Crítica | Crazyhead – 1ª Temporada

estrelas 3

Pensem em Buffy: A Caça-Vampiros na estética de Misfits e pronto, já dá para perfeitamente imaginar o que é Crazyhead, nova série de Howard Overman que, não coincidentemente, criou Misfits. Co-produção da Channel 4 com o Netflix e que foi primeiro exibida no canal E4, na Inglaterra, em outubro, para somente ganhar distribuição mundial via streaming em dezembro, a série de apenas seis episódios mistura drama, horror e comédia em um resultado agradável, ainda que pouco marcante ou original.

O que a série tem de melhor é a improvável dupla principal formada por Amy (Cara Theobold), uma jovem que vê demônios e que por isso acha que é louca e Raquel (Susan Wokoma), outra jovem que vê demônios, mas sabe que eles são de verdade e tem como missão de vida aniquilá-los. As duas se encontram por acaso e Raquel toma Amy debaixo de suas asas para ensinar aquilo que sabe “de orelhada” ou pesquisando no Google, já que ela, apesar de um conhecimento enciclopédico sobre basicamente tudo, não se fixa em nada por mais do que cinco segundos.

A dinâmica de buddy cop inicialmente entabulada pelas duas logo ganha o espectador, especialmente considerando a maneira desbocada e desmedida com que Raquel fala o que passa em sua cabeça, resultando em boas gargalhadas iniciais não só pela reação de Amy, mas também pela loira entrar de cabeça nesse mundo escuso e sinistro em que sua vida sem graça como atendente de pista de boliche começa a fazer sentido. Afinal, o grande mote da série é lidar com pessoas marginalizadas que encontram seu propósito uma na outra, mas indo além e lidando com a forma como os próprios demônios são obrigados a viver – “dentro do armário” em uma metáfora nada discreta – escondendo-se de tudo e de todos. Apenas as duas caçadoras têm os poderes para enxergá-los como são verdadeiramente e, com isso, têm chance de desbaratar seu plano maligno de possessão mundial.

Mas quando a série sai desse estudo de personagens perdidos, considerados loucos pelos outros, e entra no sobrenatural propriamente dito, o roteiro, integralmente escrito por Overman, começa a engasgar. As piadas que, logo no começo, funcionam bem pelo inusitado e pelos detalhes gráficos que Raquel descreve coisas como “esperma na vagina” ou “fezes no vaso” não demoram e perdem sua força e passam a ser mais do mesmo, sem que haja uma renovação que traga algum frescor. E isso mesmo considerando que são apenas seis episódios, o que mostra que Overman, na verdade, só tinha material mesmo para, talvez, um longa metragem interessante sobre duas caçadoras de demônios.

Com isso, muito do tempo da série é empregado em lidar com personagens coadjuvantes como Suzanne (Riann Steele), a melhor amiga de Amy, que é a primeira “baixa” da história e Jake (Lewis Reeves), amigo de Amy que deseja ser mais do que isso, quase parecendo um molestador de mulheres no processo de tão estranho que o personagem é. Mas os dois, assim como a dupla principal, funcionam até certo ponto, ainda que Jake não seja muito diferente na forma de agir e falar do que Raquel ou mesmo Amy. Quem realmente ganha tratamento diferenciado é Mercy (Lu Corfield), demônio que possuiu uma mãe solteira e que tem que dividir seu tempo entre cuidar de seu filho humano e servir de assassina a mando de Callum (Tony Curran), o grande vilão. Durona e rabugenta, mas amorosa, Mercy é uma personagem que foge dos padrões de séries como essa, ainda que ela tenha pouco espaço na série.

O grande plano de Callum, aliás, é carregado de clichês tanto na tentativa de manutenção do mistério quando em sua execução, com as revelações sobre quem exatamente é Raquel e porque ela é importante não passando de textos padrões tirados de um sem-número de outras obras espalhadas por aí. É como ver uma colcha de retalhos de praticamente toda série sobrenatural com jovens perdidos que pontilham a televisão mundial, com as únicas e específicas vantagens de esta ser britânica, o que adiciona um humor todo especial, ainda que falho e de ter uma dupla protagonista que imediatamente mostra sua química e que permanece assim até o final. Na verdade, estou sendo injusto, pois a série tem outras duas vantagens: ela é curta e conta uma história substancialmente fechada, com começo, meio e fim, mesmo considerando que leves pontas sejam deixadas desamarradas para permitir uma segunda temporada.

Crazyhead é uma série simpática em razão das protagonistas e simplista em seu desenvolvimento. Não funciona particularmente bem como comédia, horror ou drama, mas o resultado final agradará mesmo que seja superficialmente.

Crazyhead (Reino Unido/Irlanda/EUA – 2016)
Criação e showrunner: Howard Overman
Direção: Al Mackay, Declan O’Dwyer
Roteiro: Howard Overman
Elenco: Cara Theobold, Susan Wokoma, Riann Steele, Lewis Reeves, Arinze Kene, Tony Curran, Lu Corfield
Duração: 45 min. (aprox. por episódio – 6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.