Crítica | Curtas do Oscar 2018: Animação

Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Animação em Curta Metragem em 2018 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia):

Dear Basketball
(EUA – 2017)

Uma declaração de amor ao basquete em forma de poema escrito por Kobe Bryant que é maravilhosamente transformada em uma declaração de amor ao basquete em forma de animação por Glen Kean, com o próprio Bryant lendo seu texto. Ao longo de seis brevíssimos minutos, somos levados da infância ao auge da carreira do atleta e de volta à infância em uma historieta capaz de arrancar lágrimas mesmo dos marmanjos mais durões.

Com uma animação em forma de rascunho a lápis em tons de sépia, Keane materializa o simples poema desse fantástico jogador dos Lakers que olha para trás em sua vida a partir de um ponto de vista presente, maduro, próximo da aposentadoria, quando terá que se despedir para sempre de seu amor. Parece clichê, parece bobo, mas o resultado é tocante, desde o design do pequeno Bryant em casa jogando basquete com uma bola feita com as meias enroladas de seu pai, até seus fantásticos voos em quadra à frente de seu time do coração.

E, como se isso não bastasse, a tocante e onipresente trilha sonora – ou música tema, na verdade – foi composta por ninguém menos do que John Williams, o mesmo compositor incomparável de trilhas cinematográficas inesquecíveis como as de Tubarão, Caçadores da Arca Perdida, E.T. e tantos outros. A fusão de arte frugal com a trilha potente e a leitura honesta do bom texto de Bryant realmente transformam esse filmete em uma homenagem ao esporte em geral e ao basquete em particular e, claro, ao próprio atleta. Imperdível.

Direção: Glen Keane
Roteiro: Kobe Bryant (poema original)
Elenco: Kobe Bryant
Duração: 6 min.

Garden Party
(França, 2017)

É inacreditável que Garden Party seja o projeto de graduação de seis estudantes que coletivamente decidiram chamar-se de Illogic (seus nomes estão na ficha técnica aqui embaixo). Inacreditável, pois a qualidade do CGI que eles conseguem exibir ao longo de sete minutos rivaliza a dos melhores curtas da Pixar, a gigante da computação gráfica.

Mas, melhor do que ser “apenas” um veículo para mostrar suas habilidades técnicas, o curta consegue sensacionalmente contar uma interessante história que vai aos poucos ganhando mais corpo até… bem… efetivamente ganhar um corpo ao final. E tudo isso usando como premissa diversos anfíbios (sapos e pererecas de variados tamanhos e cores) fazendo o que anfíbios fazem. Sem antropomorfizá-los, que seria a saída fácil para criar empatia com o público, o Illogic é brilhante ao inserir mínimos elementos narrativos que vagarosamente “humanizam” os bichinhos que vivem no jardim e dentro de uma enorme mansão abandonada que, aliás, serve de pano de fundo vivo (ou não…) para a história maior por trás que mencionei.

Garden Party é um deleite visual e narrativo que captura a atenção do espectador imediatamente, sem esforço aparente algum e vai oferecendo cada vez mais fascinantes elementos que estabelecem um microcosmo rico e detalhado ao ponto de ser fotorrealista. Um tour de force realmente de se tirar o chapéu desses seis estudantes que, tomara, sejam imediatamente contratados pelas melhores empresas de CGI do mercado. Pixar, atenção no Illogic, hein?

Direção e roteiro: Florian Babikian, Vincent Bayoux, Victor Caire, Théophile Dufresne, Gabriel Grapperon, Lucas Navarro (Illogic)
Duração: 7 min.

LOU
(EUA – 2017)

Desde que, em 1984, a antecessora da Pixar debutou na área de curtas com The Adventures of André and Wally B., o mundo da computação gráfica nunca foi mais o mesmo. A empresa capitaneou a evolução da técnica, mantendo-se firme à frente de seus concorrentes. Com o tempo, concorrer ao Oscar na categoria (e ganhar) tornou-se algo tão corriqueiro para a empresa quanto Meryl Streep ser indicada na categoria de Melhor Atriz ou Atriz Coadjuvante. LOU, que foi originalmente exibido no festival South by Southwest, depois precedendo Carros 3 nos cinemas, sucede Piper: Descobrindo o Mundo, que levou o Oscar em 2017, nessa missão.

O curta, que lida fundamentalmente sobre o bullying, lida com uma caixa de achados e perdidos de uma escola que abriga (ou é) uma simpática criatura formada pelos objetos aleatórios lá contidos. Notando que o valentão J.J. é que “dá sumiço” nos pertences de seus colegas, LOU (o nome é formado pelas letras faltantes na caixa – vide imagem) trata de fazer o garoto ver que sua atitude não compensa, sacrificando-se no processo. A história é bonita e edificante, mas a simpatia da “entidade” da caixa, de certa forma, abafa a abordagem mais séria do problema em si. Sim, o roteiro lida com o caráter cíclico da coisa, mas o frenesi da narrativa acaba deixando a lição razoavelmente para segundo plano. O que fica mesmo – como em todo curta da Pixar – é o magnífica apuro técnico, ainda que seu antecessor, o já citado Piper, seja ainda mais impressionante nesse quesito.

LOU tem o preciosismo técnico que aprendemos a esperar da empresa, mas falha ao deixar o “fofuchismo” sufocar um potencialmente bom roteiro. Ainda são sete minutos que passam voando e que divertirão e até podem fazer pensar, mas não é um curta particularmente memorável ou que quebre paradigmas como também aprendemos a esperar da Pixar.

Direção e roteiro: Dave Mullins
Duração: 7 min.

