Crítica | Crazy Ex-Girlfriend – 1ª Temporada

Em questão de série cômica, muitos fatores podem fazer com que ela se torne algo memorável. Um roteiro inteligente é essencial, o elenco e as piadas tem que ser um casamento perfeito, mas o que realmente me impressiona assistindo uma comédia, ou qualquer série na verdade, é a sua originalidade. Não falo apenas de ter uma premissa diferente ou um conceito divertido, é questão de saber o que fazer com o material que tem em mãos e construir algo cada vez melhor, que traga aquela sensação inexplicável de estar assistindo uma produção única. E se eu tiver que pensar na última série que me trouxe essa impressão, a primeira coisa que vem à cabeça é Crazy Ex-Girlfriend.

Criada por Aline Brosh McKenna e Rachel Bloom, a série conta a história de Rebecca Bunch (interpretada por Bloom), uma advogada talentosa e bem sucedida, mas desiludida com sua vida pessoal. Ela toma remédios para insônia e depressão, o seu mundo é cinza e nada parece fazer sentido. Mas um dia encontra na rua o seu primeiro namorado, Josh Chan (Vincent Rodriguez III), o que deixa Rebecca animada o suficiente para fazer uma decisão importante: pedir demissão e se mudar para a pequena cidade de West Covina, em Los Angeles, onde encontra outra firma para trabalhar e segue o plano de conquistar Josh e fazer sua vida ter sentido outra vez. Mas não vai ser fácil lidar com as novas pessoas que conhece enquanto tenta encobrir sua verdadeira intenção.

A premissa pode ser bem simples na superfície, mas a série apresenta muito mais. Não basta ser uma comédia, Crazy Ex-Girlfriend também é um musical. Rachel Bloom começou sua carreira escrevendo para a série animada Robot Chicken, mas foi com seus vídeos musicais (todos disponível no seu canal do Youtube, racheldoesstuff) que acabou recebendo uma atenção maior. Trazendo esse repertório para a série, Rachel consegue usar a música para brincar com o formato e criar situações cômicas inusitadas. Ao contrário de outras séries como Smash e Glee, Crazy Ex-Girlfriend usa os números musicais como um recurso narrativo e nunca uma muleta para esconder um roteiro preguiçoso (eu preciso ser honesto), sem contar que todas são composições originais da própria Rachel Bloom.

O primeiro número musical vem logo depois da personagem pedir demissão. Seu mundo está colorido pela primeira vez e West Covina começa a tocar. Cantada em um formato divertido que remete o estilo da Broadway, a letra também dá espaço para detalhes importantes que tomarão conta da trama no futuro e como nem tudo será tão bonito daqui pra frente, já que todas as músicas trazem um grau de auto realização dos personagens. Quando chegamos em You Stupid Bitch, dá pra ver que a série não fica apenas na parte conceitual e se aprofunda nos temas mais sérios que apresenta desde o início (o “Crazy” no titulo não é gratuito).

A série transita entre estilos musicais diferentes e tem pra todos os gostos. A Boy Band Made Up of Four Joshes, por exemplo, brinca com o conceito de bandas como ‘N Sync colocando o mesmo personagem como todos os integrantes, mas ao mesmo tempo, é uma composição que fala sobre as inseguranças de uma Rebecca mais jovem, abandonada pelas pessoas que mais ama. Mas a série dá espaço para o drama pessoal de outros personagens, como o sarcástico Greg (Santino Fontana), que tem uma queda por mulheres que o ignoram e sonha em ir embora de West Covina. Settle For Me é sua tentativa em conquistar Rebecca e What’ll It Be é uma carta de ódio para a cidade onde viveu toda sua vida. Além de Santino, não posso deixar de mencionar Donna Lynne Champlin, que interpreta Paula, companheira de trabalho da protagonista e dona de casa que também procura por algo mais na vida. Donna tem uma voz tão poderosa que recebeu algumas das melhores músicas da temporada, como a explosiva After Everything I’ve Done For You (That You Didn’t Ask For). O mais impressionante é o talento de todos os envolvidos, que além de atuar e cantar, tem que aprender as coreografias. É um enorme esforço da equipe criativa e o resultado é o mais satisfatório possível.

Este diferencial pode ser, infelizmente, um dos motivos para uma audiência tão baixa da série. O público geral costuma ter um problema com comédias que carregam um humor mais sarcástico e não está familiarizado com o formato, principalmente quando se fala de musicais, um gênero que divide opiniões. Mesmo assim, Crazy Ex-Girlfriend não compromete seu conteúdo e continua se arriscando ao longo dos episódios, ainda mais nas próximas temporadas.

Como disse antes, a série tem como base um debate sobre depressão e obsessão, mas aproveita seus personagens para se aprofundar em muito mais. Com um elenco bastante diverso, a série tem a representatividade que falta em muitas produções. Se em outras séries você encontra etnias sendo interpretadas da forma mais estereotipada possível ou minorias resumidas em alívio cômico, aqui todos têm grande espaço e relevância narrativa – destaque para a forma que um personagem assume sua bissexualidade e acaba sendo um dos pontos altos da temporada. Apenas mencionar o assunto é um tabu em muitas produções consideradas muito mais “sérias”, então é mais um enorme crédito para Bloom e McKenna em tentar novas formas de abordar tópicos como sexualidade, feminismo e até masculinidade tóxica e apropriação cultural de maneira tão orgânica.

O público pode ainda não ter descoberto essa série, mas se procura algo original, com um humor inteligente, enredo de qualidade e ótimas atuações (tão boas que renderam um Globo de Ouro para Rachel Bloom em 2016), Crazy Ex-Girlfriend é uma das primeiras comédias que recomendo e facilmente uma das melhores atualmente. Todo o esforço colocado nessa série merece atenção.

Crazy Ex-Girlfriend – 1ª Temporada — EUA, 2015
Criação: Aline Brosh McKenna e Rachel Bloom
Direção: Marc Webb, Don Scardino, Tamra Davis, Stuart McDonald, Kenny Ortega
Roteiro: Rachel Bloom, Aline Brosh McKenna, Michael Hitchcock, Rene Gube
Elenco: Rachel Bloom, Donna Lynne Champlin, Santino Fontana, Vincent Rodrigues III, Pete Gardner
Duração: 18 episódios de aprox. 42 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie