Crítica | Curtas do Oscar 2016 – Animação

Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Curta Metragem de Animação em 2016 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia com o título original e a versão oficial em português entre parênteses, quando houver):

Bear Story
(Historia de un Oso / A História de um Urso, Chile – 2014)

estrelas 3,5

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O curta chileno A História de um Urso é terno e inegavelmente bonito em sua singeleza. Gabriel Osorio Vargas, que dirige e co-escreve a animação conta, claro, a história de um urso que, por sua vez, conta (ou mostra) a história de sua vida a um ursinho por meio de uma espécie de realejo mecânico que funde realidade com flashback sem chamar atenção para um ou para outro em um conto de fadas que é capaz de tirar uma lágrima furtiva de espectadores desavisados.

Animado por meio de computação gráfica, o trabalho técnico merece louvor por não se furtar de detalhar a oficina do urso e sua cidade, inserindo alusões à outras histórias, especialmente a de Cachinhos Dourados. Mas vê-se muito claramente as limitações potencialmente impostas pelo orçamento. O CGI sofre nos momentos mais dinâmicos da fita especialmente quando o urso pedala sua bicicleta pela cidade. Quando, porém, o realejo começa a funcionar, é como se literalmente uma fábrica de sonhos se abrisse diante de nossos olhos.

A história carrega um subtexto interessante de opressão ditatorial que provavelmente vem de ecos do passado chileno, o que empresta algo mais à animação, retirando-a do contexto de “mero conto de fadas”. O velho e entristecido urso usa o realejo – e Vargas usa o desenho que usa o realejo – para denunciar o perigo da ditadura que ronda alguns países e que já pesou em seu país. Trata-se de um subtexto nada discreto, mas que funciona em termos narrativos, ainda que sem grandes arroubos criativos.

Direção: Gabriel Osorio Vargas
Roteiro: Daniel Castro, Gabriel Osorio Vargas
Duração: 11 min.

Prologue
(Reino Unido – 2015)

estrelas 2

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Aclamado e premiado mundo afora, Prologue não é exatamente um curta, mas sim o prólogo (como o nome deixa evidente) de um um curta ou de um média metragem (talvez até de um longa) que adapta a comédia Lysistrata do grego Aristófanes, que a escreveu no século V a.C. Nela, mulheres fazem uma espécie de greve de sexo para forçar que seus homens negociem um tratado e acabem com a guerra.

No entanto, por ser justamente apenas um prólogo, a animação de curtíssimos seis minutos, não chega nem próximo de desenvolver o centro da narrativa da peça e deixa os espectadores a ver navios ou, no caso, muito sangue e violência. Com base neste aspecto um tanto desconcertante, este crítico teve dificuldade em apreciar a narrativa que começa já com o conflito estabelecido e acaba sem qualquer tipo de encerramento efetivo, mesmo que indireto, falhando em efetivamente chamar a atenção ou apontar para seu objetivo.

Isso não quer dizer que a animação em si, feita a lápis em forma de esboços artísticos animados, é de se jogar fora. Muito – mas muito mesmo – ao contrário, aliás. A ideia passada é claramente a de estudantes de arte trazendo à vida esculturas helênicas e, com isso, reencenando a peça milenar. É uma experiência mais do que interessante que já compensa qualquer problema narrativo, até porque os seis minutos de duração não exigem muito do espectador. No entanto, fica a impressão que o curta é só mesmo uma experiência, um construto inacabado que um dia, talvez, seja um grande longa animado, mas que não funciona em sua plenitude solto dessa forma.

Direção: Richard Williams
Roteiro: Richard Williams (baseado em peça de Aristófanes)
Duração: 6 min.

Sanjay’s Super Team
(Os Heróis de Sanjay, EUA – 2015)

estrelas 1,5

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O que exatamente aconteceu aqui? O mais novo curta da Pixar, que foi exibido mundialmente antes de O Bom Dinossauro, é o pior curta original da produtora desde seu nascedouro (leiam as críticas dos demais curtas da Pixar, aqui). Exagero? Olha, acho que não.

O desenho, que lida com o choque entre modernidade e tradição, alienação e religiosidade, tem excelente premissa que é jogada no lixo com um roteiro (semi-autobiográfico) de Sanjay Patel, especialista em animação da produtora que vem trabalhando com a Pixar desde Monstros S.A. e que também dirigiu o curta. É, em termos narrativos, o equivalente a filmes de Michael Bay, ou seja, pouco cérebro e muita ação, algo nada característico dos curtas anteriores (ainda que Lava também não tenha sido fantástico, mas vale pelo inusitado pelo menos).

