Crítica | Curtas de Krzysztof Kieslowski

A  40ª Mostra de São Paulo terá como um de seus especiais o “Foco Polonês”, trazendo obras de Kieslowski e Wajda. Como parte da nossa cobertura, veja abaixo a crítica de 5 curta-metragens de Krzysztof Kieslowski.

Da Cidade de Lodz

estrelas 3

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A cidade de Lodz possui uma tradicional escola de cinema, foi lá que grandes cineastas como Andrzej Wajda e Roman Polanski estudaram. Como trabalho de conclusão de seu curso nessa instituição, Kieslowski decidiu homenagear a cidade, produzindo Da Cidade de Lodz.

O curta não tem a temática política e humanista dos trabalhos posteriores do diretor, mas é um agradável relato sobre as tradições e cultura de Lodz. Logo no início, vemos uma fábrica têxtil onde todas as funcionárias são mulheres, representando a força feminina do local, algo explicitado na cena onde Kieslowski, após mostrar o esforço das senhoras, corta para homens fazendo nada. Aliás, o documentário ainda destaca a admiração que os homens têm pelas mulheres durante a festa da Liga das Mulheres, onde são homenageadas.

Além disso, o filme ainda destaca a influência da música sobre a cultura local, ressaltando como os habitantes ficam ansiosos pelos festivais musicais e apresentações da orquestra local. Como foi dito anteriormente, Da Cidade de Lodz não é complexo e nem audacioso, mas é uma bela homenagem de Kieslowski para o local que o acolheu durante anos.

Da Cidade de Lodz (Z miasta Lodzi) – Polônia, 1968
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski
Duração: 18 min

Curriculum Vitae

estrelas 4

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Curriculum Vitae se diferencia totalmente dos outros curtas de Kieslowski. Além da duração ser bem maior, aqui o diretor escala atores desconhecidos para os papéis, inserindo um tom documental em sua obra, apesar de não ser um.

Portanto, assim como nos demais curtas de Kieslowski, ele foca o rosto dos personagens persistentemente em close-ups, visando aproximá-los do público. A grande diferença aqui está no uso de sombras, claramente inseridas para criar uma atmosfera de tensão na obra.

O filme trata sobre a expulsão de um membro do Partido Comunista por discordar de certas atitudes de seus líderes. Além de tratar com precisão os motivos que fizeram com que o socialismo falhasse na Polônia, como o início das manobras políticas para benefício próprio, o curta ainda destaca como o trabalhador é visto muitas vezes como um mero peão. Enquanto o verdadeiro comunismo, na teoria, prega a igualdade total, seus líderes muitas vezes corrompem-se por poder e isso é destacado com precisão aqui.

Apesar de criticar o socialismo, Kieslowski não reduz os socialistas à vilões ou oportunistas, pelo contrário, utiliza o realismo construído para apontar os defeitos dessa ideologia de forma imparcial, sendo um belo retrato sobre a antiga política socialista polonesa.

Curriculum Vitae (Zycioryz) – Polônia, 1975
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski
Duração: 46 min

Sete Mulheres de Diferentes Idades

estrelas 5,0

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Kieslowski nos apresenta aqui uma perfeita representação sobre os ciclos da vida através da rotina de sete bailarinas. Logo no início, vemos uma garotinha alongando-se sobre as ordens de sua professora enquanto tenta segurar o riso. As palavras de sua instrutora não são tão duras e nota-se certa espontaneidade nas ações da menina. Contudo, quando são mostradas as próximas duas jovens percebe-se uma grande diferença no semblantes delas. As ordens das professoras são mais ríspidas devido a seus erros, resultando em certa insegurança das alunas. Essa primeira metade do curta representa perfeitamente infância e adolescência, uma vez que, enquanto os ensinamentos para uma criança são mais pacientes e amorosos, os destinados a adolescentes são mais firmes.

Quando o documentário destaca a quarta mulher, na faixa dos 24 anos, ela está livre, não há ordens, seus movimentos são perfeitos e seu semblante é mais confiante, representando a chegada à maioridade. Logo após, é destacada uma bailarina na faixa dos 30 anos já com certa dificuldade em realizar os exercícios, seu corpo está cansado, resultando em seu desapontamento, demonstrando o início das limitações do corpo com o envelhecimento, exemplificado na sexta personagem, que apenas observa porque sabe que não consegue mais realiza aquilo.

