Crítica | Curtas-metragens de Wes Anderson

Wes Anderson começou a sua carreira com um curta-metragem chamado Bottle Rocket, que apesar de ter sido concluído e 1992, só viria a ser “lançado oficialmente” dois anos depois, no Sundance Film Festival in Park City, Utah.

A partir desse início, o diretor priorizaria os longas-metragens, mas jamais abandonaria as pequenas crônicas cinematográficas. E é sobre elas que se trata esse bloco de críticas.

.

Bottle Rocket

estrelas 4,5

Wes Anderson e os irmãos Luke e Owen Wilson tinham menos de 25 anos cada um quando realizaram Bottle Rocket, em 1992. A ideia original do curta, escrito por Owen e Anderson, era a de explorar a banalidade do crime realizado por bandidos sem ambição, uma espécie de vagabundo ou criminoso que qualquer pessoa poderia facilmente se afeiçoar ou “tentar entender”, segundo alguns parâmetros bem conhecidos da Sociologia do século passado.

Filmado em preto e branco e com um predominante jazz na trilha sonora, o filme lembra bastante um experimento da Nova Hollywood, com reflexos estilísticos nouvellevagueanos, especialmente na direção, que pende para o descontínuo e abrupto na narração da crônica, uma forma de mais sugerir ao espectador do que mostrar-lhe.

O filme funciona bem justamente pela simplicidade – que é falsa: na verdade, a obra possui um preciso e difícil caminho narrativo, acompanhando de modo quase displicente os atos dos protagonistas, que parecem crianças grandes com um tipo de brinquedo que não deveriam brincar.

O roteiro explora a contento cada um deles (não são muitos), não deixando-os livres de motivos ou de ausência deles para agirem de determinada forma. Ao término do curta, percebemos a brincadeira com clichê dos atos executados e o teor de “diário de vida” impresso nas entrelinhas.

Com ótimas atuações dos irmãos Wilson e de Robert Musgrave, Bottle Rocket abre com chave de ouro a carreira cinematográfica de Wes Anderson. Quatro anos depois, o diretor usaria desse mesmo argumento e, com os mesmos atores, realizaria o seu primeiro longa-metragem, de título homônimo (aqui no Brasil, chamado de Pura Adrenalina).

Bottle Rocket (EUA, 1992)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Owen Wilson, Wes Anderson
Elenco: Owen Wilson, Luke Wilson, Robert Musgrave, Elissa Sommerfield, Isiah Ellis, Temple Nash, Briggs Branning, Antonia Bogdanovich
Duração: 13 min.

.

Hotel Chevalier

estrelas 4,5

Hotel Chevalier antecede os acontecimentos de Viagem a Darjeeling, ao menos em tese. Mas não se preocupe. Um filme não interfere no outro, nada além do plano artístico, algo que Anderson planejou mais como uma extensão passada da alma de um dos três irmãos que vemos em Darjeeling.

Há muita coisa interessante nesse curta. Em primeiro lugar, é importante ter em mente que o diretor já tinha um estilo bastante definido quando o dirigiu, então, todo o processo de cores, planos, ângulos e música possuem um sentido amplo, melhor compreendido se você já sabe que é através das sugestões que o cineasta trabalha.

Toda a história de Hotel Chevalier acontece dentro de um quarto do referido hotel. Um casal já separado se encontra e uma tensão libidinosa e confusa, caótica e instigante se estabelece entre os dois. Não é possível definir em poucas palavras a quantidade de coisa que o filme desperta, porque isso vai de espectador para expectador, mas vale dizer que Wes Anderson tentou aqui uma curiosa experiência visual-sensitiva e foi plenamente bem-sucedido. Inicialmente, temos apenas Jack, de roupão amarelo e imerso em um quarto totalmente amarelo. Após o telefonema recebido por sua ex(?)namorada, ele passa a se produzir para ela, a arrumar o espaço, a programar coisas.

