Crítica | Crown Heights

Distribuído pela Amazon StudiosCrown Heights é um daqueles filmes que levam o espectador a odiar a atual realidade na qual vivemos, enquanto que explicita as muitas falhas do sistema penal e carcerário americanos, que, evidentemente, também se aplicam ao nosso. Trata-se de um longa-metragem assustador, de função narrativa bem definida, que, apesar de seus deslizes, demonstra o poder de uma boa história e o próprio talento do diretor, Matt Ruskin.

Baseado em fatos, o longa nos conta a história de Colin Warner (Lakeith Stanfield), morador de Crown Heights, no Brooklyn, que é preso por um assassinato que ele não cometeu. A partir daí, a obra foca tanto na vida de Colin dentro da prisão, quanto nas tentativas de seu melhor amigo, Carl “KC” King (Nnamdi Asomugha), de inocentá-lo. Em uma sociedade que não abre espaço para que a verdade seja escutada, especialmente no caso de cidadãos negros, essas tentativas falham uma após a outra, desmotivando Warner, conforme os anos passam. Seu amigo, porém, jamais desiste dessa missão de libertar Colin.

O mais aterrador de Crown Heights é como todo o caso desse assassinato foi claramente deturpado a fim de conseguir o rápido encarceramento do suposto culpado. Esse aspecto, claro, é possibilitado pelo foco do roteiro, que mostra tudo pelo ponto de vista tanto de Colin quanto de KC, de tal maneira que sabemos, sem a  menor sombra de dúvidas, que o protagonista é inocente. É interessante notar como o texto, do próprio Ruskin, que também assina a direção, não busca retratar seu personagem central de forma idealizada – ele não é uma pessoa violenta, mas está longe de ser perfeito, como é mostrado em uma das cenas iniciais, na qual ele rouba um carro, ou quando ele entra em uma briga na prisão.

O foco aqui não está na impunidade e sim nas falhas do sistema, que faz pessoas pagarem por crimes que jamais cometeram, enquanto outros, verdadeiros culpados, são deixados livres. Por vezes também enxergamos como de “correcional” essas instituições não tem nada, visto que a corrupção já se alastrara por elas completamente. Mesmo com tais aspectos em mente, vem como surpresa o tom otimista da obra, que, sim, gera certo sentimento de raiva no espectador, mas estimula a luta para que tais absurdos sejam corrigidos e não se repitam. Esse não é um filme para simplesmente mostrar o que há de errado, é um chamado para que estejamos atentos a tais situações.

Não podemos confundir, porém, otimismo com utópico – Crown Heights mais do que exibe as dificuldades de nos livrarmos dessas condenações indevidas, ponto explicitado pelos rápidos inserts de discursos de políticos, que buscam não resolver a raiz do problema e sim trabalhar em cima das consequências da desigualdade social. Na mesma linha, vemos as autoridades responsáveis fazendo pouco caso da situação de Colin, apenas mudando suas ações quando a mídia passa a se envolver – em outras palavras: se o povo não sabe, qual o problema?

O roteiro de Ruskin, contudo, não é ausente de problemas, como podemos ver pela sua estrutura fragmentada, incapaz de manter um ritmo fluido por toda a projeção. Com cartelas aparecendo ocasionalmente, a fim de mostrar há quantos anos Warner está na cadeia, o longa acaba criando uma narrativa episódica, que pode cansar o espectador. Não ajuda, também, a falta de cuidado em relação à caracterização de Colin, cuja aparência permanece basicamente a mesma durante todo o filme, mesmo com vinte anos de diferença entre o início e o fim do longa, aspecto que quebra a verossimilhança e até desvaloriza o belo trabalho de atuação de Lakeith Stanfield, que encarna seu personagem de maneira crível e tocante.

Tais aspectos, porém, não prejudica nosso aproveitamento de Crown Heights, filme que consegue nos envolver do início ao fim, mesmo com sua narrativa fragmentada. Trazendo à tona todos os problemas dos sistemas judiciário e penitenciário, esse longa, distribuído pela Amazon Studios, certamente merece ser assistido, provando o quanto nossa sociedade precisa mudar antes que a real justiça possa ser alcançada.

Crown Heights — EUA, 2017
Direção:
 Matt Ruskin
Roteiro: Matt Ruskin
Elenco: Lakeith Stanfield, Nnamdi Asomugha, Natalie Paul,  Adriane Lenox, Marsha Stephanie Blake, Zach Grenier, Josh Pais
Duração: 94 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.