Crítica | Curumim

estrelas 2

A prisão de Marco “Curumim” Archer em 2005, na Indonésia, por tráfico de drogas foi, por muito tempo, algo de interesse da mídia. O primeiro brasileiro a ser condenado à morte naturalmente geraria uma certa comoção, poucos esperavam, contudo, que ele ficaria doze anos no corredor da morte. Dirigido e roteirizado por Marcos Prado, responsável por Estamira e Paraísos Artificiais, o documentário Curumim nos traz um olhar sobre a vida de Archer na prisão, gravado através de uma câmera escondida pelo próprio Marco – além disso, vemos uma trajetória da vida dessa pessoa e o que levou até aquele ponto.

Não há como duvidar do teor da realidade mostrada nas imagens de Curumim. Através delas aprendemos mais sobre esses presídios de segurança máxima na Indonésia, que abrigam terroristas, traficantes e assassinos. É interessante enxergar essas figuras com um olhar mais casual, quase sempre acompanhando Archer, sentimos como se estivéssemos lá dentro, ele nos apresenta a cada um dos aspectos dessa vida e seu carisma dá mais que conta de nos manter entretidos. De fato, trata-se de uma pessoa que fizera todas as escolhas erradas, deixando seu passado de instrutor de asa-delta para trás, caindo na tentação das drogas – não como usuário (ainda que isso não estivesse fora do quadro) e sim como traficante.

O grande problema da obra de Prado não está no que é filmado pelo Curumim e sim na forma como vitimiza essa figura, que, de fato era, sim, um traficante. Antes que eu seja apedrejado, contudo, permita-me esclarecer: de forma alguma eu defendo a pena de morte, independente do país que estejamos falando – ser humano algum tem o direito de tirar outra vida; mas o encarceramento de Archer fora, sim, justificado. Nessa trajetória vemos como a jornada desse homem não fora somente flores, ela fora financiada pelo dinheiro que herdou da família e conseguiu através do tráfico em outros países, como os Estados Unidos. Não temos uma vítima aqui e sim alguém que se enterrou.

Focasse o diretor/ roteirista em toda a problemática da corrupção na Indonésia ou na forma como o corredor da morte não passa de uma extensa tortura, estaríamos diante de um documentário muito melhor. O que vemos, contudo, é uma forma de tentar nos fazer sentir pena dessa figura, através de uma trilha sonora dramática e cenas cômicas que demonstram a personalidade de Marco, que, de fato, sempre tivera condições na vida – ele nasceu com dinheiro e viajou o mundo todo – muito diferente do jovem que nasce na favela e é tragado para o mundo das drogas desde cedo em virtude de seu ambiente hostil. Mesmo a gigantesca dívida que adquiriu em virtude de seu acidente poderia ser facilmente paga com o valor de seu apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro, ao menos é o que o filme evidencia.

O foco de Prado fica evidente também pelos entrevistados escolhidos pelo cineasta. Todos são amigos ou familiares do Curumim. Em ponto algum vemos sequer uma tentativa de problematizar a pena de morte através de depoimentos do “outro lado”, daqueles que a defendem. Não escutamos seus motivos, o que os leva a continuar matando esses prisioneiros, sendo que, de fato, isso de nada resolve – afinal, o tráfico não parou na região não parou.

No fim, Curumim acaba se categorizando como um documentário feito especialmente para aqueles que conheceram essa personalidade, tenham sido amigos ou familiares, como uma forma de preservar a memória dessa pessoa. Mais que isso, porém, o filme simplesmente não funciona e não pelas filmagens de Archer – este reconhece que foram suas escolhas que o colocaram ali. O defeito está na falta de profundidade do longa-metragem, na tentativa de vitimizar o culpado e não de colocar em xeque os verdadeiros problemas: a corrupção, tortura física e psicológica e, é claro, a pena de morte.

Curumim — Brasil, 2016
Direção:
Marcos Prado
Roteiro: Marcos Prado
Com: Marco Archer
Duração: 102 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.