse pouco arranha a veia trágica e solitária que o anime traz – e falo como elogio: só parece ser possível caracterizá-lo pela negativa, mas façamos um esforço.

Certamente, a essência de Bebop se encontra nas quatro personagens principais: Spike Spiegel, Jet Black, Faye Valentine e Edward. Pouco explicativo, o anime não à toa dá valor a sua trilha sonora – falarei mais logo abaixo. Ela representa a vibração estética que o desenho quer passar, sendo esta a mesma forma com que conhecemos cada personagem. Os indícios dos obscuros passados dos quatro membros da espaçonave aparecem pontualmente, mais como lágrimas salgadas ao final de cada “sessão”, servindo como tempero à euforia frenética da aventura que fora apresentada. O espectador se vê apenas com o carisma daquela equipe – graças também ao brilhante trabalho de dublagem norte americana, principalmente de Steven Blum e Wendee Lee –, se é que se pode chamar tal grupo de equipe. É impossível não se apaixonar pela frágil e sexy Faye, não querer ouvir a sagacidade e o sarcasmo de Spike por horas, ou não querer Jet como amigo fiel e cozinheiro. Arquétipos? Com certeza, mas bem realizados e com peculiaridades que saltam aos olhos quando menos se espera, rasgando aquelas arestas da alma às quais me referi, sem aviso prévio – principalmente no que diz respeito à protagonista feminina.

Nesse sentido, o desenho deve muito aos seus belos aspectos técnicos. A animação das cenas de ação, principalmente nas cenas de luta de Spike e nos duelos espaciais, é de tirar o fôlego, ainda mais tendo em vista o ano de lançamento do anime, 1998. Chega-se ao ponto de superar inúmeras (!) animações atuais. Exemplo disso logo se vê no primeiro episódio, onde conhecemos o estilo do cabeludo e preguiçoso Spike – uma imagem inesquecível, ainda que banal. Juntando tal qualidade com a criatividade em arquitetar uma incrível variação de cenários, indo dos mais megalomaníacos aos mais intimistas, tem-se um valor de replay extremamente válido e sólido.

Antes de falar da música – e deveria haver uma crítica só para a trilha, viu Handerson? – existe uma estrutura episódica que deve ser destacada, posto que cada episódio, fechado em si, conta com um arco de algum antagonista ou coadjuvante capaz, por vezes, de dar uma aula sobre roteiro e narrativa. Para além do cômico – há referências memoráveis sobre Kareem Abdul-Jabbar, Bruce Lee, Ghostbusters, Alien, Westerns, Musashi e etc. – cada história serve como um conto de excelência. O anime não se priva, apesar dos arabescos e dos entretenimentos mais vistosos, do cunho desastroso que acompanha as entrelinhas até do capítulo aparentemente mais inofensivo. Despindo-se da tentativa de criar algo com começo, meio e fim, Cowboy Bebop vai enchendo, em cada oportunidade e por diferentes vieses, seu fã de desespero por meio dessas figuras aleatórias que aparecem quase sempre em apenas uma sessão – e o fã se deixa ter a mão levada por esse arauto da angústia, charmoso, musical e corajoso.

Falando em musicalidade… veja, a sensação é a de que colocar essa trilha sonora em análise escrita é automaticamente depreciá-la. Brinquemos de adjetivação, portanto, sem muitas pretensões, pois o que se tem de fazer é simplesmente ouvi-la, caro leitor, uma única vez. A composição de Yoko Kanno e os Seatbelts é uma personagem per se aqui. É vasta, generosa, capaz de conduzir o tom – e isso é o mais importante neste show – de cada episódio de uma forma desavergonhada e convicta, passando do jazz para o blues, depois indo da bossa-nova ao épico, alternando entre o rock e uma belíssima Ave Maria….é algo interminável, profundo, definitivamente inesgotável. É claro, desde o título – Bebop é uma das vertentes mais ágeis do jazz, fundada por Charlie Parker e Dizzy Gillespie –, que a obra leva a sério a questão musical de uma forma pouco convencional. É extremamente prazeroso ver um cuidado tão peculiar, tal como o Zorbás de Kazantzakis e seu santir. Em um misto de comicidade – só ver o nome de cada episódio – e de dramaticidade admirável, a trilha sonora guarda surpresas em cada pontuação de cena feita, perpetuando-as e perpetuando-se aos ouvidos dos fãs pela eternidade. Daria um rápido destaque para três, alertando-me sobre a inerente injustiça e alertando o leitor para que veja a série e ouça tais músicas no anime: Wo Qui Non Coin, Green Bird e The Egg and I.

