Crítica | Curtas Laugh-O-Grams

“Tudo começou com um camundongo” é uma frase impactante, que nos faz relacionar o “começo” do estúdio de animação mais famoso do mundo com o personagem de animação mais famoso do mundo. Apesar de significativo historicamente, sendo o pontapé para o sucesso estrondoso que Walt Disney, Ub Iwerks e companhia cultivariam ao longo de suas vidas, Mickey Mouse não tem nada de começo. Cavando mesmo o passado de Disney, não tão distante do revolucionário Steamboat Willie, chegamos aos estúdios Laugh-O-Grams, uma empreitada de curta duração, mas importantíssima para todo o futuro da animação. Após a origem de quatro curtas de menos de um minuto de duração, sem fins narrativos, denominados Newman Laugh-O-Grams, era hora de um filme “de verdade” ser produzido, e então, baseados em contos de fada, um total de sete animações sob o selo Laugh-O-Grams foram criadas. Enquanto alguns desses curtas foram dados como perdidos por muito tempo, outros se mantiveram presentes durante a história, guardados como relíquias. Felizmente, a maior parte já foi recuperada, tornando-se acessível ao público. A exceção é de Jack and the Beastalk e Goldie Locks and the Three Bears, curtas que não foram encontrados digitalmente, mas que, aparentemente, já foram recuperados e restaurados por acervos de cinema e museus.

A começar, o primeiro de todos eles, Little Red Riding Hood, conta uma versão mais realista – e mais perversa – da Chapeuzinho Vermelho, com possíveis indícios subtendidos de estupro. De fato há muito a ser aplaudido sobre esses trabalhos, mas julgá-los como produtos contemporâneos é impossível, e nada disso será feito nessa crítica, que tem mais caráter analítico do que tudo. O que se tem para louvar dessa primeira incursão de Disney em uma narrativa animada é basicamente a sua própria natureza de “o início de tudo”. De resto, temos uma história bem resumida, mas, estranhamente, muito mais pautada na realidade. O Lobo-Mau sai e entra uma figura humana, igualmente maligna. Na técnica, se tem alguns traços mais complexos, como os vistos no carro do vilão e seu jeitinho personificado, típico de uma época que não se preocupava com a barreira entre o animado e o inanimado. Todavia, o restante é simplérrimo. Julius, the Cat, personagem recorrente desses primeiros anos de “Disney”, não tem nenhum papel no storytelling, apesar dessa ser sua introdução oficial, mesmo sem ter ganhado um nome. The Four Musicians of Bremen, por outro lado, traz um texto inicial válido, que situa o espectador diante das imagens que estão por vir. A seguir, vemos uma animação feita com mais esmero, com gradações entre o preto e branco necessárias para distinguirmos o que está em cena. Em Little Red Riding Hood, por exemplo, a paisagem de fundo facilmente poderia ser confundida com algo em primeiro plano. Curioso, porém, que as datas de lançamento dos curtas estejam tão próximas, embora a qualidade tenha crescido evidentemente. A primeiríssima das animações feitas por Walt Disney, porém, passou muito tempo considerada como perdida, tendo sido descoberta no final da década de 90. Talvez esse tenha sido o resultado da restauração?

De qualquer forma, temos uma coleção de curtas que encantam pela história que carregam, acima de tudo. Mas há coisas boas, compensando-nos com um uso descompromissado de personagens para alívios cômicos sem conexão com a “trama”. A diversão leve pela diversão leve. No mais, Cinderella é um filme a prenunciar o clássico animado de 1950, mesmo que há ainda inconsistências na animação, que a tornam definitivamente primitiva se comparada com obras criadas não muito tempo depois. Quebras de fluidez na técnica são facilmente perceptíveis. Assim como The Four Musicians of Bremen, Puss in Boots e Jack the Giant Killer são os pontos altos de uma seleção que, infelizmente, não há como estar completa. A adesão da equipe por diálogos escritos não demonstra muita habilidade em se passar o que precisa ser dito apenas pela imagem; no início dos anos 20, o som não poderia fazer muito pelos animadores. Continuando a aparecer com mais e mais frequência, Julius prova ser uma versão genérica do Gato Félix, ora coadjuvante, ora figurante e ora protagonista. Não é à toa que fora esquecido com o tempo, depois de seu estrelato ser alcançado com as Alice Comedies. A questão maior é que, embora tenha os títulos de histórias famosas da época, Disney e os demais não estavam preocupados em seguir os plots originais. Tudo era mutável em um espetáculo cartunesco. Em suma, dentre todos, The Four Musicians of Bremen continua sendo uma introdução muito interessante a uma era de curtas animados repletos de divertimento, imagens saltando na tela a todo vapor e dinamismo, quase enlouquecido. Itens clássicos de outrora.

Chapeuzinho Vermelho, Os Quatro Músicos de Bremen, Puss in Boots, Cinderella e Jack , the Giant Killer (Little Red Riding Hood, The Four Musicians of Bremen, Puss in Boots, Cinderella and Jack the Giant Killer) – EUA, 1922
Direção:
Walt Disney
Roteiro: Walt Pfeiffer
Animação: Rudolph Ising, Carman Maxwell, Ub Iwerks, Hugh Harman, Otto Walliman, Lorey Tague, Walt Disney
Duração: por volta de 7 minutos, em média

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.