Crítica | Crítico (2008)

estrelas 4

Crítico é um documentário dirigido por Kleber Mendonça Filho, lançado em 2008 no Brasil. Apesar de ter passado por alguns festivais, não há cópia oficial disponível para compra em nenhuma distribuidora brasileira. O cineasta, que ainda está experimentando o sabor do prestígio internacional com o seu recente O Som ao Redor, documentou os relatos de críticos e cineastas durante quase 10 anos e transformou-os em um amplo texto coletivo com reflexões sobre a crítica cinematográfica.

Importante para cinéfilos, críticos e curiosos, o documentário é um notável exercício metalinguístico sobre a indústria audiovisual as tarefas atribuídas aos críticos de cinema, profissionais que desde os idos da década de 1920, são responsáveis por ligar os filmes ao público. Diferente da crítica literária, que surgiu diante da vasta produção dispersa e produzida anterior ao seu fortalecimento, a crítica cinematográfica foi evoluindo ao passo que o cinema ia encontrando novas possibilidades narrativas.

A produção reúne depoimentos de vários críticos e cineastas entre 1998 e 2007 e segue uma linha bastante econômica ao aproveitar a sua participação em diversos festivais e sessões de imprensa no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Economia, que por sinal, não denota falta de qualidade, pois ao trazer para o documentário aspectos do gênero road movie, Crítico se apresenta como um registro audiovisual típico do estereótipo de um andarilho, alguém livre das formalidades narrativas e com depoimentos que ao passo que demonstram a importância desse profissional do cinema, também o ironiza.

Os críticos, dessa vez, são representados pelo meio que criticam. No documentário, a crítica é colocada numa sessão de análise para falar de si mesma. Mesmo não sendo uma narrativa em primeira pessoa, a produção não deixa de ser um documentário confessional. É uma produção onde a crítica se personifica, e com força metalinguística, escreve sobre si. Kleber Mendonça Filho, também crítico de cinema, surge como uma espécie do eu que fala e que se oferece ao olhar do outro, e, concomitantemente, olha para si mesmo.

O filme começa citando Jean-Luc Godard, cineasta chave para pensarmos a crítica, haja vista que antes de lançar os seus filmes, o diretor era crítico de cinema e teorizou a Nouvelle Vague antes mesmo de lança-la como vanguarda, ao lado de François Truffaut. Em um dos mais significativos jogos de montagem do filme, Mendonça apresenta uma sequência que é a base do filme: justaposição de planos com rolo de filmes e jornais saindo da impressão. O paralelismo das imagens narram expressivamente o conteúdo do documentário, seguido de uma cartela preta com palavras-chave como diálogo, amor/ódio, monte de besteira. Expressões que surgem no decorrer do filme.

O primeiro relato é do diretor iraniano Babak Payami, que declara ser a análise a essência da crítica, tocando na questão do distanciamento do crítico em relação ao filme, mesmo tendo que senti-lo. Para Michel Ciment, crítico do veículo francês Positif, fazer crítica de cinema não é o mesmo que produzir considerações sobre um texto literário, pois no caso do cinema você usa palavras para falar de filmes. Até esse momento, Mendonça orquestra a narrativa sobrepondo um relato de um cineasta, seguido de um relato oriundo do campo da crítica.

O documentário ilumina a função biológica da crítica de cinema. É o que afirma o crítico Jerôme Garcin, do jornal Le Nouvel Observation. Segundo o especialista, a crítica faz circular o sangue da cultura. Percebemos nesse relato que a montagem alterna depoimentos mais despojados, ao lado de reflexões teóricas e mais densas sobre a função da crítica de cinema no âmbito da produção cultural, porém, Crítico ganha uma abordagem mais ampla ao evitar um debate eminentemente acadêmico sobre a crítica cinematográfica, além de apostar na montagem para alternar relatos que, de forma maniqueísta, apresentam entrevistas com trafegam entre a falta de humor aos depoimentos com direito a gargalhadas, recheados de comicidade.

Pierre Murat, crítico da revista Telerama, alega que é mais fácil escrever quando você não gosta do filme. Claudio Assis, diretor de Amarelo Manga, ao seguir um relato descontraído ao melhor estilo Tom Zé, com direito a xingamentos e autenticidade, aponta que se o realizador colocou o seu filme para exibição, precisa ter a hombridade para a recepção positiva ou negativa.

