Crítica | “Cronópio?” – Irmão Victor

Para Irmão Victor, ou Marco Benvegnù para os mais íntimos, a interrogação ao final do título de Cornópio?, novo trabalho do projeto musical idealizado pelo artista de Passo Fundo, indica claramente um auto-questionamento sobre o significado do trabalho, em especial após Marco ter deixado claro em entrevistas que o termo, que simboliza uma noção criada pelo escritor argentino Julio Cortázar, representa também a análise de si próprio como artista e o assumir dessa posição. Depois das experimentações que marcaram Passos Simples para Transformar Gelatina em um Monstro, Irmão Victor entrega a sua musicalidade mais complexa até aqui.

E se eu fosse um barquinho
Todo fudido
Você caminharia
Nas minhas tábuas?

De melodias psicodélicas provocativas e composições que parecem emoldurar uma persona a cada faixa, Irmão Victor adota essa personalidade bilíngue que passeia entre o português, o italiano, o inglês e até o francês para emoldurar essa colcha de composições desafiadoras em nuances, donas de uma sonoridade que variam entre os batuques africanos de Os Garçons ou as guitarras lúdicas de Senza Far Niente, numa construção bastante consciente e igualmente perceptiva do trabalho.

E assim, Cronópio se assume como essa viagem mágica e maluca de um desvendamento pessoal, onde Benvegnù separa em fragmentos a sua própria formação, como nas alusões ao Popeye de Reflexões Navais, a instrumentalmente manipulativa Marco Antônio vs. Os Principes da Disney, numa referência aos idealismos e ingenuidades que a palavra Cornópio se faz significativa.

Imaginativo, Cronópio? é daqueles álbuns para ser absorvido com o ouvinte mergulhado em percepções sonhadoras, uma vez que a recusa ao óbvio proposta pelas canções evidenciam um artista que se faz do que lhe é íntimo para se levar para fora de si, convertendo questionamentos em música.

Aumenta: Insônia e Rinite Alérgica
Diminui: All I Wanna Do Is Sit Down and Cry

Cronópio?
Artista: Irmão Victor
País: Brasil
Lançamento: 4 de janeiro de 2018
Gravadora: Chupa Manga Recs.
Estilo: Pop psicodélico

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.