Crítica | Curtas do Oscar 2016 – Live Action

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Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Curta Metragem Live Action em 2016 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia):

Ave Maria
(França/Alemanha/Palestina – 2015)

estrelas 3

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É muito delicado abordar arquétipos de maneira relevante, especialmente se eles forem relacionados com a religião. O israelense Basil Khalil, que escreveu e dirigiu este curta, ao usar seu texto que caminha para o lado da comédia, alcança um bom e surpreendente equilíbrio.

Na história, uma família judia, dirigindo pela Cisjordânia, bate na estátua de Maria na entrada de um convento católico e precisa arrumar um jeito de sair de lá. No entanto, é o shabbat e os judeus, todos muito religiosos, não podem operar máquinas, nem mesmo telefones e as freiras, que fizeram voto de silêncio, não podem ajudar muito. A confusão, então, está estabelecida nestes gostosos e leves 15 minutos que funcionam como uma alívio cômico para a tensão que existe na região.

Sem ser desrespeitoso, Khalil aborda o lado radical das duas religiões de maneria interessante, sem didatismos e sem apelações. As freiras não podem falar, mas precisam ajudar de alguma forma e os judeus também precisam sair dali. Ambos os lados, então, começam a relutantemente ceder aos dogmas impostos e uma convergência passa a existir em prol de um bem comum. Não há uma pretensão maior no curta do que simplesmente dizer que há possibilidade de convivência e paz, não interessando que religião a pessoa observe, desde que a pessoa seja imbuída de humanidade, algo que transcende o que profetas disseram há milênios e que foram interpretados e reinterpretados – para o mal e para o bem – por uma infinidade de entidades.

Usando cores fortes nos figurinos dos judeus para contrastar com os tons de barro do exterior e também interior do convento, a produção coloca em oposição os dois grupos primeiro apenas com imagens e, depois, com os diálogos quase frenéticos. A estátua de Maria quebrada, ao chão, com óleo do carro escorrendo como se fosse sangue, é o primeiro desses símbolos de quebra de paradigmas sem desrespeito (apesar da tentativa jocosa de chocar, claro). Ave Maria é um curta que, em sua simplicidade, faz refletir e isso é muito mais do que se pode dizer de muitos longas por aí.

Direção: Basil Khalil
Roteiro: Basil Khalil, Daniel Yáñez Khalil
Elenco: Maria Zreik, Huda El-Imam, Shady Srour, Ruth Farhi, Maya Koren
Duração: 15 min.

Day One
(EUA – 2015)

estrelas 3,5

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O representante americano nesta categoria de curtas vem do ex-soldado e diretor e roteirista estreante Henry Hughes, em história inspirada em sua própria experiência no Oriente Médio. O curta lida com o primeiro dia (o “day one” do título) de Feda (Layla Alizada), uma intérprete afegã-americana no front. Uma missão aparentemente corriqueira transforma-se em um pesadelo em questão de minutos.

Mas o filme não é o que se espera exatamente. Ao focalizar a ação sob o ponto de vista de Feda, Hughes empresta à fita um olhar intimista e revelador, explorando ao máximo a atuação de Alizada, veterana de papéis menores na TV, que mostra grande latitude e um futuro promissor. De uma intérprete de primeira viagem a uma parteira em situação de gigantesca tensão, a atriz trafega muito bem, trazendo legitimidade à personagem desde seus momentos iniciais no chuveiro (se é que se pode chamar assim) da base militar americana.

O roteiro de Hughes procura trazer uma visão dos dois lados da batalha que não vilaniza nenhum deles, ainda que a balança acabe pendendo para os soldados americanos, por razões óbvias. Mas o fiel desta balança é mesmo o conflito interno de Feda e tensa sequência do parto, que toma o maior tempo de projeção é que é bem trabalhada com uma câmera intrusiva que não se furta de fazer closes quase que intimidadores dos atores, que devem ter precisado trabalhar com grande grau de concentração para não perderem o fio da meada.

Sem açucarar a narrativa e trabalhando firmemente a câmera, Henry Hughes tem um sólido début diretorial com Day One.

Direção: Henry Hughes
Roteiro: Dawn DeVoe, Henry Hughes
Elenco: Layla Alizada, Alexia Pearl, Navid Negahban
Duração: 25 min.

Everything Will Be Okay
(Alles Wird Gut, Alemanha/Áustria – 2015)

estrelas 4,5

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Existe um consenso que considera um absurdo o menino Jacob Tremblay não ter concorrido a Melhor Ator por sua atuação em O Quarto de Jack. E, se você é um desses, então precisa assistir Everything Will Be Okay, curta teuto-austríaco que tem como foco das atenções a menina Lea, vivida sensacionalmente bem pela estreante Julia Pointner.

Em apenas meia hora, Pointner transita de garotinha feliz por passar o dia com o pai – separado da mãe – até uma menina entristecida e desesperadamente dividida entre seu pai que tenta sequestrá-la e sua vida com a mãe. A evolução da personagem, escrita e dirigida pelo alemão Patrick Vollrath em seu sétimo curta, é verossímil e de cortar o coração. Usando uma estrutura de thriller, que esconde por boa parte da projeção o propósito escuso do pai (Simon Schwarz), a narrativa vai em um crescendo que envolve facilmente o espectador, deixando-o aflito com toda a situação e tentando mergulhar na mente da pequena Lea que não entende exatamente a dimensão do que está acontecendo e, quando entende, é capaz de arrancar lágrimas de muito marmanjo por sua postura inesperadamente adulta.