A crítica e a sua relação com os cinéfilos fica por conta do depoimento de Curtis Hanson, cineasta responsável por filmes como Los Angeles – Cidade Proibida. Num relato bastante intimista ele assume ser um leitor voraz de críticas cinematográficas, pois respeita os trabalhos destes profissionais que sentem o cinema como ele. Esse depoimento apaixonado de Hanson ecoa nos relatos que seguintes: as considerações do diretor Marcelo Gomes, de Cinema, Aspirinas e Urubus, que informa ter visto coisas em seu filme que não havia pensado após ler algumas críticas, e do cineasta Carlos Reichenbach, ao dizer que a crítica prepara o espectador para embarcar no filme.

Importantes relatos preenchem o documentário, com a participação dos críticos Ruy Gardier (Contracampo), Pedro Butcher (Folha de São Paulo) e Eduardo Valente (Cinética), além dos depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Costa-Gravas, Carlos Saura, Eduardo Coutinho, Fernando Meirelles e Walter Sales. Além dos aspectos apontados, há três pontos cruciais que tornam Crítico um documentário valioso e um espelho para os críticos de cinema de todas as gerações: a abordagem do mito da cordialidade do brasileiro, a germinação da crítica na esfera virtual pública e o ideal de crítica como autobiografia, afirmação cunhada por Oscar Wilde, ideia ainda muito coerente na contemporaneidade.

Um dos pontos de maior criticidade do documentário está no âmbito da performance. No geral, o diretor capta os relatos enquadrando-os através de um primeiro plano, clássico das narrativas documentais segundo os manuais oficiais de cinema. Os cineastas João Moreira Salles e Sergio Bianchi são dois casos emblemáticos. Salles, através de um discurso tradicionalista e cheio de palavras escorregadias como “filme ruim”, “boa crítica”, “texto ideal”, fala da crítica com a mão no queixo, de forma bastante contemplativa. Já Bianchi, fumando um cigarro e enquadrado em primeiro plano, mas de lado, exala um pouco de fúria ao falar dos críticos de cinema.

Para João Moreira Salles, o crítico de cinema brasileiro segue o padrão do homem cordial proposto por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Em suma, a cordialidade é um protótipo do homem brasileiro, avesso a hierarquias, arredio à disciplina, e, entre outras alcunhas, afeito ao compadrio e ao paternalismo. Dessa forma, o diretor afirma em seu depoimento que, diferente da crítica de cinema nos Estados Unidos, o Brasil segue uma linha pouco ética e respeitosa em relação a essa atividade. Críticos que são amigos de certos diretores não escrevem quando não gostam de um dos seus filmes, bem como elogiam, quando na verdade detestam a produção.

A observação de Salles ganha força com os depoimentos que seguem depois. Hugo Suckman, crítico da Positif, alega que Glauber Rocha é um modelo de homem cordial. Eram amigos, mas ele passou a não gostar dos filmes do diretor a partir de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, lançado em 1969. Então, Glauber Rocha deixou de falar com ele e se irritou porque o crítico deixou de gostar dos seus filmes. Outro diretor que reforça essas observações do homem cordial na crítica brasileira é Jorge Furtado, diretor de Ilha das Flores. Ele diz que prefere não escrever algo ou falar a verdade quando o filme é ruim, pois muitos dos seus colegas não estão preparados para as críticas negativas oriundas de amigos ou parceiros de trabalho.

A crítica de cinema na internet é outro ponto explorado no documentário, porém, em menor intensidade, mas nos ajuda a pensar que atualmente, a maior parte da produção crítica está situada na esfera virtual, através de sites especializados ou blogs pessoais. Concomitantemente, temos uma imensidão de cinéfilos e jornalistas amadores publicando cotidianamente críticas de cinema. Diante disso, surge a seguinte indagação: nesse processo que gera um novo tipo de cosmopolitismo na internet, os novos críticos podem realmente falar?

