Crítica | Cry Wolf – O Jogo da Mentira

estrelas 2

Quando Cry Wolf – O Jogo da Mentira estreou, o público já estava saturado de tramas sobre assassinos mascarados que buscam vingança por alguma injustiça do passado. Pânico já havia feito isso muito bem ao longo de três episódios e os plágios chegaram a um ponto absurdo que até mesmo um esbarro no corredor se tornou mote para que o vingador mascarado retornasse não apenas para ajuste de contas com a pessoa, mas para levar também seus amigos, familiares, cachorros e afins.

Com uma proposta aparentemente diferenciada, conectada com elementos da cibercultura para estabelecimento do conflito, Cry Wolf – O Jogo da Mentira nos envolve numa série de confusões para que possamos sair da obviedade, mas ao invés de redirecionar o olhar e oxigenar o gênero, o filme transforma tudo num pequeno espetáculo de tédio e pretensão.

Com direção de Jeff Wadlow e Beau Bauman, a produção toma de empréstimo (eufemismo para plágio) itens dramatúrgicos de Garotas Selvagens e A Noite das Brincadeiras Mortais. No filme conhecemos um grupo de estudantes de uma instituição alocada num ambiente distante dos grandes centros urbanos, com zonas arbóreas e clima interiorano, espaço ideal para os maníacos cinematográficos, não é verdade?

Por conta do assassinato de uma garota e do tédio que gravita em torno de seus respectivos cotidianos, os jovens decidem criar um serial killer para sair do marasmo. Para isso, reúnem-se no intuito de compor as características do “monstro”: intitulam a figura de “lobo”, detalham que já fez várias vítimas ao redor dos Estados Unidos, com foco em estudantes de outras instituições, tendo com detalhe mais específico atacar em “noite de lua cheia”, isto é, um psicopata que segue os manuais ritualísticos comuns aos perfis dos assassinos em série.

Para que o boato ganhe voz, eles transmitem as informações por e-mail, tendo em mira o amplo alcance do maior número de pessoas. Temos, então, o que conhecemos como uma versão do que se convencionou chamar de lenda urbana, desta vez, nascida do campo da cibercultura, espaço ideal para este tipo de informação flamejante. Na terra de ninguém que é a internet, o boato se espalha e ganha maiores proporções do que o imaginado.

O que acontece adiante? O psicopata criado pelos jovens parece ter ganhado vida e está eliminando os participantes da brincadeira, um a um, através de mortes criativas e sangrentas. É neste processo que um pouco intrigante jogo do “parece, mas não é” se firma, com a famosa estratégia whodunit, comum ao subgênero slasher: quem é o assassino? Por qual motivo ele mata as pessoas? Quem será o próximo? Ele é real ou não? Será uma brincadeira?

Com uma ideia tão interessante, por qual motivo o filme não deu certo? A resposta não é muito complicada: ao tentar estabelecer uma narrativa que fica entre a lógica comercial e o clima de filme do circuito de “arte”, a trama perde impacto, pois não consegue dialogar com ambas as possibilidades. Com algumas subtramas que dispersam e um roteiro com diálogos pouco convincentes, Cry Wolf – O Jogo da Mentira é um daqueles filmes que “tinham tudo para ser”, mas não é.

O cantor Jon Bon Jovi faz uma participação razoável como um professor sexy que parece atrair as alunas para si, não apenas pelo seu charme, mas também por conta da sua astúcia como professor de jornalismo. Mediano dramaturgicamente, o artista consegue ser melhor que os personagens tipificados do filme, colocados para soar como ironia, mas que acabam se tornando mera hipérbole: a mocinha sexy, o bom rapaz arrependido dos seus erros do passado, o atleta de corpo atraente e intelecto limitado, o agressivo que adora fazer sexo, a garota peituda e pouco racional, a lésbica que ganha notoriedade numa tentativa tola de incluir um elemento de gênero que não faz diferença para os seus próprios diálogos.

Com 95 minutos, a trama ainda possui duas referências que mesclam o plágio e a homenagem: há uma cena em que a personagem conversa com o namorado e ao enviar uma foto durante o banho, permite que este veja, atrás dela, a aproximação do psicopata misterioso. Um bom argumento, não é mesmo? A cena final, espécie de plot twist sugado do instigante Os Suspeitos, é similar ao filme referenciado não apenas na situação descrita pelos diálogos, mas no que tange aos aspectos da montagem e dos enquadramentos. Alguns críticos, na época, apontaram como plágio, mas como na pós-modernidade os conceitos se transformam, digamos que seja metalinguagem, mas não das boas, como Wes Craven fazia magicamente. Estamos falando da referência frágil e pouco criativa, no caso da primeira, ao japonês Uma Chamada Perdida, e do segundo, ao atordoante suspense com Kevin Spacey.

Cry Wolf – O Jogo da Mentira (Cry Wolf) — Estados Unidos, 2005
Direção: Jeff Wadlow
Roteiro: Beau Bauman, Jeff Wadlow
Elenco: Jared Padalecki, Jon Bon Jovi, Julian Morris, Lindy Booth,  Jesse Janzen, Paul James, Sandra McCoy
Duração: 90 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.