Crítica | Crash: No Limite

Crash - No Limite

estrelas 4,5

Sempre que comento sobre Crash: No Limite em alguma aula, palestra ou bate papo informal, minha opinião é a mesma desde a primeira vez que tive a oportunidade de ver este filme: “estamos diante de uma obra que não propõe respostas, mas nos chama para refletir sobre os nossos atos e como lidamos com as nossas atitudes cotidianas”. Há várias narrativas que debatem conflitos e tensões sociais oriundas do preconceito aparentemente inato aos seres humanos, mas ainda não vi um filme que consiga, de maneira tão orgânica, transformar em narrativa ficcional o conceito de estereótipos, bem como os mecanismos que engendram esta máquina que reproduz com tamanha sagacidade, tantas imagens cristalizadas.

Paul Haggis, depois do ótimo roteiro de Menina de Ouro, juntou-se a um time de atores compromissados e ao montador Hughes Winborne para nos entregar uma produção que é um reflexo de nossos tempos: segregacionismo, xenofobia, estereótipos e preconceitos. Não exatamente nesta ordem, tampouco apenas sofrido, mas cometido também.  Em Crash: No Limite, a trama não se preocupa somente no apontar de dedos para as ações que sofremos cotidianamente, mas também nos chama a repensar as nossas atitudes, o quanto somos contraditórios e mutáveis, a depender da situação em que estejamos envolvidos.

Com uma montagem que conecta muito bem os conflitos que gravitam em torno da narrativa, Crash: No Limite é cheio de rimas visuais e elementos bem dispostos pelo design de produção. A câmera, sempre eficiente, capta bem cada espaço cênico do filme, principalmente quando quer contrapor guetos com os arranha-céus, superioridade e inferioridade, poder e fraqueza, dentre outras situações duais, num enredo em que várias histórias se unem.

O promotor Rick (Brendan Fraser) e a sua esposa Jean (Sandra Bullock) são assaltados por uma dupla de homens negros, interpretados por Larenz Tate e Ludacris. Antes do assalto, eles questionam que uma garçonete negra não os atendeu bem, pois sabia que outra mesa com pessoas mais endinheiradas poderiam dar uma gorjeta melhor. Paralelo a isso, temos uma família persa que tem a sua loja assaltada e são confundidos com árabes. Eles haviam recebido o conselho do hispânico Daniel (Michael Peña), mas não seguem as ordens, o que culminará na desconfiança do rapaz como autor e num conflito muito maior adiante.

O cineasta negro Cameron (Terence Howard) é humilhado durante uma parada policial, sendo obrigado a ver a sua esposa (Thandie Newton) ser assediada pelo policial truculento interpretado por Matt Dillon, homem racista que trabalha ao lado de Manson (Ryan Phillipe), policial que discorda das posturas abusivas do colega de trabalho, mas que numa cena adiante, agirá com preconceito e promoverá a morte de um rapaz negro. Jennifer Esposito e Don Cheadle, parceiros de investigação, entram em conflito constantemente: quando não se trata de algo pessoal, estão envolvidos numa trama como o acidente de carro que abre o filme, uma discussão entre uma mexicana e um oriental.

Um dos pontos críticos do filme é mostrar que estamos sempre ocultando os nossos preconceitos, mas com o caminhar da vida na contemporaneidade, “furioso e em alta velocidade”, nos faz esquecer, e ao invés de guardá-los adequadamente, deixamos escapar em situações corriqueiras. Isso parte desde o avistar de um homem negro se aproximando do ponto de ônibus numa rua deserta (fato comumente citado em rodas de conversa e debates acadêmicos) ao básico “que negra linda” (quando alguém vê um outdoor com uma modelo negra dentro dos padrões de beleza da sociedade). Tais exemplos não estão no filme, mas são apenas adaptações para situações corriqueiras em nosso cotidiano. Você, caro leitor, já deve ter presenciado situação semelhante, concorda?

Ao passo que a narrativa avança, cada personagem procura refúgio em um lugar seguro para manter o desejado equilíbrio diante de tantas tensões. Há uma cena próxima ao final que a esposa do promotor, Jean Cabot, confessa, com desespero contido, que “sente raiva o tempo inteiro”. Nada mais natural, vindo de uma pessoa que faz parte de um angustiante ciclo de violência absurda, semelhante ao que vive a filha do chaveiro hispânico, criança que faz parte de um mundo onde não tememos mais monstros imaginários ou a escuridão, mas balas perdidas e a ameaça iminente de um revolver, objeto responsável por catalisar tragédias.

