Crítica | Curtas do Oscar 2018: Live-Action

Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Curta Metragem (Live-Action) em 2018 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia):

DeKalb Elementary
(EUA – 2017)

Assisti DeKalb Elementary poucos dias depois do massacre na escola de Parkland, na Flórida, em que um homem com problemas mentais matou 17 jovens com um rifle de assalto AR-15. O curta, obviamente produzido bem antes de mais esse episódio trágico e assustador, lida exatamente com a mesma situação: um jovem claramente com problemas psicológicos invade a escola do título com um rifle de assalto (creio que um AR-15 mesmo) e aterroriza o local. Mas o filme, escrito e dirigido por Reed Van Dyk, restringe a ação à recepção da escola e a basicamente dois personagens: o atirador e a recepcionista.

Sem fazer sensacionalismo, o que vemos é uma história muito humana em que o algoz é também vítima e a recepcionista Lakisha (Shinelle Azoroh) tenta, canalizando uma calma transcendental, contemporizar a situação e chegar a um final sem mortes, sem danos mais profundos do que o já causados até aquele ponto. É para conseguir lidar com esse intimismo (além de questões orçamentos e de duração do curta, claro) que o diretor limita os acontecimentos à recepção, mantendo sua câmera basicamente no rosto de seus dois personagens, o que imediatamente cria conexão entre eles e nós com eles, inclusive o atirador, muito mais um garoto com sérios problemas do que alguém que queira causar algum mal. Com isso, Van Dyk não quer passar a impressão de a culpa é do “doente mental” ou “da arma” ou da “insegurança” ou de algo ou alguém em particular, mas sim de um conjunto maior de circunstâncias que talvez fujam do controle de todos os envolvidos, inclusive das pessoas que não vemos aqui, como os pais do jovem, dos políticos, das autoridades, dos lobistas.

Simultaneamente, mesmo que as intenções imediatas do atirador sejam apressadamente reveladas já nos cinco minutos iniciais de projeção, o que arrefece substancialmente a narrativa, ainda que fuja do que esperamos, o diretor constrói uma boa ponte que nos faz temer pelo jovem perturbado mais ainda do que pela forte Lakisha. Considerando que suas atitudes são quase que aleatórias, nervosas e impacientes, não temos certeza do que pode vir logo em seguida ainda que as linhas gerais dos acontecimentos já tenham sido estabelecidas. Da mesma forma, a empatia de Lakisha pelo atirador é palpável e louvável, ainda que não particularmente bem trabalhada. Talvez uma montagem que estabelecesse uma dilação temporal substancialmente maior, mas que mantivesse a duração da obra dentro da casa dos 20 minutos tivesse contribuído para um curta mais redondo.

Ao relativizar um evento dessa magnitude e trabalhá-lo sob uma perspectiva micro e intimista, DeKalb Elementary foge do que poderia ser um semi-documentário que tristemente relata algo que se tornou lugar-comum nos EUA. Se o enfoque diferente é sua vantagem, a velocidade com que os eventos parecem transcorrem é sua falha, ainda que, no final das contas, o saldo seja muito positivo.

Direção: Reed Van Dyk
Roteiro: Reed Van Dyk
Elenco: Shinelle Azoroh, John Brockus, Michael Brown, Chuck Cobb, Deloris Crenshaw
Duração: 21 min.

The Eleven O’Clock
(Austrália – 2016)

De todos os curtas live-action que concorrem ao Oscar, o australiano The Eleven O’Clock é o único que não tem uma mensagem maior ou uma lição edificante a passar. Mas isso, de forma alguma, diminui essa excelente comédia escrita por Josh Lawson e dirigida por Derin Seale. Nela, vemos um psiquiatra (Terry Phillips, vivido por Lawson) recebendo um paciente que acha que é um psiquiatra. E a pergunta que é feita a todo o tempo e serve de gag matriz é: afinal, quem é o psiquiatra e quem é o paciente?

Com um roteiro ágil e esperto, Lawson estabelece a inusitada situação – que começa com uma secretária temporária (Linda, vivida por Jessica Wren) apresentado-se a seu chefe – no primeiro minuto de projeção, logo trazendo para a história o tal paciente/psiquiatra Nathan Klein (Damon Herriman) que passa a travar hilários e kafkianos diálogos com Phillips. A química antitética entre os dois atores é imediata e explosiva, com ambos claramente se divertindo demais com cada situação, valendo especial destaque para o momento em que os dois disputam o “controle” de um teste de associação de palavras.

