Crítica | Curtas do Oscar 2017 – Animação

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Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Curta Metragem de Animação em 2017 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia com o título original e a versão oficial em português entre parênteses, quando houver):

Blind Vaysha
(Vaysha l’Aveugle, Canadá – 2016)

estrelas 5,0

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Blind Vaysha é um fascinante desenho do experiente artista búlgaro radicado no Canadá Theodore Ushev, responsável por diversos e interessantíssimos curtas, como Gloria Victoria Demoni. A estrutura que ele usa é a de conto de fadas, narrado por Caroline Dhavernas (tanto na versão em inglês, quanto em francês), que empresta uma camada de lenda à história de Vaysha, uma garota que nasce com o olho esquerdo que só enxerga o passado e o direito sempre o futuro, ou seja, ela nunca vê o presente.

Baseado em obra de Georgi Gospodinov, poeta conterrâneo do diretor, a breve história tem evidentes contornos sombrios e uma pegada pessimista que Ushev não esconde ou tenta minimizar. É, sem dúvida alguma, um conto de fadas old school, sem a camada açucarada que a maioria dos clássicos recebeu ao longo do tempo. Complementando o aspecto sombrio da obra, o diretor elegeu usar uma técnica que emula gravura em linóleo, com todas as suas imperfeições mantidas aparentes e gerando um impacto visual quase hipnotizante e que diferencia a animação do que normalmente vemos por aí e encaixa-se perfeitamente bem na narrativa.

O curta animado, porém, não é uma história completa no sentido clássico. O espectador terá que aceitar o desafio proposto pela pergunta final e, olhando para trás e para frente, deverá parar para refletir sobre o que a história propõe. Afinal, vivemos mesmo no presente? Ou o que experimentamos é uma convergência de nostalgia e expectativas? A resposta, claro, não está na animação, mas sim em cada um de nós.

Direção: Theodore Ushev
Roteiro: Theodore Ushev (baseado em obra de Georgi Gospodinov)
Elenco: Caroline Dhavernas
Duração: 8 min.

Borrowed Time
(EUA – 2015)

estrelas 5,0

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Cinco anos de desenvolvimento. Sete minutos de duração. Borrowed Time é o produto de um trabalho de amor de Andrew Coats e Lou Hamou-Lhadj, da Pixar, feito em suas horas vagas no programa Co-Op da produtora que permite que seus artistas façam uso de sua tecnologia e instalações para a criação de obras independentes. Portanto, apesar de não ser tecnicamente um curta da Pixar, o curta tem todo o espírito da fábrica de sonhos em computação gráfica que mudou o cenário do longa-metragem de animação.

A singela história lida com um xerife voltando ao local de um acidente que vitimou seu pai – também então xerife – para suicidar-se. Há um tom pesado e sombrio por todo o filme que é o que afasta a obra de algo que realmente pudesse sair oficialmente da Pixar. Mas Coats e Hamou-Lhadj, que escreveram o roteiro com Mark Curnell Harris, logo cativam o espectador com rápidos flashbacks que revelam o que exatamente aconteceu, explicando o ato extremo do infeliz e solitário xerife. A fotografia escurecida, o semblante do personagem, as imagens desoladas, a trilha sonora triste encapsulam a melancolia do momento com perfeição e contam uma história completa, realmente digna que estar entre os selecionados do Oscar.

Apesar de ter levado cinco anos para ficar pronto, o curta não deixa transparecer uma construção protraída no tempo. Ao contrário, a tecnologia usada para dar vida ao xerife e também a seu pai não deixa nada a dever em relação às melhores obras atuais em CGI. Lírico e emocionante, Borrowed Time é uma pequena pérola que precisa ser apreciada.

Direção: Andrew Coats, Lou Hamou-Lhadj
Roteiro: Andrew Coats, Lou Hamou-Lhadj, Mark Curnell Harris
Elenco: Greg Dykstra, Nick Pitera, Steve Purcell
Duração: 7 min.

Pear Cider and Cigarettes
(Canadá/Reino Unido – 2016)

estrelas 4

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Techno era o melhor amigo de Robert, diretor e roteirista deste curta de pouco mais de 30 minutos que nos leva a um passeio em flashback a partir da morte dele. Usando uma narrativa em off, vemos a admiração de Robert por Techno e sua apreensão pela forma descuidada que ele sempre viveu a vida. Auto-destrutivo, Techno é como uma força da natureza até que uma condição gravíssima destrói seu fígado e, no mesmo diapasão, sua vida. Mas Robert não desiste dele.