Três também será o número de episódios destacados, ainda que muitos merecessem o devido parágrafo de apreciação, para dizer o mínimo. É praticamente consenso entre fãs que Cowboy Bebop agarra o espectador para nunca mais soltar em seu episódio 5, Ballad of Fallen Angels. Posto que cada episódio se mantém por si só, existe sim a opção de começar pelo quinto episódio, o que não recomendo simplesmente devido ao fato de os primeiros quatro episódios apresentarem a estrutura do que é o Bebop. Mas sim, o quinto episódio é um dos melhores vinte minutos que alguém pode ter como entretenimento na vida, sem exageros. Outros episódios vão do noir para a ficção, do western para o urbano, das possibilidades alegres e utópicas para as mais silenciosas e soturnas. Speak Like a Child vai da profecia mais hilária para a catarse mais intensa em questão de segundos, por isso o cito. Outro memorável é Pierrot le Fou, que curiosamente traz um dos vilões mais assustadores em uma mistura entre trágico e circense, tipicamente do modo como o anime acostuma seu espectador.

O passado parece fixar-se como tema central de todo Cowboy Bebop – e considerando ser essa a questão mais universal do ser humano, o anime se torna automaticamente uma obra filosófica, grosso modo. Uns fogem dele, outros o buscam incessantemente, quase nunca no tempo considerado ideal. Os episódios que mais abordam tal problema são certamente os mais pesados – todos, a bem da verdade, mesmo que apenas nas cenas onde Jet e Spike jantam uma comida horrível, nunca deixam de lado essa temática – e não por acaso uma das frases marcantes do anime diz respeito ao peso, um peso que vai aumentando a cada segundo de cada episódio, passando despercebido, muitas vezes, por aqueles que o carregam. No fundo, o anime de Watanabe só quis jogar luz sobre essa escuridão mais pesada que a gravidade, sem dignifica-la, louvá-la ou limpá-la. Bastava expô-la ao público para que a identificação final e fatal ocorresse, como uma despedida sem volta.

Obs.: A média das notas de cada episódio arredondada daria 4,5 estrelas. Espero ter deixado claro que o anime, por sua vez, permite um espaço para gritar que dois e dois são cinco.

Obs. 2: Não sou de dedicatórias, mas queria oferecer este texto com todo o carinho ao meu cowboy do espaço favorito, Daniel Duarte, que me fez carregar o peso como o Sísifo que imaginou Camus.

Notas individuais dos episódios

Session # 1

Asteroid Blues

estrelas 5,0

Session # 2

Stray Dog Strut

estrelas 3,5

Session # 3

Honky Tonk Women

estrelas 4

Session # 4

Gateway Shuffle

 

 estrelas 4

Session # 5

Ballad of Fallen Angels

estrelas 5,0

Session # 6

Sympathy For The Devil

 estrelas 4,5
Session # 7

Heavy Metal Queen

 estrelas 4

Session # 8

Waltz For Venus

 estrelas 4,5

Session # 9

Jamming With Edward

 estrelas 3,5

Session # 10

Ganymede Elegy

 estrelas 5,0

Session # 11

Toys in the Attic

 estrelas 4,5

Session # 12

Jupiter Jazz Part 1

 estrelas 4

Session # 13

Jupiter Jazz Part 2

 estrelas 5,0

Session # 14

Bohemian Rhapsody

 estrelas 4

Session # 15

My Funny Valentine

 estrelas 5,0

Session # 16

Black Dog Serenade

 estrelas 3,5

Session # 17

Mushroom Samba

 estrelas 2

Session # 18

Speak Like a Child

 estrelas 5,0

Session # 19

Wild Horses

 estrelas 4

Session # 20

Pierrot le Fou

 estrelas 5,0

Session # 21

Boogie Woogie Feng Shui

 estrelas 4

Session # 22

Cowboy Funk

 estrelas 3,5

Session # 23

Brain Scratch

 estrelas 4,5

Session # 24

Hard Luck Woman

 estrelas 5,0

Session # 25

The Real Folk Blues Part 1

 estrelas 5,0

Session # 26

The Real Folk Blues Part 2

estrelas 5,0

Cowboy Bebop — Japão, 1998
Direção: Shinichiro Watanabe
Roteiro: Keiko Nobumoto
Duração: 26 episódios de aprox. 22 min.

ANTHONIO DELBON . . Pupilo de Goku, aprendiz de Charles Xavier e padawan nas horas vagas, gosto mesmo é de bons passeios, seja por Gotham, Westeros, Los Santos ou pelo reino de Lemuria. Sinto-me em casa aonde me aventuro e gosto de viajar sem sair do lugar. No dia-a-dia, nada melhor do que ouvir Gorillaz para lembrar porque estudo e amo filosofia - por mais que o Dr. Matthew Murdock tenha insistido em me fazer cursar Direito há alguns anos.