Crítica | Creepshow: Show de Horrores

estrelas 3,5

“A maior diversão que você vai poder ter sendo assustado.” – Frase que estampa o pôster promocional de Creepshow

Creepshow, de George A. Romero é possivelmente o filme mais conhecido do diretor depois da Trilogia dos Mortos-Vivos, esta que extraordinariamente tornou-o a gigante lenda que aprendemos a respeitar. O que deixa tal obra ainda mais relevante para os amantes do gênero é a assinatura no roteiro de Stephen King, notável escritor de contos fantásticos de horror. Em Show de Horrores, a dupla conta cinco histórias, acompanhadas de uma introdução e um epílogo, com a pretensão de, além de assustar e também divertir, homenagear os quadrinhos clássicos da E.C. Comics da década de 50. O encontro perfeito do terror sobrenatural pode, em seu resultado, até não dar margem a uma antologia perfeita, mas certamente diverte o espectador, em seus altos e baixos.

Após a abertura, que insere o espectador nesse visual quadrinístico denotado do tributo – contando também com uma ótima cutucada no moralismo dos pais perante os produtos nos quais seus filhos tem acesso, dá se início ao primeiro conto da obra: Dia dos Pais. O enredo coloca uma família à espera da chegada da tia Bedelia (Viveca Lindfors), que dizem boatos, supostamente matara seu próprio pai, anos atrás, em outra celebração de dia dos pais. A história é exageradamente verborrágica, e o elenco caminha em um estado robótico, com exceção da própria Bedelia, que excepcionalmente consegue transmitir o sentimento certo durante o fraco monólogo à frente da lápide de seu pai falecido. A história vai ficando cada vez mais bizarra, e a má condução do segmento começa aos poucos a evidenciar a intenção, de fato, do diretor, embora nunca exatamente clara. Mesmo que um pouco incompreensível, definitivamente a mais trash das cinco, com uma conclusão difícil de ser esquecida.

Particularmente minha fração favorita da obra, A Morte Solitária de Jordy Varrill é também a mais curta de Creepshow. O tom tragicômico deste pedaço dá-se devido à personalidade deste fazendeiro qualquer, interpretado pelo próprio Stephen King, que acredita ter dado sorte ao deparar-se com um meteoro caído a poucos metros de sua moradia. O que Jordy não esperava era que o contato com esse objeto espacial contaminasse-o de modo a cobrir tudo ao seu redor, e a si mesmo, de musgo. A constatação de sua realidade vai fazendo o personagem começar a delirar, e a leveza do início do fragmento, aliada à interpretação abobalhada de King, vai indo de encontro a conclusão extremamente dramática, também sentida na interpretação do roteirista/ator. Devem-se dar lembranças também à monumental maquiagem de Tom Savini, que ainda teria espaço para aplausos na história seguinte e na última, além da mais que eficiente cenografia, que transforma um mero casebre e seus arredores em um devastador cenário quase pós-apocalíptico.

Conhecido por trabalhos em comédias e paródias como Corra que a Polícia Vem Aí, é surpreendente ver esse outro lado interpretativo de Leslie Nielsen, que encarna neste terceiro segmento um frio e calculista marido que, ao ser traído por um homem mais novo, decide vingar-se tanto de sua esposa quanto de seu amante – das piores maneiras possíveis. Em Algo Para Segurar Você, George A. Romero – mesmo que com uma câmera menos confiante – nos convida solenemente a testemunharmos a insanidade de um homem, que acoberta sua loucura cruel no clássico pretexto da vingança passional. Nunca antes a chegada das ondas do mar ao seu natural destino final soaram tão aterrorizadoras. Em seus últimos momentos, o roteiro ainda garante uma reviravolta, mais sobrenatural, porém não menos magnífica, com mais uma exemplificação da grande competência artística de Tom Savini.

Com mais uma hora para frente, as duas últimas narrativas concluem bem a obra. Enquanto Encaixotado, penúltima história da antologia, apresenta um conto mais morno, paciente e com uma direção menos chamativa (releva-se no entanto a terrível fantasia/roupa do monstro aprisionado), Eles Estão Rastejando para Cima de Você é o clímax de tudo que estava sendo construído por Romero e King, não em um aspecto que envolva o storytelling, mas sim no tom de toda a obra. O ator E. G. Marshall brilha ao interpretar o terrível senhor Pratt, um homem que com todos seus defeitos, acaba tendo que enfrentar sua maior fobia: baratas. De revirar os olhos, a “trasheira” é muito bem conduzida, sendo este conto definitivamente o mais icônico do longa.

Longe de ser o melhor trabalho, tanto de Romero quanto de King, Creepshow ao final de suas duas horas de duração cumpre, todavia, com a exata dose de diversão que propôs a oferecer para seu público. Não é uma antologia pretensa a ser algo maior do que é, vide a fraca, mas honesta, primeira história de abertura, que está lá apenas para garantir umas boas risadas diante de tanta “tosqueira”. Este show de horrores consegue evidenciar, mesmo assim, momentos realmente dignos dos nomes das lendas que os produziram, como por exemplo três ótimos textos de King – e sua consideravelmente boa atuação, a fantástica criação de cenários de Romero, que brinca muito bem com a iluminação dos ambientes, além de alguns ápices da maquiagem de Savini. Um pouco de trash a ilustrar esses anos 80.

Creepshow – Show de Horrores (Creepshow) — EUA, 1982
Diretor: George A. Romero
Roteiro: Stephen King
Elenco: Vevica Lindfors, Jon Lormer, Carrie Nye, Ed Harris, Elizabeth Reyan, Nann Mogg, Stephen King, Leslie Nielsen, Ted Danson, Gaylen Ross, Hal Holbrook, Adriene Barbeau, Fritz Weaver, Don Keefer, E.G. Marshall
Duração: 120 min

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?