Crítica | Cujo

estrelas 4

Baseado no 10º romance de Stephen King, publicado em 1981 e escrito durante uma época em que o autor estava mergulhado em drogas e álcool a ponto dele sequer lembrar-se claramente de ter feito o livro, Cujo é de uma simplicidade enervante: uma mulher e seu filho pequeno ficam ilhados dentro de um Ford Pinto, com um enorme cão raivoso da raça São Bernardo à espreita, pronto para trucidá-los. E é a simplicidade, acompanhada de um realismo impressionante, que marcam esta produção de baixo orçamento de 1983 que teve modesto sucesso na bilheteria, mas que angariou uma aura cult ao longo dos anos.

Se fosse feito hoje, o filme teria um cão gerado em computação gráfica que, por melhor que fosse, gritaria para a plateia que é falso e potencialmente detrairia do resultado final. Usando vários São Bernardos treinados – cada um em uma “especialidade -, além de Rotweillers (para os momentos em que era necessário uma versão mais “malvada” do simpático cachorrão), um rosto animatrônico e o obrigatório dublê fantasiado, o filme dirigido por Lewis Teague, que só viria a se formar em sua profissão em 2016, aos 78 anos(!!!), é um primor de genuína aflição e tensão que, mal comparando, poderia ser a versão terrestre de Tubarão

O roteiro de Don Carlos Dunaway e Lauren Currier, com carreiras quase que exclusivamente na televisão, sofreu grande influência direta do próprio King que, porém, acabou recusando os créditos ao final. E o que chama atenção é como a estrutura de queima lenta funciona bem, primeiro com uma prólogo bucólico com um coelhinho no campo sendo perseguido por Cujo até que o cachorro é mordido por um morcego, que lhe transmite raiva. Vagarosamente, o animal involui para um estado primal que – temos que aceitar – passa despercebido por seu dono, o mecânico Joe Camber (Ed Lauter), seu filho Brett (Billy Jacoby) e sua esposa Charity (Kaiulani Lee).

Em uma montagem intercalada, somos apresentados ao que parece ser a perfeita vida da família Trenton, com o menino Tad (Danny Pintauro) tendo constantes pesadelos com monstros no armário e embaixo da cama, seu pai Vic (Daniel Hugh-Kelly) pacientemente acalmando-o e afirmando categoricamente que monstros não existem e, finalmente, sua mãe Donna (Dee Wallace), que secretamente tem um caso com o amigo da família Steve Kemp (Christopher Stone). Sem pressa, uma série de peças de dominó começam a cair, culminando com a situação descrita no primeiro parágrafo que leva Donna e o pequeno e completamente aterrorizado Tad ao limite da resistência física presos em um carro escaldante cercado por um enlouquecido e cão.

Se o cão é sem dúvida a grande estrela, com feições cada vez mais sinistras graças à um excelente trabalho de maquiagem e sequências aterrorizantes e de deixar o espectador roendo as unhas imaginando-se em situação semelhante, Dee Wallace é o destaque do lado humano. Sua atuação lembra muito a de Shelley Duvall em O Iluminado, mas de uma forma talvez mais urgente e gutural, criando uma atmosfera corrida e claustrofóbica que não deixa a peteca cair em momento algum quando a situação principal se estabelece.

A câmera de Lewis Teague é mantida em ângulos baixos, muitas vezes fazendo as vezes do próprio animal, o que nos coloca diretamente em meio à ação repleta de sangue, baba e gosmas de todos os tipos, mas de forma muito realista, sem exageros gore ou dilacerações explícitas. A restrição orçamentária exigiu criatividade, o que ajudou o diretor a construir imagens angustiantes que Wallace e também o pequeno Pintauro (com trocadilho…) tiram de letra ao traduzirem em suas feições aterrorizantes o pavor palpável colocado na tela. E isso sem sustos fáceis e bobos, sem trilha sonora que antecipa eventos e sem recorrer a tomadas com pouca luz ou de outra forma escurecidas.

Muito pelo contrário, a fotografia de Jan de Bont, que nos anos 90 viria a dirigir os dois Velocidade Máxima e Twister não tenta esconder nada. A estratégica localização do carro de Donna, tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe de tudo, permite que a câmera seja trabalhada em planos abertos e fechados, manipulando a impressão de distância e sempre mantendo o campo de visão da protagonista visível, claro e por isso mesmo perigoso e assustador. Se Tad tem medo do que pode sair de seu armário à noite, é porque ele não faz ideia do quão mais aterrorizante é o terreno desimpedido em frente à uma pacata casa no interior.

Stephen King é mestre em transformar o mundano em agoniante, o simples em aterrador e o normal em doentio. Cujo é um pequeno e direto filme que muito bem captura a frugalidade da ideia do autor e coloca o espectador em meio ao inesperado e ao mortal.

Cujo (Idem, EUA – 1983)
Direção: Lewis Teague
Roteiro: Don Carlos Dunaway, Lauren Currier (baseado no romance Cujo, de Stephen King)
Elenco: Dee Wallace, Danny Pintauro, Daniel Hugh Kelly, Christopher Stone, Ed Lauter, Kaiulani Lee, Billy Jayne, Billy Jayne, Mills Watson, Sandy Ward, Jerry Hardin, Merritt Olsen, Arthur Rosenberg, Terry Donovan-Smith
Duração: 93 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.