Claro que o espectador mais cético logo considerará a situação como um todo impossível e facilmente desvendável, mas o design de produção é cuidadoso em cada elemento que vemos em cena, do figurino à disposição dos objetos sobre a mesa do médico, passando pelos quadros pendurados na parede. Portanto, não é uma questão de verossimilhança ou plausibilidade, mas sim de uma construção narrativa feita para divertir a partir de uma premissa que não se sustentaria, de forma alguma, fora de um curta de meros 13 minutos (o menor dos cinco concorrentes, vale lembrar). Mas a “data de expiração” do que Lawson escreve é claramente proposital, com o roteirista mais do que ciente desse aspecto e tirando proveito dele.

A direção de Derin Seale doura a pílula e trabalha planos-detalhe que focam no andar da secretária, nos rostos incrédulos e irritados de cada ator e em alguns elementos de cenário para criar um invólucro que quase emula filmes de suspense, amplificando a dúvida do espectador sobre quem é quem nesse imbróglio psiquiátrico. Leve e agradável, The Eleven O’Clock é um bem-vindo curta daqueles descompromissados, mas tecnicamente irretocável.

Direção: Derin Seale
Roteiro: Josh Lawson
Elenco: Josh Lawson, Damon Herriman, Eliza Logan, Alyssa McClelland, Gregory j Thorsby
Duração: 13 min.

My Nephew Emmett
(EUA – 2017)

Em agosto de 1955, perto de Money, no Mississippi, o jovem negro Emmett Louis Till, originalmente de Chicago, estava visitando seus parentes quando, de madrugada, homens brancos, acusando-o de ter importunado uma mulher branca, o levaram da casa de seu tio Mose Wright, de 64 anos. O resto é história e, se o espectador nunca ouviu falar de Till ou do que aconteceu – e que pode ser facilmente deduzido pelos elementos contidos em minha frase introdutória – então My Nephew Emmett é uma obra obrigatória.

Ou, na verdade, ela é obrigatória de toda forma. O curta, dirigido e escrito por Kevin Wilson Jr., reconstrói esse famoso evento na história da luta pelos direitos civis dos afro-americanos nos EUA em detalhes angustiantes e a partir do ponto de vista de Wright, interpretado melancolicamente pelo magérrimo L.B. Williams. A dureza de sua vida na área rural em que vive com sua esposa e filhos é claramente marcada pelo seu rosto vincado e cansado, mas que também deixa entrever, pelo menos antes do catalisador dos problemas com seu sobrinho Emmett chegar a seus ouvidos. É um homem próximo demais dos horrores da escravidão para ver qualquer semblante de final feliz para o que inevitavelmente está para acontecer. E o diretor e roteirista de forma alguma tenta esconder isso dos espectadores, construindo vagarosamente uma narrativa finalista e pesada.

Esse peso é sentido pela bela fotografia noturna e sombria tanto nas tomadas externas quanto nas internas, as primeiras com iluminação mínima e natural e, as demais, com o uso de superfícies reflexivas que não parecem intrusas no cenário espartano, demonstrando um bom comando da técnica. A paleta de cores, tendente aos tons de azul e cinza, por vezes dá espaço para um amarelo febril que parece querer transparecer a podridão daquela situação insustentável que eles vivem e, mais ainda, representam. É como ver um retrato putrefazendo-se diante de nossos olhos, sem que possamos fazer absolutamente nada para reverter o processo.

My Nephew Emmett é uma pequena obra-prima que não passa verniz no que quer contar  e nem facilita nada ao espectador. É a verdade nua e crua pela visão de Wilson Jr. pelos olhos de Wright – a única correta, sejamos sinceros – que machuca e enoja e nos pede que nunca esqueçamos. E esquecer, depois de transcorridos os 20 minutos do curta, é impossível.

Direção: Kevin Wilson Jr.
Roteiro: Kevin Wilson Jr.
Elenco: L.B. Williams, Joshua Wright, Dorian Davis, Jasmine Guy, Emily Hooper
Duração: 20 min.

The Silent Child
(Reino Unido, 2017)

The Silent Child advoga fortemente por uma causa nobre: a inclusão da linguagem de sinais como parte do currículo de escolas, para permitir a completa inclusão daqueles que sofrem de surdez. Mas, ao mostrar sofreguidão para abordar assunto tão delicado, o roteiro de Rachel Shenton e a direção de Chris Overton pesam demais a mão no aspecto propagandístico da obra, afastando o espectador do que poderia muito facilmente ser um filme muito bom.