Mergulhado profundamente nos Estados Unidos após o catastrófico 11/9, Crash: No Limite versa sobre a perda da credibilidade dos americanos no governo de George W. Bush, bem como no aumento da desconfiança e falta de crença nas instituições, além de flertar com o que o estudioso da mídia Barry Glassner chamou de “cultura do medo”, isto é, a inversão de lugares no que tange aos preconceitos, haja vista o negro ser uma das maiores vítimas de crimes no país, entretanto, é iluminado pelos holofotes apenas quando são autores.

Ao surgir como uma espécie de sinédoque dos Estados Unidos, a estonteante Los Angeles é apresentada como um microcrosmo da sociedade, um espaço que também há preconceito dentro dos próprios grupos, o que na Psicologia social dos estereótipos conhecemos como indogroup: dentro do movimento negro, a disputa sobre quem é mais negro ou quem deve ou não lutar pelas causas dos pertencentes ao movimento; entre os asiáticos, quem é o povo hegemônico; entre os homossexuais, quem é superior, o ativo ou o passivo?

No filme, as subdivisões estão presentes e somos o tempo inteiro, apontados como flutuantes e contraditórios. Ora vilões, ora mocinhos.  Sendo assim, o espectador deve aprender uma lição: a depender do momento, somos todos preconceituosos, vítimas algozes de um sistema que nos sufoca, vulneráveis quase o tempo inteiro, agindo como pessoas amáveis ou detestáveis ao passo que o nosso dia avança. Em Crash: No Limite, o cineasta fala de Los Angeles, nos situa nos Estados Unidos, mas a discussão é ampla e poder ser debatida em qualquer outra metrópole capitalista ao redor do planeta. Um exemplo desta nossa dualidade está na personagem Shaniqua Johnson (Loreta Devine), uma mulher negra que é vítima de racismo por parte de um policial, mas numa cena posterior, bate o carro com um oriental e o destrata numa postura xenofóbica.

Ao trabalhar a complexidade dos seres humanos e automaticidade dos estereótipos, o filme surge como um espelho nosso de cada dia. O que dizer quando a personagem de Sandra Bullock julga um chaveiro por conta das suas tatuagens e roupas, mas na cena anterior, a mesma foi assaltada por dois negros que a julgaram preconceituosa, justamente por ter apertado com mais força, a mão do marido quando os rapazes passaram por perto na saída de um restaurante? Ela pode ser rica e mimada, mas não é isso que a mídia vende? O que aparece nos gráficos dos telejornais e manchetes cotidianamente? A quem devemos temer?

Complexo tais julgamentos, por isso uma tese, dissertação ou crítica de cinema não consegue dar conta de exaurir a quantidade de tópicos possíveis dentro de um debate envolvendo este filme polissêmico, denso e formidável exercício tanto de linguagem cinematográfica quanto de análise do comportamento humano.  Em uma cidade tomada pela devastação da ação dos humanos, “as pessoas não se tocam, pois estão sempre atrás do metal e do vidro”, aponta um personagem, ao reforçar depois que “sentimos tanta falta de toque que batemos uns nos outros só para experimentar a sensação de toque de novo”.

Crash: No Limite (Crash) — Alemanha/Estados Unidos, 2004
Direção: Paul Haggis
Roteiro: Paul Haggis, Bobby Moresco
Elenco: Alexis Rhee, Allan Steele, Amanda Moresco, Art Chudabala, Ashlyn Sanchez, Bahar Soomekh, Beverly Todd, Billy Gallo, Brendan Fraser, Bruce Kirby, Daniel Dae Kim, Dato Bakhtadze, Don Cheadle, Eddie J. Fernandez, Glenn Taranto, Greg Joung Paik, Howard Fong, Ime Etuk, Jack McGee, James Haggis, Jayden Lund, Jennifer Esposito, Joe Ordaz, Karina Arroyave, Kate Super, Kathleen York, Keith David, Ken Garito, Larenz Tate, Loretta Devine, Ludacris, Marina Sirtis, Martin Norseman, Matt Dillon, Michael Peña, Molly Schaffer, Nona Gaye, Octavio Gómez Berríos, Paul E. Short, Ryan Phillippe, Sandra Bullock, Sean Cory, Shaun Toub, Sylva Kelegian, Terrence Howard, Thandie Newton
Duração: 100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.