Crítica | Curtas de Denis Villeneuve (1994 – 2011)

Denis Villeneuve começou sua carreira com o curta REW-FFWD, de 1994, que acabou proporcionando-lhe a chance de dirigir um segmento no longa Cosmos, dois anos depois. O diretor canadense, porém, continuou trabalhando esporadicamente em outros curtas, em um total de cinco até 2011, o último até o momento de publicação do presente artigo.

Que tal então visitarmos cada uma dessas pequenas obras de um dos diretores mais fascinantes da atualidade? A direção e roteiro são de Villeneuve, a não ser se for indicado diferentemente.

REW-FFWD
(Canadá, 1994)

É muito interessante assistir REW-FFWD depois de ver todos os filmes de Denis Villeneuve e conseguir sentir muito  claramente a gênese de todo seu trabalho que vem tomando Hollywood de assalto. Esse curta de pouco mais de meia hora (seu mais longo, aliás) foi feito quando ele tinha apenas 27 anos e uma pesquisa breve revelará que ele é classificado como documentário. Mas será que é mesmo?

O mero fato de eu fazer essa pergunta já mostra que Villeneuve não veio para fazer filmes fáceis, óbvios e de interpretação direta. Usando filmagens reais na Jamaica, seguindo fundamentalmente um homem chamado Mike, o diretor e roteirista parece lidar com um país novo em transformação, mas, ao inserir a narração de Lorne Brass como um repórter que é mandado para o país para fazer uma reportagem, começamos a duvidar exatamente da natureza documental da breve obra.

Usando os recursos do título (REW é a sigla de rewind, ou rebobinar e FFWD é a sigla de fast foward, ou avançar), o cineasta canadense quebra nossas expectativas, levando-nos para frente e para trás na história, com Brass já na Jamaica tentando entender o país e sua cultura e também em seu país de origem, “ouvindo falar” da Jamaica pela voz preconceituosa de seu chefe. Isso cria uma fascinante narrativa não-linear e também com narrador não-confiável que contrasta muito bem a impressão e a realidade, em um olhar humano tanto do repórter refazendo sua imagem externa de um país que desconhece quanto também a nossa, por tabela.

Não é, porém, uma obra que mergulhe profundamente em seu objetivo, com Villeneuve por vezes deixando seu estilo atrapalhar a fluidez narrativa, especialmente quando insere trechos de uma entrevista com uma antropóloga, que faz o lado documental pesar talvez desproporcionalmente. No entanto, vê-se muito claramente o delineamento de uma profícua  carreira na Sétima Arte.

Com: Lorne Brass
Duração: 31 min.

120 Seconds to Get Elected
(Canadá, 2006)

São apenas dois minutos (para ser eleito!), mas nesses dois minutos escritos por Villeneuve e falados por Alexis Martin em um palanque para um público provavelmente formado de sequências de arquivo em comícios, com uma mixagem de som também de arquivo, há uma inteligente crítica aos políticos como um todo. O próprio título do curta já  dá a entender isso.

E, ao longo desses dois minutos, Martin e seu político vai discursando e, na medida da reação das pessoas – aplausos ou vaias – ele altera as promessas e a cada nova promessa, ele vai prometendo mais absurdos em um crescendo que seria hilário se não fosse tão verdadeiro. Um exemplo: “Ser pobre será ilegal! Construiremos campos de trabalhos forçados para que pobres trabalhem e fiquem ricos, mas não muito. Se ficarem muito ricos, não haverá mais pobres e sem pobres, que será rico?”

Mas o melhor é que a crítica não para na política. Aliás, eu diria que Villeneuve usa o alvo fácil da política para nos acertar em cheio, em uma forte crítica social que, se tivermos discernimento, nos fará parar para pensar e perceber que, ao nosso redor, tem muita gente que pensa exatamente da forma como o político vivido por Martin pinta, isso se nós mesmos não pensarmos assim.

Portanto, são dois minutos que valem como uma espécie de serviço de despertador. Devemos parar e pensar. Mas pensar de verdade.

Elenco: Alexis Martin
Duração: 2 min.

Próximo Piso
(Next Floor – Canadá, 2008)

Um anos antes de sua consagração em longas-metragens com Polytechnique, Denis Villeneuve lançou um grotesco, revoltante e nojento curta que é absolutamente brilhante. Filmado em intervalos durante a produção de seu filme sobre o massacre na Escola Politécnica de Montreal. Próximo Piso é a perfeita visão do inferno, uma obra que, não fossem os créditos iniciais asseverando que vem de um roteiro de Jacques Davidts a partir de uma ideia de Phoebe Greenberg, um espectador desavisado poderia achar que viria da mente excêntrica e efervescente de Terry Gilliam ou que é baseado em algum manuscrito perdido do surrealista Luis Buñuel.

