Crítica | Curtas do Oscar 2018: Documentário

Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Documentário em Curta Metragem de 2018 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia, com a versão oficial em português em seguida, quando existente):

Heaven is a Traffic Jam on the 405
(EUA – 2016)

Assistir a Heaven is a Traffic Jam on the 405 é uma experiência ao mesmo tempo esclarecedora e tocante. No curta, dedicado quase que exclusivamente a trechos de entrevistas com Mindy Alper, uma artista que passou a vida inteira lutando contra a depressão e ansiedade profundas, ao ponto de deixá-la em silêncio, confinada em um sanatório, por 10 anos, nós a vemos e ouvimos relatar seu passado e sua vida nos dias de hoje, tendo a arte como terapia.

Vemos e ouvimos uma pessoa que deixa evidente seus problemas já com sua fala pausada, por vezes enervante, mas que exala uma bondade, uma simplicidade, uma humanidade de se tirar o chapéu. Mindy aborda sua relação com seu pai e com sua mãe, informando-nos francamente do que só pode ser a origem de suas doenças com uma tranquilidade e uma serenidade que não deixam ninguém incólume. Mesmo quando ela lida com sua percepção sobre situações complicadas, duras, ela o faz de forma natural e sem nem de longe passar a sensação de que ela está culpando alguém. Muito ao contrário, o que Mindy mais quer na vida parece ser algo tão simples e ao mesmo tempo tão difícil: ser amada.

Frank Stiefel, que dirigiu o curta, na maior parte da projeção não perde seu foco na artista. Ela é o centro de suas atenções, ainda que, claro, sua arte – desenhos e esculturas em papel machê – ganhe merecido destaque exatamente por ilustrar tão bem o que se passa na mente dessa mulher que considera o tráfego infernal na famosa rodovia 405, do sul da Califórnia, um “paraíso”. Quando o diretor dedica tempo a outras entrevistas, inclusive com a própria mãe de Mindy, ele, porém, não alcança o mesmo resultado, gerando uma redundância que poderia ter sido facilmente evitada. Mindy é mesmo a atração e ela, sozinha, é uma lição de vida, alguém que demonstra uma lucidez dolorida, uma memória fragmentada exasperante e, acima de tudo, uma aparente bondade sem limites.

O documentário é um relato honesto sobre a mente humana e sobre essa figura extraordinária que é Mindy. Ao longo de 40 minutos, mesmo que seja possível entrever a maldade humana no que ela relata, o que fica para o espectador é a pureza de uma mulher que não quer mais do que ter amigos que gostem dela. Quem dera que todos nós apenas quiséssemos isso…

Direção: Frank Stiefel
Com: Mindy Alper, Barbara Alper, AJ Alper, Susie Boyajan, Brad Bolton, Shoshanna Gerson
Duração: 40 min.

Edith+Eddie
(EUA – 2017)

Perdi a objetividade.

Cada vez mais eu concluo que o ser humano é principalmente egoísta. De coisas triviais do dia-a-dia como jogar lixo na rua ou não ficar do lado direito na escada rolante, até questões mais sérias como a retratada neste tocante documentário em que um casal idoso (95 e 96 anos) fica à mercê de uma escumalha que quer separá-los por mesquinharia, vejo-me cercado por um mundo que só olha o próprio umbigo e que não está preocupada como nada além do que o que está imediatamente ao seu redor.

Edith e Eddie se conheceram jogando loteria e ganharam 5 mil dólares com o jogo dele a partir do número dela e, desde então, estão juntos e casados, felizes da vida. Mas Edith é diagnosticada com demência leve (afinal, ela tem quase 100 anos!) e, como suas filhas não chegam a um acordo, uma guardiã é nomeada para cuidar de Edith, guardiã essa (Jessica Niesen) que nunca sequer viu Edith na vida e que está claramente mancomunada com Patricia, que quer levar a mãe para a Flórida de forma a ter controle sobre ela e sua herança, composta não de uma dinheirama infindável, mas sim de uma modesta casa e alguns outros pertences.

Foram 29 minutos torturantes em que minha bile ferveu e eu tive a sincera vontade de stalkear Jessica e Patricia online ou contratar alguém para transformar a vida das duas em pesadelos constantes. Sério. Não sou um cara lá muito delicado, mas Edith+Eddie exigiu demais de mim para eu sequer conseguir terminar de assisti-lo sem quebrar minha televisão e uma análise fria e técnica – como um crítico deveria tentar fazer – é absolutamente impossível. Portanto, se quiserem uma, terão que procurar em outro lugar e eu peço desculpas de antemão.