E é aqui que algo nos chama atenção. Existe uma espécie de inversão de comportamento socialmente pré-definido entre o casal. Jack traz cabelos relativamente longos, exibe uma notável sensibilidade e carinho, prepara-se com cuidado para receber a ex(?) namorada e escolhe uma música (que depois nunca sai da nossa cabeça)…

Já a garota (a bela Natalie Portman, cuja nudez já valeria o filme inteiro) tem cabelos curtos, leva flores, possui um comportamento instintivo mais à flor da pele, toma a iniciativa para o sexo (ou pelo menos o super-aflorar da libido, to tato, do corpo nu – uma vez que não sei se podemos chamar o que acontece ali de sexo) e é completamente desapegada ao parceiro…

Essa inversão de personalidades esperadas traz, em perspectiva, uma visão de transformação. A visita da garota ao quarto do hotel mergulhado em amarelo toca a ambos e, mesmo que o curta termina com uma ação em suspenso (quase uma sutil reticência), temos certeza de que independente do que acontecerá em seguia, ambos os personagens terão passado por mudanças internas.

Hotel Chevalier (EUA / França, 2007)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson
Elenco: Jason Schwartzman, Natalie Portman, Waris Ahluwalia, Michel Castejon
Duração: 13 min.

.

Cousin Ben Troop Screening with Jason Schwartzman

estrelas 4

Cousin Ben Troop Screening with Jason Schwartzman é uma pequena brincadeira escrita por Wes Anderson e Roman Coppola como apresentação do longa Moonrise Kingdom. O pequeno curta se passa num ambiente bastante similar ao que será trabalhado em Moonrise – como é possível ver na foto de destaque – e o tom de humor impera no roteiro, um tipo de humor também bastante parecido com o que vimos no longa.

Mesmo tão curto e sem grandes ambições, o filme cumpre o papel de apresentar a “atração” seguinte e ainda tem o bônus de trazer características próprias do cinema de Wes Anderson, que seria um excelente publicitário, por sinal, a tirar pelo que ele apresentou de propaganda ou “anúncio” de seu próprio filme nesse adorável prólogo.

Cousin Ben Troop Screening with Jason Schwartzman (EUA, 2012)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola
Elenco: Jason Schwartzman, Aidan Foley, L.J. Foley, Liam Foley, Charlie Kilgore, Gabriel Rush, Jake Ryan
Duração: 2 min.

.

Prada: Candy  /  Castello Cavalcanti

castelo

Em 2013, a Prada contratou Wes Anderson para realizar dois filmes de propaganda. O primeiro deles foi Castello Cavalcanti, que se passa em 1955, na Itália. O segundo, Prada: Candy, que traz uma ótima história, centrada num triângulo amoroso entre dois rapazes e uma garota, trio formado por Peter Gadiot, Rodolphe Pauly e a irresistível Léa Seydoux.

Como não se tratam de curtas-metragens cinematográficos e sim de campanhas publicitárias, vou apenas comentar brevemente sobre eles. Em relação à avaliação, creio que ambos são excelentes produtos de marketing. A belíssima fotografia de Darius Khondji em ambos os curtas e a direção de Anderson – com todos os ingredientes comuns de seu estilo, só que fora de um contexto que lhe é próprio, por motivos óbvios – tornam os esquetes agradáveis de se ver e com certeza cumprem o objetivo de produção.

No caso de Prada: Candy, temo o melhor elenco e a melhor história, que é dividida em três partes, todas elas finalizadas com o anúncio do perfume da Prada. Já em Castello Cavalcanti, a mensagem para a marca é menos ostensiva, a produção é muitíssimo superior, mas o elenco e o roteiro deixam um pouco a desejar.

Ambas as propagandas são realizadas com o rigor típico dos filmes de Wes Anderson, mas não possuem a costumeira qualidade dos curtas cinematográficos do diretor.

Prada: Candy  e  Castello Cavalcanti (EUA / Itália, 2013)
Direção: Wes Anderson e Roman Coppola  /  Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola
Elenco: Peter Gadiot, Rodolphe Pauly, Léa Seydoux / Jason Schwartzman, Giada Colagrande, Renato Agostini, Igino Angelini, Teodorico Arbore, Francesco Bonaccorso
Duração: 3 min. / 8 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.