Crítica | Curtas da Disney – Propaganda na 2ª Guerra Mundial (1941-1942)

“I Want You For U.S. Army!”, dizia o Tio Sam. Walt Disney viu a oportunidade e uniu o útil ao agradável. Todos nós conhecemos as duas produções que os estúdios Disney realizaram sob a ótica da Política da Boa Vizinhança, agradando os vizinhos da América do Sul, criando laços para uma união fortificada com as forças aliadas: Alô, Amigos e Você Já Foi à Bahia?. A produção de animações, após o fracasso financeiro de Pinóquio e Fantasia – que apenas conseguiriam retorno e sucesso nesse sentido com relançamentos -, precisava encontrar um porto-seguro, ainda mais com a Segunda Guerra Mundial, que devastava a Europa e impedia, cada vez mais, a entrada da empresa no continente. A solução, portanto, era produzir curtas animados financiados pelo próprio governo norte-americano ou por quem mais que quisesse o Pato Donald, figura central dessa brincadeira toda, defendendo uma respectiva ideia ou as forças armadas de uma nação.

O texto a seguir lida com a crítica de cinco produções voltadas à propaganda, todas lançadas nos anos de 1941 e 1942, interessadas em converter os consumidores, provocar certos pensamentos e fomentar algumas atitudes específicas.

The Thrifty Pig (1941)

Quando o curta-metragem The Thrifty Pig estava sendo produzido, a base norte-americana de Pearl Harbor ainda não havia sido atacada pelos japoneses, gatilho para a entrada, de vez, dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Isso, contudo, não significou que Walt Disney e o seu estúdio de animação estavam distantes do conflito, visto que, em muitos dos acordos afirmados com diversos representes de diferentes nações, com o intuito do produtor sustentar todo o seu negócio financeiramente, através de produções direcionadas à guerra, um destes era justamente um contrato solicitando a criações de quatro desenhos animados para o governo canadense, entendidos como uma maneira do público das respectivas animações comprar títulos de guerra, investindo, dessa forma, na guerra.

O primeiro resultado, porém, é extremamente preguiçoso – o que não significa que os demais, criticados a seguir, não são, pois, mesmo pontualmente especiais e particulares, a preguiça é um problema. Os canadenses devem ter pago um salgado e uma limonada para Walt Disney fabricar essas porcarias. O clássico curta-metragem Os Três Porquinhos, de 1933, um dos maiores da história das animações, era reciclado, na cara dura, e transformado, portanto, em uma propaganda, tanto anti-nazista quanto dos títulos de guerra. Os tijolos, ao invés de serem meros tijolos, capazes de se sustentarem ao sopro do Lobo Mau, agora um represente óbvio dos nazistas, tornam-se tijolos revestidos de títulos de guerra. A história, porém, é encurtada, com notificações gigantescas aparecendo na tela, mas, ao menos, mostrando uma honestidade por parte da animação.

Ford Beebe, diretor do curta-metragem, não altera nada em relação a história original, seguindo as mesmas batidas de uma narrativa conhecida mundialmente, mas que, aqui, fica consideravelmente datada, pois a guerra não duraria mais que 4 anos. A canção Quem Tem Medo do Lobo Mau?, originalmente Who’s Afraid of the Big Bad Wolf?, contudo, encaixa-se como uma luva na histeria coletiva contrária aos demônios do nazismo, transformados em vilões sem nem ao menos Beebe precisar dos animadores comentando e pontuando sobre o Holocausto e as invasões indiscriminadas, em um plano megalomaníaco de domínio mundial. O medo em relação ao nazismo, ao fascismo e, principalmente, ao grande Lobo Mau, Adolf Hitler, possui raízes muito mais profundas na mentalidade mundial do que podemos pensar, até mesmo na mentalidade de crianças.

The Thrifty Pig – EUA, 1941
Direção: Ford Beebe
Roteiro: Cenas do curta Os Três Porquinhos, de 1933
Elenco: Billy Bletcher, Pinto Colvig, Mary Moder
Duração: 4 min.

7 Wise Dwarfs (1941)

A história de The Thrifty Pig era a mesma contada no curta-metragem original, com mudanças meramente estéticas. Já a de Seven Wise Dwarfs, reciclando material do pioneiro longa-metragem animado Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937, é completamente nova, com um início, meio e fim inéditos no contexto, embora sejam os mesmos visualmente. No enredo simplérrimo, os icônicos personagens do clássico colhem o fruto de um dia de mineração e trocam-o por grandes quantidades de títulos de guerra. Certas cenas são reutilizadas e outras são fresquinhas.

A direção até mesmo decide mudar o cenário, adicionando uma cidade, completamente destoante da ambientação espaço-temporal dos anões. Porém, a decisão de Beebe, com Richard Lyford ao seu lado, funciona, ainda mais com a mudança na letra de Heigh-Oh, alterando completamente o significado do que os anões estão fazendo. A manipulação sacana de uma propaganda, por outro lado, começa, aqui, logo pelo título, adicionando o adjetivo wise – sábio – aos sete anões, potencialmente relacionando os personagens com aqueles que comprarem títulos de guerra.

7 Wise Dwarfs – EUA, 1941
Direção: Ford Beebe, Richard Lyford
Roteiro: Cenas do filme Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937
Elenco: Pinto Colvig
Duração: 4 min.

