Crítica | Creed: Nascido para Lutar

creed

estrelas 4,5

Obs: Leiam as demais críticas dos filmes da franquia Rocky, aqui.

2015. Nesse ano, uma franquia consagrada dos anos 70 retorna às telas depois de seis filmes com uma espécie de continuação/reboot. O novo filme aposta agora em um protagonista negro que utiliza o herói dos clássicos como mentor, ajudando-o a inserir neste universo. E não, curiosamente não estou falando de Star Wars: O Despertar da Força, mas sim de Creed: Nascido para Lutar, filme de Ryan Coogler que é bem sucedido nessa mesma missão do Episódio VII de J.J. Abrams: passar o bastão de uma franquia icônica para uma nova geração.

Dessa vez, somos apresentados a Adonis Johnson (Michael B. Jordan), o filho bastardo do famoso lutador Apollo Creed, falecido oponente de Rocky Balboa (Sylvester Stallone). Sentindo a necessidade de abraçar o seu legado e construir uma carreira sólida no boxe profissional, o jovem abandona sua vida de luxos e muda-se para a Filadélfia com o objetivo de encontrar o aposentado Garanhão Italiano e convencê-lo a treiná-lo.

Em muitos aspectos, é uma recriação da estrutura clássica do primeiro filme, ou de virtualmente todo filme do gênero esportivo. Uma longa preparação física e psicológica para um recompensador clímax catártico. O diferencial é o tratamento certeiro do roteiro de Coogler e Aaron Covington, que são eficientes em utilizar todos os artifícios e muletas narrativas para construção de uma história. A trajetória de Adonis já difere bastante da de Balboa por trazer um personagem mais avantajado, dada a fortuna de sua mãe adotiva e o valor de seu nome; o que paradoxalmente garante uma preocupação ainda maior ao jovem: a necessidade de honrar o legado de Creed, e provar que sua capacidade vai além do nome.

Isso garante muito mais foco em Adonis do que Balboa, que serve mais como um coadjuvante de luxo (chegaremos a ele em alguns instantes). O show é todo de Michael B. Jordan, que novamente se mostra um dos grandes nomes da nova geração. Adonis é um jovem difícil de se gostar a maior parte do tempo, dado seu temperamento explosivo e impaciência (algo bem distinto da ingenuidade e humildade de Rocky), mas Jordan compensa pelo carisma nas cenas com Stallone e também na delicada maneira com que constrói a relação com a vizinha Bianca (Tessa Thompson). Mas é mesmo quando, em uma explosão de fúria, vemos uma tímida lágrima saindo de seu olho (e a pressa para enxugá-la) que realmente entendemos a pressão que Adonis sente, seja na necessidade de se provar ou a mera rejeição que experimentou a vida toda – e a angústia de nunca ter conhecido o pai.

E, finalmente, chegamos a Sylvester Stallone. Encarnando Balboa pela sétima vez, o ator de 69 anos felizmente passa longe dos ringues e ainda conta com a direção mais naturalista de Coogler, entregando aqui aquela que muito provavelmente é a melhor performance de sua carreira. Sly resgata os elementos clássicos de Balboa, como sua simpatia e bom coração, praticamente como se o ator nunca tivesse deixado de interpretar o lutador. Mas é quando a trama explora o lado mais melancólico e sombrio do personagem que realmente vemos território nunca explorado pelo ator: sozinho, com todos os entes queridos falecidos (com exceção de seu filho, apenas mencionado), Rocky parece confortável e ansioso para o momento de sua morte. Isso rende uma complexa e desafiadora cena entre Stallone e Jordan, e nos faz lembrar como o eterno herói de ação é um grande ator.

Aliás, todas as cenas com os dois são excelentes, auxiliadas pelo texto divertido e a direção acertada de Coogler. Saído do elogiado Fruitvale Station, Coogler já em seu segundo filme demonstra talento para compor quadros altamente simbólicos e capazes de contar por si só uma história: tome como exemplo o plano que traz Adonis e Rocky treinando socos juntos em uma plataforma de punching ball, demonstrando a parceria e sincronia dos dois, apenas para que – em outro ponto mais sombrio da trama- vermos exatamente o mesmo plano, mas dessa vez trazendo Adonis sozinho enquanto a outra punching ball fica em evidência, fora de uso.

O domínio de Coogler atinge o ápice quando, auxiliado pela diretora de fotografia Maryse Alberti (já familiarizada com o gênero, tendo fotografado O Lutador para Darren Aronofsky), aposta em retratar a primeira grande luta de Adonis em um longo plano no qual a câmera circula entre os dois lutadores, captura primeiros planos dos dois e ainda traz certeiras reações de Rocky – no canto do ringue – e da plateia, em uma verdadeira dança com a câmera. O resultado em tela é espetacular, já que vai completamente contra a estética com a qual estamos acostumados quando vemos uma cena de luta de boxe no cinema; geralmente estruturado por uma montagem incessante e frenética. Até mesmo a luta final de Adonis, que opta por uma abordagem mais tradicional, limita os cortes e as câmeras de televisão (como vimos em Rocky Balboa), apostando fortemente em uma trilha sonora operática e efeitos em câmera lenta marcantes – que, aliás, rende uma poderosa catarse para o protagonista.

O saudosismo que uma produção do tipo é capaz de provocar também é muito bem dosado. A estrutura consagrada do primeiro é mantida, com direito à obrigatória montagem de treinamento, que merece créditos ao compositor Ludwig Göransson, que traz um remix operático e grandioso da famosa “Gonna Fly Now”, ao mesmo tempo em que a mixagem de som a combina com trechos de rap de Meek Mill; uma forma muito eficiente de atualizar a franquia e conferi-la a um novo protagonista, com o rap surgindo como uma nova identidade cultural. Até mesmo o clássico tema de Bill Conti é usado uma única vez, mas com uma precisão impressionante.

Se há um fator no qual Creed realmente falha é seu oponente. Seja Apollo Creed no primeiro filme, o ótimo Mason Dixon em Rocky Balboa ou até mesmo o ciborgue Ivan Drago em Rocky IV, os adversários sempre foram figuras marcantes e memoráveis. O “Pretty” Ricky Conlan infelizmente passa todo o longa como um sujeito arrogante e provocador, sendo facilmente um arquétipo de antagonista. Claro, temos uma subtrama sobre o lutador tentando reestruturar sua família após um delito, mas empalidece diante do tratamento à jornada de Creed. O único fator redentor sobre Conlan vem logo ao final da luta climática, mas paro por aqui para não entregar surpresas.

No geral, Creed: Nascido para Lutar é mais um fantástico exemplo de como se rebootar uma franquia sem invalidar ou simplesmente se apoiar nos feitos do original. Como o próprio protagonista, este filme de Ryan Coogler encontra sua própria identidade dentro de um universo familiar, sem dúvida fazendo justiça ao legado do icônico Rocky Balboa.

Espero que seja apenas o início…

Creed: Nascido para Lutar (Creed, EUA – 2015)

Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler e Aaron Covington
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Ritchie Coster, Graham McTavish
Duração: 133 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.