A última mulher tem cerca de 60 anos e ensina as demais bailarinas, representando a experiência adquirida no fim da vida. Como o corpo não permite a realização de certas ações, resta que o conhecimento seja transmitido aos mais jovens.

Sete Mulheres de Diferentes Idades representa perfeitamente os ciclos da vida, desde a espontaneidade da infância, o aprendizado da adolescência, passando pela confiança e auge físico da maioridade e culminando na sabedoria da velhice.

Sete Mulheres de Diferentes Idades (Siedem kobiet w róznym wieku) – Polônia, 1979
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski
Duração: 16 minutos

O Ponto de Vista de Um Porteiro Noturno

estrelas 3,5

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Em O Ponto de Vista de Um Porteiro Noturno, Kieslowski usa as opiniões de um porteiro noturno para expor os pensamentos conservadores presentes na sociedade, exemplificado pela primeira cena onde ele diz que prefere os filmes com violência do que os romances. Portanto, vemos o trabalhador expressando seu desconforto com os jovens, comentando que eles devem ser guiados em rédeas curtas e demonstrando desprezo por suas roupas, cabelos compridos e barbas. Logo após, há uma cena onde ele amarra bruscamente uma gravata em seu filho, ficando clara a maneira dura com que educa o garoto.

Além disso, pode se dizer que o curta também serve de alegoria sobre um estado opressor, exemplificado pelo comentário dele quanto as críticas das pessoas que falam mal do estado e seu prazer em confiscar os pertences dos demais, representando a forma como os governos muitas vezes tomam para si os bens de seus cidadãos.

Em determinado momento, a história do porteiro não soa tão interessante a ponto de que um curta seja realizado sobre ele, mas a obra apresenta suas propostas de maneira tão objetiva que isso acaba ficando em segundo plano.

O Ponto de Vista de Um Porteiro Noturno (Z punktu widzenia nocnego portiera) – Polônia, 1979
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski
Elenco: Marian Osuch
Duração: 17 min

Cabeças que Falam

estrelas 5,0

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Através do uso constante de close-ups, aproximando o público de quem está na tela, Cabeças que Falam apresenta a fala de dezenas de pessoas, desde um bebê até uma senhora, mostrando-os de forma gradativa. Assim como Sete Mulheres de Diferentes Idades, há aqui uma representação sobre os ciclos da vida, mas de maneira mais intimista. Portanto, vemos como na infância as falas das crianças são despretensiosas, elas não sabem o que querem ser quando crescer e não dão muita atenção para as perguntas. Já entre os jovens os discursos possuem um tom mais otimista, esperançoso, humanista. Há uma certa militância em suas frases, desejando não apenas sucesso pessoal como também um mundo justo.

A partir do momento que a idade dos entrevistados aumenta seus depoimentos passam a ser pessimistas, materialistas e conformados com sua situação. As pessoas mais maduras desejam apenas viverem de forma tranquila e que seus filhos tenham um bom futuro. O contraste das falas dos jovens e dos adultos mostra com clareza como com o tempo o ser humano passa a sonhar menos. No fim, quando os idosos expressam-se, sua visão passa a assemelham-se mais com a dos adolescentes, uma vez que, no fim de sua vida, desejam apenas que o mundo seja melhor e que possam desfrutar seus últimos momentos.

Além disso, o documentário ainda nos mostra com clareza as diferentes visões presentes na sociedade. Portanto, enquanto há pessoas com pensamentos religiosos, também existem outras mais niilistas e algumas que não preocupam-se com nada, destacando a peculiaridade humana.

Kieslowski nos mostra com precisão em Cabeças que Falam como a visão das pessoas sobre a vida e o mundo com o tempo muda, quem hoje é esperançoso e fervoroso talvez seja conformado com o mundo futuramente, mostrando como a idade muitas vezes define o nível de esperança que temos sobre nossas vidas.

Cabeças que Falam (Gadajace glowy) – Polônia, 1980
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski
Duração: 16 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.