Negative Space
(França, 2017)

Coincidência ou não, Negative Space é o segundo curta em animação que concorre ao Oscar de 2018 em sua categoria que é baseado em um poema, desta feita de Ron Koertge sobre a conexão de pai e filho por intermédio de arrumação de malas de viagem. Sim, parece algo estranho se não pararmos para pensar, mas o ritual de arrumar e desarrumar malas, tão didaticamente mostrado no curta (aliás, há lições ali práticas sobre o assunto, vale notar) faz todo sentido na dinâmica estabelecida na pequena história, considerando que o pai tem que estar ausente constantemente em razão de trabalho, deixando seu filho com a mãe, com que não parece ter muita afinidade.

É a ligação pela distância, a conexão pela falta de contato, o amor incondicional sem nada mais do que um aceno ou uma mensagem de texto com uma palavra: “perfeito”. Alguns críticos afirmaram que este é um relacionamento frio, mas notem que, de frio, ele não tem nada. É o relacionamento possível e cada gesto, cada meia enrolada e inserida em cantinhos da mala valem mais do que abraços e beijos. O menos, aqui, é mais. Muito mais. E quantos de nós conseguem relacionar-se com pais, filhos e amigos desta forma? Mas relacionamento de verdade e não amizade virtual em que as partes basicamente nunca se viram. Falo de calor humano, mesmo que manifestamente longínquo, ainda que plenamente palpável.

Os diretores e roteiristas materializam o poema de Koertge usando magistralmente a técnica de stop motion com personagens e objetos que parecem feitos de papel machê, emprestando uma crueza delicada ao resultado final que ilustra perfeitamente a conexão entre pai e filho. A narração de Albert Birney, como o filho, a única voz que ouvimos, é sóbria, mas que deixa entrever sentimentos profundos que vão, aos poucos, sendo desdobrados ao longo dos brevíssimos cinco minutos de duração, culminando em um final que até pode ser telegrafado (e para que surpresa, não é mesmo?), mas que é belíssimo da mesma maneira.

Direção e roteiro: Ru Kuwahata, Max Porter (baseado em obra de Ron Koertge)
Elenco: Albert Birney
Duração: 5 min.

Revolting Rhymes
(Reino Unido, 2016)

O galês Roald Dahl definitivamente mereceria o título de criador moderno de fábulas. Suas histórias originais carregam, em sua grande maioria, o DNA dos melhores trabalhos dos inesquecíveis Esopo, Irmãos Grimm, La Fontaine e um sem-número de outros. E o melhor é que, em meio aos aspectos atuais que ele costumava abordar em uma linguagem apenas na superfície voltada para crianças, Dahl nunca perdia a oportunidade de inserir “dentes afiados” em sua narrativa, exatamente como nas versões originais das aguadas e “disneyficadas” fábulas que hoje a maioria de nós conhece como a única e verdadeira versão. Mas o autor também abordou, em poemas, as fábulas originais – Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, João e o Pé de Feijão e assim por diante – que foram colecionados em Revolting Rhymes, de 1982, com ilustrações de Quentin Blake, livro que, até onde me consta, não foi publicado no Brasil. Nos poemas, Dahl se divertiu mexendo, aglutinando e também pervertendo os textos originais, criando sua própria versão amalucada e moderna de cada clássico.

Essas “rimas repugnantes” e a arte de Blake é que inspiraram Jan Lachauer e Jakob Schuh a criar a animação que carrega o mesmo nome da compilação. Na verdade, trata-se de uma obra em dois capítulos (até agora), voltada para a TV e transmitida originalmente pela BBC. No entanto, apenas o primeiro episódio concorre ao Oscar de Melhor Curta em Animação e é, portanto, apenas este o objeto da presente breve crítica. Nele, ouvimos o Lobo (Mau???) relatar a uma babá que está indo ao trabalho a trágica história de seus sobrinhos que, inadvertidamente, envolveram-se com Chapeuzinho Vermelho e Branca de Neve (que é loira, não morena!). As duas, como todo mundo sabe, foram amigas quando crianças (!!!), separando-se quando adolescentes, pelo que a história se passa em dois tempos distintos além do “presente” com o Lobo. A narrativa vai em um divertido crescendo que embaralha as narrativas e insere outras, como a dos Três Porquinhos, em um curta que não é completamente voltado para os muito pequenos pela forma mais adulta como alguns assuntos são tratados, ainda que não seja nada chocante.

A animação é simples, mas eficiente. Inspirados nos traços de Blake, mas passando-os por uma limpeza estética, os personagens evocam bem suas contrapartidas clássicas, sem imitar as fontes mais conhecidas e o roteiro consegue se sustentar bem, ainda que haja uma redundância temática que alonga demais o episódio, talvez até fazendo sua duração ser o dobro da que precisasse ser, com idas e vindas que não acrescentam muita coisa. De toda forma, o texto original está lá intacto e o trabalho de voz de Dominic West como o Lobo é marcante e bem lapidado. Revolting Rhymes é um bom veículo para conhecermos a obra homônima de Dahl, mas fica a impressão que estamos vendo uma versão estendida de alguma coisa que poderia ter sido muito mais sucinta.

Direção: Jan Lachauer, Jakob Schuh
Roteiro: Jan Lachauer, Jakob Schuh (baseado em obra de Roald Dahl e ilustrações de Quentin Blake)
Elenco: Tamsin Greig, Dominic West, Rob Brydon, Bertie Carvel, Gemma Chan, Rose Leslie, David Walliams, Dolly Heavey, Eden Muckle
Duração: 29 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.