Crítica | Cutie and the Boxer

estrelas 4

“A vida imita a arte muito mais do que arte imita a vida.”
Oscar Wilde

Cutie and the Boxer é um documentário americano sobre dois artistas plásticos japoneses radicados em Nova Iorque que funde, à perfeição, a vida e a arte. Usando filmagens recentes e de arquivo do octogenário Ushio Shinohara e da sexagenária Noriko Shinohara, além de animações simples dos desenhos de Noriko, o diretor estreante Zachary Heinzerling (que também produz, escreve, faz a fotografia)  pinta um retrato íntimo do casal e acaba sendo muito bem sucedido ao celebrar algo tão raro nos frenéticos dias de hoje: uma vida inteira juntos, apesar de todos os pesares.

Ushio Shinohara é um daqueles artistas guturais, que pinta ou esculpe aquilo que vem à mente. Um de seus tipos de quadro, por exemplo, e que justifica o uso de “Boxer” (boxeador) no título do documentário, é uma grande tela em que ele, usando luvas de boxe com espumas para absorver tinta, golpeia-a com as mais variadas cores. Outros de seus trabalhos são esculturas feitas à base de cartolina pintada, muitas delas na forma de motocicletas estilizadas. Essa arte mais, digamos, “violenta e primitiva” de Ushio contrasta com a arte mais delicada de Noriko, sua esposa há 40 anos. Ela criou uma personagem chamada “Cutie” e, através dela (seu alter-ego), conta sua relação com o marido em quadros que lembram muito histórias em quadrinhos.

Os dois vivem sob o mesmo teto, em um sobrado que é ao mesmo tempo a casa e ateliê deles e sempre passaram – e aparentemente ainda passam – dificuldades financeiras. Mas tudo é tratado de maneira muito zen pelos dois, especialmente por Ushio que não parece se preocupar com absolutamente nada na vida a não ser com sua arte e com sua companheira. Apesar de ele ter sido famoso no cenário artístico na década de 70 tanto em Tóquio quanto em Nova Iorque, suas peças nunca venderam de verdade, sua arte nunca se converteu em dinheiro (a não ser o de subsistência) e ficou sempre nos belos, mas em última análise vazios elogios de publicações especializadas. Provavelmente esse é um dos fatores que levou Ushio ao alcoolismo e que fez com que seu filho, Alex, também artista, seguisse pelo mesmo caminho.

O grande alicerce dessa vida dedicada à arte é mesmo Noriko. É ela que demonstra e reconhece – com a proverbial paciência oriental – os problemas financeiros, os problemas com álcool do marido e mantém tudo em uma razoável ordem, evitando o caos total. Ela também quer um lugar ao sol, ser reconhecida por seu trabalho, mas as circunstâncias – especialmente uma gravidez cedo demais – a levou a sempre ficar à sombra do marido (e, provavelmente, o peso da cultura oriental também ajudou nessa aparente subserviência por décadas e décadas), mas agora ela acordou e quer mais. Se alguém vai ver a obra do marido no ateliê, ela faz questão de mostrar sua própria produção. Ela quer se impor e, com muita astúcia, acaba conseguindo.

Mas o que realmente interessa, aqui, é a relação entre os dois que, apesar da quantidade de problemas sérios que enfrentam, sobrevive fortemente à base de muito amor e companheirismo. Ele tem 80 anos e ela tem 60, mas os dois parecem ser muito mais jovens (ah, a maravilha da genética oriental!) e, em última análise, se respeitam e se amam. De sua forma muito particular, claro – Noriko não tem pudor algum ao dizer para a câmera e para o marido que, quando ele não está lá, ela sente que finalmente consegue respirar – os dois ainda sentem enorme admiração um pelo outro. É a arte que os une? Provavelmente sim, mas tem mais nesse caldo, algo que cada vez menos vemos na sociedade atual: paciência. Hoje, qualquer estremecimento banal em relacionamentos leva a separações, divórcios. Nem mesmo a existência de filhos segura os pais juntos. Não defendo – não seria maluco a esse ponto – que duas pessoas que se odeiam continuem juntas, mas não é exatamente isso que vemos mais comumente. Falta mesmo compreensão, serenidade para levar relacionamentos adiante. Hoje, o mundo é mais imediatista e relacionamentos duradouros são tudo, menos imediatistas. Seus resultados, seus frutos vêm depois de décadas e décadas de esforços – sim, inomináveis às vezes – para a manutenção da harmonia familiar.

A vida de Cutie e de seu o “Boxeador” deveria ser uma lição de vida, de paciência, de tolerância e de amor pelo que se escolheu fazer. É uma ode à arte, à família e aos relacionamentos. Espero realmente que a vida imite essa arte.

Cutie and the Boxer (Idem, EUA – 2013)
Direção: Zachary Heinzerling
Roteiro: Zachary Heinzerling
Elenco: Noriko Shinohara, Ushio Shinohara, Alex Shinohara, Ethan Cohen
Duração: 82 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.