A história é a de um homem que ama a vida, mas se odeia. Techno é incorrigível e irrefreável, sempre arriscando o máximo em esportes radicais e em amizades pouco saudáveis. É a ascensão e queda de mais do que um amigo de Robert. Techno é como um  irmão mais velho, alguém que você admira independente e apesar de todos os defeitos. E a animação transparece esse carinho todo ao criar um retrato de Techno que não podemos deixar de admirar, não só pela beleza estética do estilo de desenho, mas também pela construção do personagem. Sentimos a dor em Robert – que só ouvimos – da mesma forma que ficamos enternecidos pelas limitações de Techno e isso apesar de sabermos que ele é do tipo “porra louca” que basicamente fez por merecer o que aconteceu com ele.

No entanto, Pear Cider and Cigarettes extrapola seu tempo de duração. A primeira metade é frenética e bem desenvolvida e cadenciada, enquanto que a segunda sofre por ser um tanto quanto repetitiva, por vezes cansativa. Ainda é uma animação do mais alto calibre, mas faltou equilíbrio no roteiro de forma a tornar a “queda” de Techno mais precipitada e urgente.

Direção: Robert Valley
Roteiro: Robert Valley
Duração: 35 min.

Pearl
(EUA – 2016)

estrelas 3,5

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Com uma animação que parece uma versão mais antiga de Grand Theft Auto, Pearl é o primeiro filme de realidade virtual a concorrer a um Oscar. E, como tal, ele é mais uma experiência do que um curta propriamente dito, ainda que a montagem “sem realidade virtual” funciona bem narrativamente ao usar duas músicas, uma do pai e outra de Pearl, para contar a história dos dois pelos EUA em um carro hatch.

As músicas são a narração e elas conduzem o pequeno filme de maneira organizada e cronológica, sempre de dentro do carro, basicamente lidando com a vida como ela poderia mesmo ser, sem maiores invencionices, mas com um bonito senso de nostalgia e de conexão entre pai e filha. O roteiro tenta lidar com a realidade virtual da melhor forma possível e acaba encontrando uma saída na montagem final que lembra o espectador de que não está vendo algo “normal”, mas que essa “anormalidade” não afeta em nada a história.

Como toda experiência, porém, o filme está mais para uma curiosidade do que para uma obra inesquecível. Diverte, sem dúvida, por sua simplicidade e honestidade, mas faltou um pouco mais de desenvolvimento e construção de personagens.

Direção: Patrick Osborne
Roteiro: Patrick Osborne
Elenco: Nicki Bluhm, Kelley Stoltz
Duração: 6 min.

Piper
(Piper: Descobrindo o Mundo, EUA – 2016)

estrelas 4

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Piper foi o curta da Pixar que antecedeu Procurando Dory nos cinemas. É uma animação que, mais do qualquer outra de memória recente, merece a classificação “técnica” de “fofa ao extremo” ao lidar com um filhotinho de borrelho que tem medo d’água e, por isso, tem dificuldades em se alimentar. Desde os primeiros segundos de projeção, com o pequeno querendo comida e sua mãe criando dificuldades para ensiná-lo a caçar, aquele sonoro “ahhhhhhh” acaba saindo involuntariamente de nossas bocas ou, dos mais contidos, no mínimo em pensamento. E, de fato, é isso exatamente isso que a Pixar faz aqui: sua mágica usual em criar algo ao mesmo tempo fotorrealista, mas levemente cartunesco que encanta plateias de todas as idades.

Mas o mais fantástico é que a câmera de Alan Barillaro, que também escreveu o simplíssimo roteiro, aproxima-se corajosamente do passarinho e, no processo, nos faz ver em detalhes seu mundo em que os grãos de areia são proporcionalmente grandes. É como colocar uma lente de aumento nas coisas corriqueiras da vida com o poder dos computadores da produtora por trás, mais uma mostrando por que não tem paralelo em CGI. As texturas e detalhes da areia, das penas do jovem borrelho, da água de que ele foge, da concha que ele caça e assim por diante são de tirar o chapéu.

A história em si, é terna e eficiente, ainda que o resultado final pareça muito mais algo que precisava ser continuado, como um esboço de uma obra completa, um pedaço do todo. Isso não detrai da experiência como um todo, pois ela é encantadora, mas, aqui, temos o clássico exemplo da forma sobrepujando a substância. Lindo e muito fofo, mas sem maiores significados.

Direção: Alan Barillaro
Roteiro: Alan Barillaro
Duração: 6 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.