Quase sem diálogos – aliás, a única coisa que é dita em língua compreensível é justamente “próximo piso” -, o curta mostra um rico e abundante banquete em que 11 convidados se refestelam incessantemente das mais diferentes e exóticas carnes (rinoceronte, tatu e assim por diante), sempre servidos por prestativos garçons, ao som de uma orquestra clássica ao vivo e sob o olhar constante de um maître que muito bem poderia representar o diabo. Na medida em que os abastados comem, o chão cede e eles caem no andar de baixo, com o processo continuando como se nada tivesse acontecido.

Racionalizar por completo o curta não é exatamente difícil, pois parece-me que Villeneuve tentou criar sua alegoria de um dos pecados capitais – a gula – como uma ponte para fazer uma forte crítica social sobre o espaço que divide os que podem e os que não podem e o quanto os que podem não ligam para absolutamente nada que não sejam seus próprios umbigos. Claro que ele pesa a mão no maniqueísmo para fazer a história funcionar, já que ele não tinha tempo suficiente para desenvolver uma narrativa equilibrada. Próximo Piso é uma sátira social e não uma tentativa de se ouvir os dois lados dessa moeda – e que Villeneuve sabe que existe, como deixou claro com seu 120 Seconds to Get Elected.

E, como tal, o curta é um triunfo narrativo e visual. Se a história é imediatamente identificável, a suntuosidade da direção de arte, aí incluídos os figurinos e os cenários, além da fotografia precisa, escura sem ser exatamente sombria, com uma trilha sonora que nos faz lembrar dos últimos momentos do Titanic, é realmente de fazer o queixo cair. E isso pois nem abordei os efeitos especiais, tanto práticos quanto de (creio) computação gráfica que dão vida às quedas sucessivas da mesa e convidados, além da forma absolutamente repugnante como a comida é apresentada, como se estivéssemos não em um banquete, mas sim em um abatedouro, gerando, aqui, uma outra camada crítica que toca profundamente na culinária dita gourmet.

Próximo Piso é uma pequena obra-prima escondida de Villeneuve que precisa ser descoberta. Não é nem de longe agradável, mas é certamente linda.

Roteiro: Jacques Davidts (baseado em ideia de Phoebe Greenberg)
Elenco: Simone Chevalot,  Luc-Martial Dagenais, Kenneth Fernandez, Mathieu Handfield, Ariel Ifergan,  Neil Kroetsch, Jean Marchand
Duração: 11 min.

Rated R for Nudity
(Canadá, 2011)

Primeiro curta completamente experimental de Villeneuve, Rated R for Nudity é próximo do inclassificável (como é o próximo curta). Em tese vendido como uma brincadeira sobre hipnose em massa, vemos uma tela preta em que palavras em francês vêm em sucessão, com uma narração robótica de Macha Grenon que não necessariamente bate com o que está escrito. É como vivenciar um pouquinho do conceito por trás de Eles Vivem, com mensagens subliminares plantadas no inconsciente.

Para entrar na brincadeira, não só é necessário entender o básico do inglês, como também do francês, além de conseguir captar as referências contidas nas frases e palavras, que vão desde Ingmar Bergman até peça teatral adaptada pelo próprio Villeneuve. É, confesso, um negócio muito estranho, mas também muito intrigante e que, confesso, parece ter funcionado comigo, pois não me senti completamente bem depois de assistir (obrigado por isso, Villeneuve…).

Ah, cuidado caso tenham tendências à epilepsia, pois há um momento em que as cores preta e branca piscam violentamente.

Elenco: Macha Grenon
Duração: 3’24’ min.

Etude Empirique sur l’Influence
du Son sur la Persistance Rétinienne
(Canadá, 2011)

Inavaliável 

Repararam na avaliação acima? Pois bem, tentei, mas não consegui. Não se trata de um curta estruturado, mas sim das cores vermelha e verde pulsando enlouquecidamente (se tiverem tendência a ataques epilépticos, não assistam, falo sério!) com som pesado tocando de forma teoricamente sincronizada.

O título, que pode ser traduzido como “Estudo Empírico sobre a Influência do Som na Persistência da Visão (ou da Retina)“, denota uma pesquisa em forma de filme feita para o festival de “Cinema Novo” de Montreal e não há uma direção ou montagem propriamente ditos ou nada que contenha elementos que possam ser avaliados positiva ou negativamente.

Portanto, vejam por vocês mesmos e tirem suas conclusões!

Duração: 1 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.