Crítica | Cronos (1993)

Guillermo del Toro é um artista antes de ser apenas um diretor. Seu trabalho nos bastidores das produções que encabeça é intenso muito antes do primeiro fotograma ser capturado, já que o cineasta tem uma cabeça efervescente de ideias que ele gosta de colocar no papel com uma destreza rara de se ver e um detalhismo ainda maior. Cada uma das obras que ele dirigiu carrega essa sua marca criativa e Cronos, seu primeiro longa, não é uma exceção.

Aliás, o filme mexicano de 1993 é, para todos os efeitos, o embrião que cresceria e floresceria, gerando, alguns anos depois, Mutação, seu primeiro trabalho hollywoodiano, além dos festejados dois Hellboy e, claro, o inebriante O Labirinto do Fauno. Em Cronos, que ele também escreveu, outra marca sua, aliás, a história, que lida sobre a imortalidade e seu preço, é tão ambiciosa quanto intimista, quase que uma versão sem glamour que lembra a do clássico oitentista Highlander.

Del Toro, sem perder tempo, apresenta-nos a um MacGuffin na forma de um objeto inventado por um alquimista em Veracruz, no México, no século XVI, que, no presente, acaba na posse de Jesús Gris (Federico Luppi), dono de antiquário, quando ele o acha escondido em uma escultura barroca angelical. Sem saber para que serve o estranho aparelho dourado e oval, ele dá início a um processo que tende a levá-lo à imortalidade, sendo, ato contínuo, perseguido por Dieter de la Guardia (Claudio Brook), um milionário moribundo que cobiça o objeto há anos e que atua por intermédio de seu sobrinho e capanga Angel (Ron Pearlman). Acompanhado de sua neta, a pequena e silenciosa Aurora (Tamara Shanath), Jesús tem que lidar com as transformações físicas por que passa, ao mesmo tempo que com as investidas cada vez mais violentas de Angel.

Enquanto Cronos mantém-se certeiro em sua pegada gótica e sombria, por vezes bizarra, com o sangue humano cada vez mais tornando-se a chave para a imortalidade, a projeção vai muito bem. O quid pro quo relutante de Jesús é fascinante, ao mesmo tempo que repugnante; curioso, ao mesmo tempo que nojento e belo, ao mesmo tempo que fatal. Del Toro constrói e desconstrói visualmente seu universo bem particular, revelando aos poucos a natureza do objeto tão desejado pelo protagonista e seus opositores, segredo (mas não tanto, na verdade) esse que, aliás, seria explorado de forma mais aberta em Mutação, quase como se seu filme seguinte se passasse neste mesmo construto da mente do diretor.

No entanto, na medida em que a narrativa avança, o passo da fita torna-se razoavelmente mais banal, corriqueiro, não muito mais do que uma história de “perseguição” em que cada novo conflito entre os dois lados desta mesma moeda eleva o sarrafo da violência e do gore. Não é de forma alguma algo que estrague Cronos, pois sua razoavelmente modesta duração força uma narrativa que não dá descanso ao espectador, com o diretor trabalhando bem na decupagem, o que leva a uma montagem bem cadenciada por Raúl Dávalos. Além disso, a fotografia de Guillermo Navarro faz bom uso de tomadas noturnas, com uma paleta de cores em um crescendo de azul hospitalar, o que empresta uma atmosfera doentia e decadente à obra, exatamente como sua premissa pede. E o mesmo vale para a trilha sonora de Javier Álvarez, que consegue bem capturar a natureza gótica putrefata da progressão narrativa, mantendo o suspense apesar da trivialidade dos momentos que marcam o terço final da história.

O que quer parecer, diria, é que faltou ambição ao diretor, ou melhor, ele parece ter entendido que o caminho mais metafísico que arrisca tomar não seria palatável por completo, fazendo-o com que segurasse as rédeas do roteiro e dos arroubos visuais para algo mais comercial, que não parece ter sido a intenção inicial, quando ainda nos primeiros estágios de desenvolvimento de Cronos. Mas que ninguém se engane: o filme sem dúvida funciona carregado pelo inusitado, pelas boas interpretações do elenco (é curioso ver Pearlman, por exemplo, em um papel que lembra muito seu submisso Salvatore em O Nome da Rosa) e, claro, pelo visual intrigante e envolvente que Del Toro imprime já em seu début nos cinemas.

Cronos é como um mapa do tesouro, que marca com um X o nome de Del Toro como um grande artista visual que passou a se dedicar à Sétima Arte. Pode não figurar entre os melhores de sua ainda curta filmografia, mas seu DNA está ali, bem presente e pulsante.

Cronos (Idem, México – 1993)
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro
Elenco: Federico Luppi, Ron Perlman, Claudio Brook, Margarita Isabel, Tamara, Shanath, Daniel Giménez Cacho, Marion Iván Martínez, Farnesio de Bernal, Juan Carlos Colombo, Jorge Martinez de Hoyos, Luis Rodríguez, Javier Álvarez, Gerardo Moscoso
Duração: 94 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.