Crítica | Da Terra Nascem os Homens

estrelas 5,0

Da Terra Nascem os Homens foi o último e melhor western que William Wyler dirigiu. Até esse momento de sua carreira, ele tinha apenas dois importantes filmes do gênero no currículo, O Galante Aventureiro (1940) e Sublime Tentação (1956), que, embora não fossem seus únicos westerns, eram os mais maduros; o primeiro, vencedor de um Oscar e indicado para outras duas categorias; e o segundo, nomeado para seis Oscars e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1957.

Lançado em outubro de 1958, Da Terra Nascem os Homens teve uma conturbada produção. A película foi produzida por Gregory Peck e William Wyler, que também acumulavam o cargo de ator protagonista e diretor do filme, papéis que se confundiram e culminaram em uma briga entre os dois artistas. O resultado? Bem, eles ficaram sem se falar até o final das filmagens.

Além das questões pessoais envolvidas, Wyler teve dores de cabeça com as várias unidades de produção do filme, especialmente a designada para os cenários do rancho em California Sierra; o “congresso de ‘Chucks’” (Chuck Heston, Chuck Connors, Chuck Roberson e Chuck Hayward) no elenco – que obrigou o diretor a estabelecer um código de chamada para cada um deles – e, claro, a grandiosa produção do filme em si, com todas aquelas sequências grandiosas no Red Rock Canyon State Park. Mas essas complicações, em seu conjunto, conseguiram tornar a obra uma das mais mais bem dirigidas dentre os westerns dos anos 50 (e da história do cinema, posso afirmar sem exagero!), sem contar com o seu notável roteiro, trilha sonora e fotografia impecáveis.

O filme conta a história de James McKay (Gregory Peck, em ótima interpretação), um rico herdeiro de frota naval em Baltimore, que chega a uma cidade do Oeste para casar-se com sua noiva Patricia (Carroll Baker). Imediatamente, McKay percebe que duas influentes famílias “disputam” a região. De um lado, o Major Terrill (Charles Bickford) e de outro Rufus Hannassey (Burl Ives, que venceu o Oscar e o Globo de Ouro por sua atuação aqui), dois patriarcas que, devido a divergências pessoais, faziam de seus empregados alvos e soldados de uma guerra que não tinha razão de existir.

O roteiro do filme não se escora na premissa sólida e também não opta pelos caminhos fáceis do gênero. O texto estabelece camadas de igual importância ao longo da projeção, explorando o caráter do homem, o valor das pessoas em sociedade, a importância da demonstração de poder frente à comunidade e a ideia de que o uso da força é sempre o produto final quando uma conversa não chega ao que uma das partes desejava.

Devido ao caráter denso dessa construção, alguns espectadores enxergam no roteiro do filme uma metáfora à Guerra Fria, com a polarização do grande espaço (vejam o título original do filme, The Big Country) entre dois homens e o uso do poder e de ameaças diretas e indiretas para se conseguir alguma coisa.

Juntamente com densos valores sociais e pessoais (observem que o filme cerca elementos de moral e ética como premissas dramáticas), o texto aborda o amor e as relações familiares de maneira múltipla e interessantíssima. Há uma conjunção de fatores que me fizeram lembrar filmes diferentes no decorrer da projeção, tais como Duelo ao Sol, Consciências Mortas e Um Certo Capitão Lockhart, seja por essa forma de enxergar as relações humanas, seja pelo modo como Wyler colocou tais elementos na tela, incluindo aí a posição vital do indivíduo com a terra e como o cenário desempenha não só um papel ‘psicológico’ mas também narrativo na história (resultado do excelente trabalho do fotógrafo Franz Planer, que já tinha trabalhado com Wyler em A Princesa e o Plebeu).

Com a maravilhosa partitura de Jerome Moross (que brinca com a ideia de ‘tema e variações’ mas insere uma série de outras peças interessantes no decorrer do filme) e a direção segura de William Wyler, Da Terra Nascem os Homens consegue segurar o espectador na cadeira e em constante estado de atenção do início ao fim do filme. As várias nuances dramáticas trabalhadas na composição das personagens, as notáveis atuações e a forma como o roteiro evita os clichês do western – trazendo até longos períodos de silêncio para a história e evitando a verborragia –, fazem deste longa uma grande experiência, um filme que questiona e problematiza valores clássicos em um ambiente em transformação, uma escolha que nos mostra também a correta colocação histórica da fita na linha do tempo do faroeste. Em um período de variações, transformações e cansaço do gênero, William Wyler trouxe ao mundo uma verdadeira obra-prima capaz de dar alento de dignidade a mais esse final de fase do western. Um alento que muito provavelmente ganhará colocação bastante alta nas listas pessoais de melhores westerns de todos os tempos.

Da Terra Nascem os Homens (The Big Country) – EUA, 1958
Direção:
William Wyler
Roteiro: James R. Webb, Sy Bartlett, Robert Wilder, Jessamyn West, Robert Wyler (adaptação da obra de Donald Hamilton).
Elenco: Gregory Peck, Jean Simmons, Carroll Baker, Charlton Heston, Burl Ives, Charles Bickford, Alfonso Bedoya, Chuck Connors, Chuck Hayward, Buff Brady, Jim Burk, Dorothy Adams
Duração: 165 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.