Donald’s Decision (1942)

A grande sacada de Donald’s Decision é não ser a reutilização de uma única peça original, mas de duas – Donald’s Better Self e Self Control, ambas de 1938 -, criando, dessa forma, agora sim, uma história completamente nova e, das quatro desse conjunto, a que mais entretém ainda nos dias de hoje, combinando tudo com a proposta de propaganda, oriunda do contrato firmado entre o governo canadense e os Walt Disney Estúdios.

A disputa entre o anjo e o demônio, surgindo de uma suástica bem óbvia, é bastante divertida, enquanto o Pato Donald (Clarence Nash) – na sua primeira, mas não única participação nesse texto, visto que o personagem tornar-se-ia o grande símbolo desse encontro da Disney com a propaganda – fica no meio do conflito todo: comprar títulos de guerra ou não comprar, eis a questão.

Donald’s Decision – EUA, 1942
Direção: Ford Beebe
Roteiro: Cenas dos curtas Donald’s Better Self e Self Control, ambos de 1938
Elenco: Clarence Nash, Thelma Boardman
Duração: 3 min.

All Together (1942)

All Together é um curta-metragem especial, ao mesmo tempo que é indiferenciado da preguiça dos demais, igualmente barato e empobrecido. As cenas reutilizadas são dos curtas The Band Concert, de 1935, e Mickey’s Amateurs, de 1937 – o primeiro citado é o primeiro filme do Mickey Mouse colorido. O curioso é que All Together é o único curta-metragem desse naipe da Disney estrelado pelo camundongo falante, sugerindo uma proteção de Walt Disney com o símbolo maior do estúdio, enquanto Donald virava o grande garoto-propaganda da guerra.

Por outro lado, a união de tantas figuras famosas, personagens clássicos da Disney, como os dos longas Branca de Neve e os Sete Anões e Pinóquio, é interessantíssima, com as inúmeras figuras icônicas embalando uma passeata, marchando, enquanto aliados ao tom de propaganda que permeou os curtas citados, sem qualquer discrição na veiculação da mensagem. Gigantescas placas e faixas ostentam o que Disney e o Canadá querem. A honestidade, todavia, não salva a verborragia, cansando demais o espectador.

Aqui, a estratégia para convencimento, fundamental para a atração do futuro consumidor, é o martelamento na cabeça dele da ideia de que os espectadores devem comprar os benditos títulos de guerra, algo não tão intuitivo nesse caso, mais explícito, quanto a sagacidade mostrada nas histórias anteriores, as quais adequavam o discurso dentro da história. Em tempo, uma estratégia como essa seria um caso hostil de publicidade infantil – qual não é? -, mas, no final das contas, crianças não compram títulos de guerra.

Sob um outro ponto de vista, Walt Disney, dando a direção para Jack King, parece estar cansado desse contrato, decidindo, ao invés de esforçar-se para unir uma história com o discurso, deixar claro, logo de cara, o que eles querem. O término das obrigações, felizmente, daria margem a produções, mesmo ideologicamente interessadas em convencer, muito mais decentes, sendo que a maioria seria protagonizada por um personagem destinado à guerra: o Pato Donald.

All Together – EUA, 1942
Direção: Jack King
Roteiro: Cenas dos curtas The Band Concert, de 1935, e Mickey’s Amateurs, de 1937
Elenco: Walt Disney, Clarence Nash, Pinto Colvig
Duração: 3 min.

The New Spirit (1942)

“Impostos para derrotar o Eixo!”, brada o locutor da rádio, com a poderosa voz de Fred Shields. O novo espírito do americano é o espírito patriota, pagando os seus impostos o mais rápido possível e, com isso, financiando a guerra. The New Spirit é o curta-metragem que assegura o grande Pato Donald como figura central desse jogo de publicidade e propaganda, mas não seria a animação mais relevante com o personagem, nesse período em que ele ainda vestiria uma suástica no corpo – para não falar sobre as produções voltadas ao treinamento militar, como Commando Duck, as melhores dessa época. A animação, diferentemente das citadas anteriormente, é completamente inédita, tendo sido ordenada pelo Secretário do Tesouro na época, Henry Morgenthau Jr. Pelo visto, dessa vez, Walt Disney não fora pago com um salgado e uma limonada, com tinha acontecido com as vergonhas produções para o governo canadense, investindo, dessa vez, pesado em uma produção mais robusta.

A história começa com o despertar de Donald, literal e figurativo, pois o personagem também é informado, ao mesmo tempo que acorda, sobre a necessidade do pagamento de seus impostos, o mais rápido possível. Tudo isso é passado para o espectador de uma maneira super leve e cômica, mas que é, infelizmente, transformada em uma canção e uma coleção de imagens que dominam a tela, continuando com o discurso do locutor de rádio, mas apenas servindo para martelar a ideia na cabeça do espectador, diante de um espetáculo visual armamentista. A música é interessante, mas, a partir dela, Donald deixa de ser o personagem central da obra. A liberdade é algo que permeia o inflado discurso do radialista. A obra, porém, surtiu efeito necessário no espectador, que começou a pagar mais impostos no ano de lançamento do filme do que no anterior, porém, por alguma razão, a animação foi indicada a categoria de Melhor Documentário, como se o fato do público saber o salário do Pato Donald não fosse algo fictício.

The New Spirit – EUA, 1942
Direção: Wilfred Jackson, Ben Sharpsteen
Roteiro: Joe Grant, Dick Huemer
Elenco: Cliff Edwards, Clarence Nash, Fred Shields, The Sportsmen Quartet
Duração: 7 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.