Crítica | Crossroads – Amigas Para Sempre

estrelas 1,5

Se você não levar o argumento muito a sério, acredito que poderá tirar algum proveito desta comédia romântica road-movie, produzida na época em que Britney Spears estava no auge e quase não tinha concorrentes ao posto de musa do pop. Do pôster ao filme, percebe-se que a intenção maior é agradar aos fãs da artista, aos interessados em comédias românticas rasas como um pires ou pessoas pouco exigentes em termos substanciais cinematograficamente.

Garota de sorte, Britney Spears estreou a sua produção numa época em que Madonna havia lançado um dos piores trabalhos de toda a sua carreira, Destino Insólito, além do retumbante fracasso de Mariah Carey no ano anterior, com o desastroso Glitter – O Brilho de Uma Estrela. Resumo da ópera pop: cantoras no cinema estavam em alta, mesmo que tenham sido alçadas em apostas para caírem vertiginosamente depois, como os exemplos de Madonna e Mariah. Diante do panorama, Britney também teve a sua participação. O filme, como esperado, despertaria a ira dos críticos e o alvoroço dos fãs.

Britney rabiscou o argumento e como queria mais ou menos a história. É quando entra o roteiro de Shonda Rhimes, a criadora de séries bastante populares, tais como Grey’s Anatomy e How To Get Away With a Murder. No filme, Rhimes traz como foco as amigas de infância Lucy (Britney Spears), Kit (Zoe Saldana) e Mimi (Taryn Manning). Elas estavam afastadas durante sete anos, mas no dia da formatura, inconformadas diante de suas perspectivas, decidem seguir rumo ao sul até chegar a Califórnia, pois esperam reestabelecer a amizade de anteriormente, experimentar novas experiências e participar de uma seleção musical (óbvio). De forma romântica, o filme começa apresentando-as numa praia, enterrando os seus sonhos numa caixa, que provavelmente será reaberta anos depois.

Elas possuem pouco dinheiro, mas muitos sonhos. Pegam carona com um atraente, mas misterioso rapaz chamado Ben (Anson Mount). Ele é recém-saído da prisão e vai ocasionar algumas cenas constrangedoras com as garotas, assustando-as, antes, claro, de tirar a virgindade da personagem de Britney Spears. Ainda há neste pacote Henry (Justin Long), primeiro paquera da mocinha, responsável pela tentativa de primeira vez que não dá certo; o pai de Lucy interpretado por Dan Aykroyd e a maravilhosa Kim Catrall, de Sex And The City, como a mãe que rejeita a filha e a família, provavelmente poupando para o equivalente às futuras reformas previdenciárias, afinal, só as economias justificam a sua participação neste filme.

Tamra Davis, cineasta responsável por assinar o projeto, não pode fazer muita coisa com o roteiro oferecido para encenação. São 94 minutos de bobagens adolescentes e superficialidade para tratar temas como a virgindade, gravidez na adolescência, conflitos familiares e afins. A montagem de Melissa Kent consegue emular o estilo videoclipe em alguns trechos animados, dando ênfase ao suporte que melhor comporta o talento de Britney Spears, já que na voz e no desempenho dramatúrgico, a coisa não é fácil de ajustar.

Por sinal, apesar de ter sido criticada e indicada ao Framboesa de Ouro da cerimônia do ano de seu lançamento, Britney Spears consegue alcançar alguns níveis mais apurados que as gerações que passam em Malhação, programa televisivo global que dispensa apresentações, por anos a fio, não conseguem chegar. Talvez a garota conseguisse maior reconhecimento se tivesse feito minicursos de roteiro e personagem, produzido em oficinas de atores, tendo em vista ser atriz, ao invés de cantora. Resumindo: como cantora, Britney Spears é uma ótima atriz, mas isso é uma obviedade e não devemos ser tão rudes com a garota. Ela se esforçou. Uma pena que o filme é brando demais, raso que nem um pires e feito de qualquer jeito.

Filmado e produzido em seis meses, Crossroads – Amigas Para Sempre flerta com uma soft Britney, bem comportada na maioria dos trechos, mesmo que apareça de calcinha dublando Open Your Heart, uma das mais famosas canções de Madonna, ao acordar antes de ir para a formatura. Ambientado na Geórgia, com produção da MTV Filmes, a comédia romântica foi considera por alguns críticos como “um projeto de vaidade de estrela pop, clichê e bobo”. Estreou num evento em Cannes e já saiu de lá malfadado a ser detonado pelos especialistas, mas consumido à exaustão pelos apaixonados pela pequena diva do pop.

Crossroads – Amigas Para Sempre (Crossroads) — Estados Unidos, 2002
Direção: Tamra Davis
Roteiro: Shonda Rhimes
Elenco: Anson Mount, Brandon Henschel, Britney Spears, Dan Aykroyd, Justin Long, Kim Cattrall, Kyle Davis, Raymond Young, Richard Voll, Shonda Farr, Taryn Manning, Zoe Saldana
Duração: 94 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.