Edith+Eddie cava fundo na podridão humana e eu preferia ter continuado na completa ignorância. E isso é razão suficiente para deixar claro que o documentário é absolutamente imperdível. Paradoxal, eu sei. Mas ainda estou me recuperando da raiva que sinto ao digitar essas palavras…

Direção: Laura Checkoway
Com: Edith, Eddie, Patricia, Jessica Niesen
Duração: 29 min.

Heroin(e)
(Heroína(s), EUA – 2017)

Em Huntington, na Virgínia Ocidental (West Virginia), estado americano na região dos Apalaches, a praga de opioides é impressionantemente letal. Lá, as overdoses acontecem em uma proporção 10 vezes superior à média nacional e, em meio a esse cenário quase pós-apocalíptico, Heroína(s) tenta narrar a história de três mulheres que lidam com o dia-a-dia tenebroso que uma cidade como esse grau avançado de problema com drogas pode proporcionar.

Jan Rader é a recém-empossada chefe do departamento de bombeiros que cruza a cidade várias vezes diariamente para dispensar seus cuidados em casos emergenciais. Necia Freeman é representante da Brown Bag Ministry, organização de caridade de cunho religioso que foca no apoio aos desabrigados, doentes e famintos. E, finalmente, Patricia Keller é uma juíza do chamado “tribunal de drogas”, que tenta balancear punição com reabilitação dentro do que é humanamente possível. As três, juntas e separadamente, são incansáveis em seu trabalho insano para tentar contribuir para a reversão de um quadro quase inacreditável, especialmente se considerarmos que estamos falando de um país desenvolvido.

O documentário é muito eficiente em pintar essa situação calamitosa da cidade e em deixar muito claras as funções de cada uma das heroínas que enfoca. No entanto, a câmera da diretora Elaine McMillion Sheldon enamora-se mesmo é de Jan Rader. É ela que abre e fecha o curta, permeando-o constantemente. As demais – Patricia e Necia – parecem estar ali apenas para “compor o cenário”, ganhando pouquíssimo destaque. Não é um problema muito grave, mas a grande verdade é que esse desequilíbrio, de certa forma, fere a proposta do trabalho, que tenta montar um quadro mais amplo das drogas, que vá além de lidar com as emergências e acaba, assim, falhando razoavelmente. Não fosse a presença realmente magnética de Rader e bons momentos irônicos com a juíza durante algumas sessões de julgamento, esse ponto negativo que levantei seria muito mais saliente.

Heroína(s) apresenta o problema, encaminha a solução do dia-a-dia encapsulada na atuação rígida, mas humana de Jan Rader, mas acaba deixando o espectador em uma espécie de limbo. Claro que uma “solução” não era esperada, mas, ao jogar a construção de Patricia e Necia para escanteio, Sheldon acabou perdendo a oportunidade de tratar da questão de maneira mais ampla e completa.

Direção: Elaine McMillion Sheldon
Com: Jan Rader, Patricia Keller, Necia Freeman, Najah Menapace, Scott Lemley, Nickey Watson
Duração: 39 min.

Knife Skills
(EUA – 2017)

Se tem um tipo de programa que eu odeio na televisão é o reality show ou “série não roteirizada” se é que alguém realmente acredita que não há roteiro ou interferência da produção em cada detalhe. Seja ele um jogo de voyeurismo em uma casa cheia de gente desconhecida se achando importante, seja uma competição para encontrar a/o noiva(0) ideal ou até mesmo uma frugal competição culinária, considero a praga de reality shows o equivalente à Peste Negra para a massa cinzenta. Já destilei meu vitriol sobre o assunto nas críticas de UnReal, para quem tiver interesse.

Mas porque estou soltando o verbo sobre reality show em uma crítica de um documentário em curta metragem, vocês perguntarão. Simples. Por mais bem intencionado que Knife Skills seja, ele não passa exatamente disso: um episódio de reality show sobre culinária. Vejamos a história. O restaurante Edwins, em Cleveland, de culinária francesa, precisa abrir em apenas seis semanas e é esse tempo que toda a equipe abaixo do sous-chef tem para aprender todas as habilidades necessárias para tornar isso possível, desde os nomes das regiões vinícolas da França, passando pela capacidade de explicar o buquê e a composição do gosto de cada vinho, até como cortar carne, peixe e outros frutos do mar, com todas as suas especificidades e reações químicas ao serem cozinhados junto com o ingrediente X ou Y. Ou seja, o que muita gente levaria anos para aprender, um grupo selecionado de pessoas tem apenas alguns dias, sempre sob o comando geral do gerente do estabelecimento.