Na internet, os cinéfilos assinam listas de discussão, debatem em fóruns, e leem críticas em agregadores, sites que recolhem certo número de reflexões de determinado filme e o listam em sua página, possibilitando um filtro das críticas na internet e direcionando o leitor para as mesmas. Também na internet, constroem blogs, baixam filmes e até produzem legendas para filmes estrangeiros, muitas vezes, com qualidade superior aos materiais oficiais, mesmo que a atividade seja ilegal. Somados aos blogs, existem as plataformas de vídeos, como o You Tube, e o WordPress, ferramenta gratuita para a criação e desenvolvimento de sites.

De acordo com o documentário, a crítica na internet não é algo visto com positividade. Durante o intervalo entre dois depoimentos sobre a questão, o filme estampa um papel de jornal embrulhando um peixe, numa espécie de reflexão ampla sobre o status da crítica de cinema na contemporaneidade, com a sua possível perda de qualidade e distanciamento das funções lhe foram atribuídas ao longo do seu desenvolvimento. Em um depoimento, a esfera virtual é considerada a culpada pelo desprestígio do crítico de cinema, profissionais anteriormente encastelados nas muralhas de um reino com acesso bastante restrito.

Fernanda Torres é a responsável por trazer um brilhante relato logo nos primeiros minutos do documentário: para a atriz, uma das coisas que a curou para a recepção da crítica é a expressão “toda crítica é uma autobiografia”. Populariza pelo escritor Oscar Wilde, essa “máxima” reflete uma das questões mais importantes do campo da crítica: a subjetividade.

Quando um crítico escreve sobre um filme, não há como deixar a imparcialidade de lado. Isso não é um problema até quando o texto começa a apontar as coisas que faltaram em uma produção. Discussão estéril, essa busca do filme ideal nada mais é que autobiográfica. É um crítico buscando o filme que ele deseja, diferente da postura esperada de um intelectual discutindo o material exibido diante de si.

Dentre outros relatos importantes, temos a abordagem ligeira do amadorismo do profissional de cinema e da crítica ligeira, traço da contemporaneidade. O cineasta Bertrand Bonello alega ter sido a crítica a grande responsável parte da sua formação, pois sequer adentrou numa universidade para se tornar um profissional da indústria cinematográfica, desvelando a questão do amadorismo que rege, em muitos casos, o campo da realização e o da crítica. Um momento denúncia igualmente interessante está nos relatos que reclamam as opiniões levianas, apressadas e dinâmicas que só prejudicam o debate no terreno da crítica: as caricaturas dos polegares para cima e para baixo, os bonequinhos caricatos do Jornal O Globo, bem como as estrelas que estampam o cabeçalho de jornalismo cultural contemporâneo. Para ilustrar, o diretor apresenta a saída da plateia após uma sessão no Festival de Cannes. Para ganhar a exclusividade, alguns veículos, como a italiana Variety, por exemplo, dão apenas duas horas para o crítico escrever a sua reflexão e enviar para a publicação.

Sendo assim, no âmbito temático, o documentário é uma curiosa abordagem desse campo da indústria cinematográfica dual: ao passo que fascina alguns, provocam repulsa em outros. Na seara narrativa, um dos aspectos mais importantes desse processo de reflexão da crítica está na montagem do documentário. Obviamente, a montagem é um processo importante para qualquer produção audiovisual, porém, em alguns filmes, esta melhor expressa os valores narrativos do roteiro, reforçando o caráter reflexivo do tema abordado. São produções preocupadas não apenas com o entretenimento ou na simples informação, mas também em apostar num jogo narrativo didático e sofisticado. Crítico é um desses casos.

Apesar de ser um pouco dispersivo, o documentário é uma excelente reflexão sobre alguns aspectos pontuais que engendram a crítica cinematográfica. Kleber Mendonça Filho nos oferece um registro audiovisual que atende aos curiosos, aos novos críticos, aos profissionais já renomados no campo da crítica, aos interessados em cinema de uma maneira geral e ainda se estabelece como um curso intensivo de crítica, haja vista a sua exposição que passeia entre o passado e o presente, sem deixar de estabelecer um liame com as possibilidades para o futuro deste gênero discursivo.

Crítico (Alemanha, Brasil, Estados Unidos, França e Itália- 2008)
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Bertrand Bonello, Babak Payami, Claudio Assis, Curtis Hanson, Fernanda Torres, Jerôme Garcin, João Moreira Salles, Marcelo Gomes, Michel Ciment, Ruy Gardnier, Samuel L Jackson, Sergio Bianchi
Duração: 70 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.