A redução do conflito entre o novo e o velho a super-heróis que, na mente do menino, são transformados em entidades hindus, mesclando conceitos, é de um reducionismo de trincar os dentes. Imprestável completamente? Certamente que não, até porque, para variar, a animação em CGI é “padrão-Pixar”, mas tamanha é a apatia do curta que nem mesmo o espetáculo visual funciona em sua plenitude. É como assistir a um esboço de ideia tida pelo estagiário da produtora. Uma pena.

Direção: Sanjay Patel
Roteiro: Sanjay Patel
Elenco (vozes): Brent Schraff
Duração: 7 min.

World of Tomorrow
(EUA – 2015)

estrelas 5,0

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Originalidade, simplicidade e desafio. Uma trilogia de características que, quando presentes em literalmente qualquer tipo de obra, tem o potencial de a elevar a uma categoria especial. É o que acontece com o estranhíssimo World of Tomorrow, desenhado em computação gráfica, mas mesclando o que parecem ser traços primitivos em algo como Paintbrush e fundos tirados de revistas sci-fi pulp dos anos 30 e 40, sob a batuta do veterano Don Hertzfeldt.

No presente ou um pouquinho no futuro, Emily, uma menina de não mais do que cinco anos, recebe uma ligação de seu próprio clone de terceira geração mais de 200 anos no futuro e as duas – Emily do futuro e Emily Prime, do presente – passam a conversar e a navegar por eras, com um passeio por um fascinante futuro distópico que bebe de fontes clássicas como George Orwell, Isaac Asimov e Walter M. Miller Jr. com conceitos de viagem no tempo que fariam inveja a Doctor Who. E tudo isso dentro de um exercício fantástico de concisão e de estética de apenas 17 minutos.

O trabalho de voz ficou por conta de Julia Pott como a Emily-clone do futuro e que a faz como uma fusão de voz robótica insensível com um quê da humanidade hesitante e em um crescendo da voz incorpórea de Samantha, em Ela, vivida por Scarlett Johansson. Mas o mais interessante e inusitado ficou por conta mesmo da voz de Emily Prime, pois, para ela, o diretor usou gravações da voz de sua própria sobrinha de quatro anos Winona Mae, com as devidas edições para adequação à narrativa. O resultado é de uma legitimidade e verossimilhança ímpares, que deixa o espectador com um sorriso no rosto, apesar do tom apocalíptico do futuro que Hertzfeldt desenha.

World of Tomorrow é uma pequena, mas certeira obra de arte que encantará tanto os fãs de sci-fi quanto os de animação. E, em uma mesma penada, gostando ou não do visual propositalmente estranho, talvez até surreal, o curta deixará qualquer espectador pensando no futuro… e no passado.

Direção: Don Hertzfeldt
Roteiro: Don Hertzfeldt
Elenco (vozes): Julia Pott, Winona Mae, Sara Cushman
Duração: 17 min.

We Can’t Live Without Cosmos
(Mi ne mozhem zhit bez kosmosa, Rússia – 2014)

estrelas 3,5

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Com uma animação que lembra os traços de Hergé e seu Tintim, o curta russo é um belo retrato da amizade com um quê de ambiguidade que empresta mais camadas ainda a ele, especialmente se considerarmos sua proveniência. Sem qualquer diálogo e lidando com dois amigos de infância que se tornam cosmonautas do programa espacial russo.

Apenas designados pelos números 1203 e 1204, os amigos, depois do rigoroso treinamento, são selecionados para uma viagem espacial e 1203 vai em uma missão solo primeiro, deflagrando, então, uma mudança tonal na animação que, até então, caminhava de maneira simplista e sem qualquer profundidade maior. Essa “troca de marchas” em meio à narrativa é inesperada e inusitada, carregando nas cores sombrias, mas líricas que acaba marcando a narrativa como um todo.

Mas talvez a grande questão de We Can’t Live Without Cosmos seja mesmo a possibilidade – não sei se procede, mas é algo razoável de se supor – de a relação de 1203 e 1204 ir além de um mero bromance, existindo efetivamente uma relação homossexual ali. Há várias pistas deixadas pela projeção, especialmente no final, que deixam entrever essa possibilidade, ainda que a realidade da Rússia de Putin potencialmente iniba esse tipo de abordagem (e sei que usei eufemismo aqui…). Não sei se houve a intenção, mas o curta ganha mais relevância se visto desta forma. Caso contrário, é apenas um bom trabalho de Konstantin Bronzit.

Direção: Konstantin Bronzit
Roteiro: Konstantin Bronzit
Duração: 16 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.