Até aí, nada diferente de qualquer reality show de culinária. O que traz o “toque” que retira Knife Skills do completo lugar-comum é que todos os empregados do Edwins são ex-presidiários que, com o curso, ganham uma segunda chance na vida. O gerente, aliás (Brandon Chrostowski), também já teve seus sérios problemas com a Justiça e foi a partir daí que ele resolveu criar esse programa de reabilitação de ex-presos, algo extremamente louvável e que, pelo que o curta mostra, tem dado muito certo. O problema, porém, não está exatamente no conteúdo, mas sim na forma de execução. Thomas Lennon formata seu filme exatamente como um reality show, ou melhor, como um episódio solto de um reality show. Com isso, ele parte para criar tensões bobas do tipo “será que ele consegue?” e mistérios sobre o sucesso ou não do restaurante em sua noite de abertura. Mais problemático ainda é que, em 40 minutos não há tempo hábil para que criemos empatia com a história de quem quer que seja. Tudo é muito rápido, jogado, sem começo ou fim, quase que como um resumo mal feito de algo muito maior.

Knife Skills exala boas intenções, é eficiente em mostrar que segundas chances são realmente importantes e que o sistema penitenciário americano (ou qualquer um, para dizer a verdade) é cruel, mas não consegue ser mais do que algo solto e perdido em gerar aquela conexão humana necessária em obras como essa. É um documentário que parece apressado e que atira para vários lados sem se fixar em nada que não seja sua lição maior, passada nos primeiros cinco minutos. Lennon teria feito um serviço muito maior ao programa do Edwins se tivesse fugido de um formato apelativo e que nem faz muito sentido aqui.

Direção: Thomas Lennon
Com: Brandon Chrostowski, Marley, Alan
Duração: 40 min.

Traffic Stop
(EUA – 2017)

Traffic Stop usa a integralidade da angustiante filmagem da câmera do painel de uma viatura policial para ilustrar um episódio de brutalidade policial nos EUA contra afro-americanos. Trata-se de um episódio com um fim não trágico, ainda que obviamente traumatizante, que mostra a tensão existente tanto de um lado quanto de outro, com a vítima constantemente desconfiada do policial e o policial muito claramente deixando transparecer preconceito racial.

O caso envolve Breaion King, professora em uma escola no Texas que, há três anos, foi parada pelo policial Bryan Richter sem uma razão aparente. Ela a segue por um tempo e, quando ela estaciona seu carro em um shopping center, ele a aborda, pedindo para ela voltar ao automóvel. A partir daí, a história escala rápida e dramaticamente e King acaba presa e, no banco de trás da viatura, ela ainda tem sangue frio para iniciar uma conversa sobre preconceito racial com seu algoz. As filmagens são sintomáticas e revelam no detalhe um problema que sem dúvida pode ser chamado de endêmico e não só nos EUA (antes de vilanizarmos um país inteiro, devemos olhar para nossos próprios umbigos).

De forma a rechear seu documentário, a diretora Kate Davis faz uso de entrevistas com King que, porém, apenas ilustram com mais detalhes seu histórico, enfatizando sua educação e perigosamente resvalando na conclusão de que somente negros bem educados e com Ph.Ds não merecem sofrer preconceito. Claro que Davis não quis dizer isso, mas o foco nesse ponto incomoda e não permite uma visão realmente mais ampla do problema. Por outro lado, o depoimento de Richter é muito interessante. Ele é sincero sobre o que aconteceu em relação ao que vimos em câmera – ele teria que ser um lunático para contar outra história -, mas é perfeitamente possível ver, bem nas entrelinhas, seu preconceito, mesmo que ele faça esforço para passar outra imagem. São os detalhes que assustam mais do que a violência com que King foi algemada e presa.

Há uma sensação de fim abrupto no curta, porém. Claro que a ação movida por King contra a polícia ainda não chegou ao seu fim e não poderia mesmo haver uma conclusão definitiva, mas o documentário em si parece permitir que sua fonte seque muito cedo, deixando de expandir a questão de maneira mais ampla e menos voltada exclusivamente para os depoimentos atuais da vítima. Ainda que Kate Davis passe seu contundente recado, fica a sensação de que mais poderia ter sido feito sobre essa delicada e importantíssima matéria.

Direção: Kate Davis
Com: Breaion King, Bryan Richter
Duração: 30 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.