Afinal, o drama vivido pela menina Libby (Rachel Fielding, surda na vida real), que vive uma vida fechada e solitária em meio ao seu seio familiar em razão de sua limitação física, passa a receber tutoria especializada de Joanne (a própria Shenton) e, aos poucos, vai se abrindo para o mundo e percebendo que seu isolamento pode ser quebrado, é perfeitamente relacionável desde seus minutos iniciais. Impossível não emocionar-se com a garota tendo seus arredores amplificados por meio de bem construídas elipses estabelecidas pela montagem ou com a felicidade de Joanne nesse processo libertador. As duas atrizes têm performances muito bonitas e estabelecem imediatamente uma gostosa química que é ajudada pelos enquadramentos estilosos de Overton, que, porém, por vezes exagera nas invencionices.

No entanto, a resistência da mãe de Libby aos ensinamentos de Joanne – ela prefere que a tutora foque na leitura labial, algo que muito obviamente não permite verdadeira interação da menina com o mundo – estabelece a origem do conflito e catalisa a trama. É aí, porém, que o roteiro começa a revelar seu caráter extremamente didático e professoral, caminhando para o lado de propagando que mencionei acima. Não quero de forma alguma desdizer a lição que o curta passa, até porque me falta conhecimento técnico na área, mas o texto começa a ganhar contornos exageradamente teatrais, como se os personagens estivessem parando, olhando para a câmera e dizendo ao espectador aquilo que está acontecendo visualmente. A redundância é desnecessária e, mais ainda, a doçura de Libby e Joanne é quebrada nesses momentos expositivos.

A causa de The Silent Child é importante e relevante, mas um filme é um filme, não uma peça publicitária. Ao quebrar a estrutura que vinha sendo construída, o curta cai por terra tecnicamente, ainda que, lógico, continue válido em termos de performance da dupla principal e de mensagem. Uma pena que Shenton e Overton não tenham conseguido elevar sua obra a patamares mais altos.

Direção: Chris Overton
Roteiro: Rachel Shenton
Elenco: Rachel Shenton, Rachel Fielding,  Maisie Sly, Anna Barry, Philip York
Duração: 20 min.

Watu Wote:All of Us
(Alemanha/Quênia – 2017)

Assim como em My Nephew Emmett, Watu Wote é o reencenamento de eventos da vida real que abordam o preconceito. Enquanto lá a questão era racial, aqui ela é religiosa, lidando com o eterno conflito entre visões radicais e estúpidas de crenças, no caso o Cristianismo e o Islamismo. Impressionante projeto de graduação de Katja Benrath perante a Hamburg Media School, o curta se passa na perigosa região do Mandera, fronteiriça entre o Quênia, Etiópia e Somália, em que a minoria cristã é constante alvo de ataques dos mais diversos da maioria muçulmana.

Na história, que aconteceu em 2015, Jua (Adelyne Wairimu) é uma mulher cristã que pega um ônibus para voltar para a casa de sua mãe, em uma quase inconcebível viagem de 31 horas no meio de coisa nenhuma, com lugar nenhum. Quando o ônibus é cercado por radicais islâmicos que querem fuzilar todos os cristãos, sua única chance de salvação são os próprios islâmicos no veículo. Para fazer o filme funcionar, Benrath começa com calma, construindo Jua desde a noite anterior, preparando-se para a viagem em meio a demonstrações de preconceito e violência. Aos poucos, vamos entendendo quem exatamente ela é e o que ela sente em relação aos islâmicos ao seu redor e verificamos sua dor e, também, seu próprio preconceito.

Durante a viagem, a diretora não demonstra pressa, decisão acertada para não ser obrigada a protrair demais o clímax, o que poderia vitimar a própria história que deseja contar, com inevitáveis exageros dramáticos que certamente soariam deslocados. Vagarosamente, com detalhes aqui e ali, como a mulher com filho pequeno que senta a seu lado ou o vendedor de água, o quadro geral é pintado em mais detalhes e o roteiro a seis mãos de Julia Drache, Alexander Ikawah e Brian Munene insere doses de suspense e tensão sem, porém, fazer uso de mais do que meia dúzia de palavras e frases cirúrgicas aqui e ali que existem muito mais para tornar tudo mais natural, já que, aqui, certamente uma imagem vale mais do que mil palavras.

Um ônibus no meio do deserto em um episódio largamente desconhecido do público em geral, encapsula à perfeição o clima hostil de uma região miserável e, mais amplamente ainda, a incapacidade do ser humano de aceitar o outro como ele é, sempre tentando impor sua visão de mundo. Watu Wote, porém, mostra que a intolerância religiosa tem cura. Basta abaixarmos o véu e enxergarmos o rosto do ser humano ao nosso lado.

Direção: Katja Benrath
Roteiro: Julia Drache, Alexander Ikawah, Brian Munene
Elenco: Barkhad Abdirahman, Adelyne Wairimu, Faysal Ahmed, Mahad Ahmed, Abdiwali Farrah
Duração: 22 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.