É interessante notar que a fotografia de Vollrath, usando câmera digital, usa o desenrolar do dia para começar com um trabalho iluminado e cheio de tomadas em planos mais abertos e caminha para as sombras, com tomadas progressivamente mais fechadas, culminando com o desesperador abraço do pai. O ar de mistério do thriller, porém, logo se dissipa e o curta começa a ser carregado de um tom quase documental, o que demonstrar que o diretor/roteirista não quer nos dar sustos baratos e sim mostrar o potencial narrativo de uma história que não deve ser tão incomum assim.

Everything Will Be Okay é uma pequena joia e Julia Pointner uma grande descoberta.

Direção: Patrick Vollrath
Roteiro: Patrick Vollrath
Elenco: Simon Schwarz, Julia Pointner, Marion Rottenhofer, Daniel Keberle, Gisela Salcher
Duração: 30 min.

Shok
(Kosovo/Reino Unidos – 2015)

estrelas 4,5

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Emoldurado pelas lembranças, no presente, de um homem assombrado pelo passado que encontra uma velha bicicleta na estrada por onde viaja em sua terra natal em Kosovo, na Iugoslávia fragmentada, Shok é um curta que se passa nos anos 90 e lida com os inseparáveis amigos, Petrit (Lum Veseli) e Oki (Andi Bajgora) durante a guerra civil que devastou o país.

A perda da inocência permeia a história que trafega entre momentos fraternos com os garotos e a bicicleta de Oki e tensão quando os soldados invadem a casa de Petrit, em uma sequência que consegue ser arrebatadora e aflitiva justamente por ser previsível. Qualquer espectador com um mínimo de experiência com filmes deduzirá exatamente os acontecimentos do filme sem muito esforço, mas essa características do curta não é negativa e ajuda a fazer crescer a tensão, além de nos forçar a ter esperanças de que aquilo que imaginamos não acontecerá afinal de contas.

Vencedor de diversos prêmios desde que foi exibido nos EUA em abril de 2015 no Aspen Shortsfest, Shok merece as láureas por enfatizar o horror da guerra sem apelar para a violência explícita, sem deixar de ter nas lentes os dois garotos vivendo em meio a um horror que, para eles, não faz sentido algum (faz para alguém?). O britânico Jamie Donoughue cria uma fita urgente sem ser frenética, terna sem ser piegas e terrível sem ser explícita, por meio de um roteiro econômico que não tenta explicar o conflito nem as separações em várias etnias e nacionalidades para enfatizar a confusão da situação e que, de certa forma, bem lá longe, consegue emular aquela relação de amizade que podemos ver no excelente Conta Comigo. E, por sobre tudo isso, a fotografia escurecida, desesperançosa, funciona para não só nos tirar a esperança, como para mergulhar no estado de espírito desse momento na História.

Em seu final, Shok realmente deixará lembranças acridoces na mente do espectador, muito parecidas com as memórias do adulto que abre e fecha a projeção.

Direção: Jamie Donoughue
Roteiro: Jamie Donoughue
Elenco: Lum Veseli, Andi Bajgora, Eshref Durmishi, Kushtrim Sheremeti, Fisnik Ademi
Duração: 21 min.

Stutterer
(Reino Unido – 2015)

estrelas 3

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Stutterer (ou “gago”, em português) usa um interessante artifício para abordar a gagueira do protagonista: sem conseguir falar direito, ouvimos seu pensamento em off sempre lúcido, claro, cristalino. É uma ideia simples, óbvia até, mas que gera bons momentos nesta curtíssima fita de apenas 12 minutos sobre a habilidade da comunicação, habilidade essa que, em um mundo extremamente conectado, muitos de nós simplesmente nem pensa muito.

Em um relação online com uma jovem que não sabe de seu problema há seis meses, Greenwood (Matthew Needham) é surpreendido pela sugestão dela de se conhecerem offline. Desesperado com a situação, ele não sabe como responder a esse convite e cada vez mais internaliza seus pensamentos, escondendo-se do mundo. Somente seu pai tem ouvidos para ele, já que ninguém parece ter paciência para ouvir por mais do que alguns segundos. Se o mundo a seu redor é assim, como é que ele imagina ter uma relação verdadeira com alguém? Seu medo de perder Ellie (Chloe Pirrie) para sempre é palpável nas expressões de Needham que faz de seu papel silencioso um ótimo veículo para mostrar sua capacidade de atuar.

Contado quase que como uma fábula, o curta de Benjamin Cleary, o primeiro que dirige, é simpático e romântico, contrastando bem a modernidade de relacionamentos virtuais com o amor à moda antiga. O roteiro, também de Cleary, sofre um pouco pela falta do que abordar, já que o dilema do protagonista é praticamente insolúvel: ou ele se encontra com Ellie ou não se encontra. E a resolução, por mais terna que possa ser, é conveniente demais, rápida demais para dar relevo à esta obra. Um passatempo e não muito mais do que isso.

Direção: Benjamin Cleary
Roteiro: Benjamin Cleary
Elenco: Matthew Needham, Eric Richard, Chloe Pirrie
Duração: 12 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.