Crítica | Creepy: Contos Clássicos de Terror – Volume 1

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Ah, então você também é um desses malditos fanáticos por histórias de terror, hein? Gosta de humor negro e de ver o sofrimento dos outros? Ou está somente procurando por histórias diferentes do convencional, nas quais o mal sempre prevalece? Finais felizes dão ânsia de vômito, não é? Pois bem, você veio ao lugar certo! Acomode-se aí que eu vou lhe contar uma história das mais arrepiantes!

Era o começo da década de 50 quando a editora EC (Entertaining Comics) fazia um grande sucesso com a publicação de títulos como Tales From Crypt, Vault of Horror e Crime Suspen Stories. Eram histórias normalmente curtas, contos na verdade, que tinham como temas principais terror e suspense, sempre com boas doses de crime, morte, criaturas sobrenaturais de todos os tipos, ficção espacial e violência. Ah claro, não podia faltar um pouco de humor mórbido e ácido. Era uma alternativa interessante aos artistas, que tinham liberdade criativa total para colocar em prática suas ideias, e ao público, que podia sair um pouco do arroz com feijão da indústria da época.

No entanto, não era assim que pensava o Dr. Fredric Wertham, psiquiatra que alimentava campanhas contra as histórias em quadrinhos, alegando que eram uma influência negativa para as crianças. O trabalho de Wertham foi um dos fatores que impulsionou o congresso americano a recomendar que as editoras de quadrinhos criassem algum tipo de fiscalização para regulamentar/censurar o teor das histórias publicadas. A partir disso, em 1954, nasceu a Comics Magazine Association of America, que era formada por membros de várias editoras e responsável pela aplicação do famoso Comics Code Authority (CCA). Com o advento do CCA a EC deixou de publicar suas principais revistas, pois todos os elementos que formavam o cerne dos seus títulos foram vetados.

Em 1964, começou a ser publicada a revista Creepy pela Warren Publishing. Seu dono e publisher, James (Jim) Warren, tinha como objetivo resgatar a essência das revistas da EC. Com o formato magazine, que era maior e não se enquadrava como revista em quadrinhos, fugindo assim do CCA, e contando com vários dos artistas que trabalharam na EC, a revista Creepy homenageava as publicações de terror de dez anos antes, utilizando os mesmos temas e produzindo contos de qualidade equivalente. E foram os contos publicados nesta revista, mais precisamente nas suas cinco primeiras edições, que a editora Devir resgatou com o relançamento de Creepy – Contos Clássicos de Terror – Volume 1.

E aí seu pequeno tratante, gostou da história? Agora sim, vamos ao que interessa! Este volume reúne cerca de 35 contos ao todo, tendo nomes de peso como Archie Goodwin, Joe Orlando, Frank Frazetta, Al Williamson, Alex Toth e Otto Binder, só pra citar alguns, nos roteiros e desenhos.

Com contos curtos (cerca de oito páginas), textos dinâmicos, narrativa sempre direta e objetiva e desenhos realistas, Creepy era um grande sucesso com o público jovem dos anos 60. Outra característica marcante são as reviravoltas no final de cada trama, normalmente deixadas para os últimos quadros. Porém, com o passar das páginas, os plot twists vão deixando de ser surpresa, pois são recorrentes em quase todos os contos e o impacto fica cada vez menor, tornando a narrativa um pouco previsível, como, por exemplo, em Sangue e Orquídeas e A Coisa Maldita. Este talvez seja um fator negativo à medida em que se avança na leitura. No entanto, a criatividade e variedade dos contos ainda são suficientes para prender o leitor. Vamos lá seu maníaco sorridente, não fique triste só por causa de um formato repetitivo, há ainda uma grande variedade de atos cruéis e sórdidos que podem ser apreciados nas páginas deste compilado. Vamos, siga em frente e pare de reclamar!

Por outro lado (viu, não falei?), os melhores contos são histórias criativas, envolventes e extremamente espirituosas. Bons exemplos são A História do Sucesso, Guarda-roupa de Monstros, Diversão e Jogos, Viagem de Volta, A Cria do Povo-Gato e Surpresa Dolorida. Na verdade, a maior parte dos contos é muito boa, eu diria que somente dois ficam num nível de qualidade abaixo: Mundo de Água e Cidade Lunar. Pouco inspirados e com desfecho insatisfatório, estes realmente destoam dos outros da coletânea, o que não é suficiente nem de longe para comprometer a experiência com a obra.

Vale lembrar que, apesar da autonomia criativa atribuída aos autores, alguns contos, como Coração Delator; Eu, Robô e A Casa do Juiz, são adaptações de “velhos mestres do frio na espinha” (no caso, Edgar Alan Poe, Isaac Asimov e Bram Stoker, respectivamente).

A arte, sempre em preto e branco, é ideal para combinar com os temas macabros. A estética realista é mantida mesmo com o rodízio de desenhistas e todos são bem-sucedidos na retratação de criaturas bizarras e expressões faciais, sempre muito verossímeis. No entanto, devo destacar aqui os trabalhos de Frank Frazetta; o realismo que ele consegue imprimir nos seus desenhos é excepcional, inclusive dando sensação de textura e densidade em alguns casos. Frazetta é responsável também pela maioria das capas reunidas neste volume, sendo que a da edição 3, para mim, deveria inclusive ilustrar a capa da coletânea.

Outra característica de Creepy é o humor funesto, que fica quase sempre por conta do personagem Titio Creepy, anfitrião da revista que apresenta os contos ao leitor e, no final de cada um, faz um comentário sarcástico ou ácido sobre a conclusão da história. A figura do anfitrião é mais um elemento herdado das publicações da EC, que posteriormente foi utilizado por outras editoras e também em produções para o cinema e TV.

Creepy – Contos Clássicos de Terror – Volume 1 faz um resgate histórico importantíssimo, com nomes consagrados da indústria dos quadrinhos fazendo histórias de alta qualidade, constituindo um marco do gênero de terror. Mesmo com uma fórmula narrativa repetitiva, a criatividade e ousadia das histórias, o leque de facetas do terror e a arte de estilo clássico e realista são mais do que suficientes para fazer a leitura valer a pena.

Diga-me biltre leitor, o que achou deste texto e da leitura dos contos? Dedicamos logo abaixo um espaço para que indivíduos doentios como você possam expressar suas opiniões pervertidas e colaborar com nossas análises. Então vamos lá, mova-se e escreva algo aí antes que a gélida foice da morte o encontre na próxima esquina.

Creepy Archives Volume 1 (Collecting Creepy 1 – 5) – EUA, 2008
No Brasil: Creepy – Contos Clássicos de Terror – Volume 1
Roteiro: Archie Goodwin, Arthur Porges, Otto Binder, Larry Engleheart, Russ Jones, Bill Pearson, Larry Ivie, Joe Orlando
Desenhos: Frank Frazetta, Reed Crandall, Jack Davis, Joe Orlando, George Evans, Al Williamsom, Alex Toth, Gray Morrow, Angelo Torres, Al McWilliams, Maurice Whitman, Roy Krenkel, Bob Lubbers
Capas: Jack Davis e Frank Frazetta
Editora: Devir
256 páginas (edição nacional)

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.