Crítica | Damages – A Série Completa

estrelas 4,5

 “Você me ensinou uma coisa”, afirma um dos principais personagens de Damages. A interlocutora questiona e a resposta é direta: “não confie em ninguém”. Se observarmos atentamente, este é o diálogo que define esta excelente série de cinco temporadas. Em Damages, não é possível confiar em ninguém. Uma hora achamos que sabemos de tudo, para logo depois, sermos bombardeados com segredos obscuros que nos pegam de surpresa e nos deixam no chão. São reviravoltas incríveis, bem conduzidas, diferentes dos excessos da interessante, mas dramaticamente pífia, How To Get Awat With a Murder, produto televisivo que se passa no mesmo ambiente e traz algumas semelhanças com o mundo de Damages, inclusive algumas situações bem pontuais que alguns chamam de “referências”, mas como não são declaradas, podem ser pensadas como “plágio”.

Criada por Todd A. Kessler, Glenn Kessler e Daniel Zelman, Damages alternou episódios de 43 minutos ao longo das temporadas, com season finale alternando entre 55 a 65 minutos de duração. Exibida entre 24 de julho de 2007 e 12 de setembro de 2012, a série teve 59 episódios no total. O tema de abertura, When I Am Through With You, do The V.L.A. permaneceu durante as cinco temporadas situadas no tenso Hewes & Associates, em Nova Iorque, escritório ponto de partida para os casos judiciais trabalhados durante todos os episódios.

O ponto central da série é a dinâmica entre Patty Hewes (Glenn Close) e Ellen Parsons (Rose Byrne). Vários acontecimentos surgem para aproximá-las e, logo depois, distanciá-las, mas do primeiro ao último episódio durante as cinco temporadas, os conflitos centrais gravitam em torno da relação entre as duas, isto é, a mentora e a aprendiz, a veterana e a iniciante. Segundo os criadores, a estratégia de roteirização deixava espaço para o improviso e havia sempre a iniciativa de aprofundamento psicológico, tendo em vista compreender as suas motivações.

Glenn Close dispensa elogios, concorda, caro leitor? Atriz de carreira respeitável, mergulha com tamanha força em seu personagem e creio ser a melhor atriz trágica de sua geração. Sabemos que Meryl Streep é muito boa, dona de uma versatilidade também incrível, mas quando o lance é emular elementos da tragédia, não do drama apenas, Glenn Close ganha disparadamente. Em Damages ela é a representação do poder feminino em um mundo dominado por homens: o campo do Direito. O cinema e a televisão em diversos momentos já nos apresentaram os engravatados poderosos, mas aqui são as mulheres que manda, perspectiva que torna a série bem mais interessante. Imprevisível, manipuladora e fria, Patty carrega o fardo de não ser boa mãe, haja vista a relação em constante conflito com o filho e o relacionamento frio com o marido.

Cheia de nuances e mistérios, guarda sempre surpresas ao longo de cada episódio, geralmente dominando as situações em que mergulha. Como apontado por uma crítica na época do lançamento da terceira temporada, a advogada de Glenn Close é tao boa e tão má quanto os seus alter-egos cinematográficos, vide as diabólicas personagens de Ligações Perigosas e Atração Fatal.

Ellen Parsons começa fazendo a linha boa moça. Inocente, mas ambiciosa, idealista, mas centrada, a jovem advogada muda no decorrer na história, personagem com bom arco evolutivo. Palmas, por sinal, para os roteiristas, indivíduos que conseguem fazer as transições sem forçar a barra ou cair nas garras de inverossimilhança, algo comum nas séries televisivas contemporâneas, produtos que fazem de tudo para conseguir alcançar mais temporadas. Basta ver o caso de Revenge, série que começou muito bem, mas perdeu-se no caminhar, tornando-se tão constrangedora em sua última temporada, cancelada pelo canal ABC. Mas voltemos ao caso de Damages, série mais interessante.

Logo no começo, durante a investigação sobre uma possível vaga, Ellen é aconselhada por uma pessoa experiente da área: “quando Patty a conhecer, não haverá volta, ela será a sua dona”. Com esta fala bastante reveladora, sabemos que o envolvimento não será simplesmente um habitual contato pelos corredores ou salas de reuniões do escritório, mas uma relação que habitará outros ambientes. Ellen começa na série representando outro “começo”: a sua entrada no mundo profissional. A atriz confessou que na época, conversou com vários advogados e um dos maiores dilemas era o idealismo que as leis regem, mas a aplicação na prática, quando precisamos lidar com seres humanos, fragilidades e um sistema caótico, corrupto e às vezes cheios de inconguências.

Tom Shayes (Tate Donovan) é um devoto de Patty. Sempre subserviente, luta contra isso, já que por ser homem, incomoda-se com a força feminina da sua chefe. Em uma cena basilar, Patty dispara que “você é o número dois, aceite isso”, isto é, conforme-se com o seu posicionamento dentro da nossa relação profissional. Moralmente mais equilibrado, Tom dividi-se bastante quando precisa circular por ambientes antiéticos ou ambíguos.

David Connor (Noah Bean) é o elo “carinhoso” da série. Cirurgião em formação, além da beleza física, o jovem rapaz é um companheiro “padrão”: percebe os desgastes, mas compreende a necessidade de Ellen e a escalada por ascensão profissional, recebe cantadas diante de momentos frágeis, mas resiste e mantém-se fiel ao seu casamento, o que nos faz mergulhar na mais profunda catarse com o seu destino no final da primeira temporada. Com a moral sólida, é um homem que tem as suas convicções e destoa-se dos demais personagens, entidades geralmente envoltas em esquemas de corrupção e jogos de poder.

A primeira temporada segue duas linhas temporais. O presente (a investigação) e o passado (a história). Com flashback que retorna seis meses, vai e volta, nos mostrando através de camadas, o que aconteceu anteriormente para que possamos entender os fatos atuais. Patty quer chegar até Katie Connor (Anastasia Griffith), cunhada de Ellen, pois a moça tem uma história de conexão com as investigações do processo que engendra a temporada. Por isso, Patty a contrata, mas ao se surpreender com o talento da advogada mais jovem, alguém que a lembra quando começou, a “poderosa” decide mantê-la.

Patty inicia um processo contra o empresário Arthur Frobisher (Ted Danson). Ele havia saído recentemente ileso de um escândalo. Visando aumentar o seu poder e dar uma lição no ricaço, Patty mergulha profundamente no caso e agenda a “destruição” da vida profissional e pessoal do personagem. Para isso, ela precisará enfrentar alguns obstáculos, entre eles, alguns conflitos familiares que quase tiram parte da sua atenção ao processo, bem como o advogado Ray Fiske (Zeljko Ivanek), funcionário de Frobisher, também cheio de truques, mas sem a mesma astúcia de Patty para dar conta de determinadas situações.

No escritório a tensão se estabelece constantemente. Ellen, por sinal, precisa saber bem por onde pisa. Em determinada cena, Tom reforça que “Patty não quer quinquilharias, fotos e nada de família pelo escritório”. Esta observação já estabelece o tom do que vai se desenrolar, pois a chefe vai tornar a vida de Ellen um exercício hercúleo de ascensão profissional, em detrimento das relações pessoais.

Numa série onde nem sempre sabemos quem é o vilão, Arthur Frobisher ocupa o espaço de antagonismo, pois é o homem envolvido em doze escândalos corporativos. Narcisista e bastante arrogante, no seio familiar, comporta-se como um pai digno de prêmio. Tal como os demais personagens, é repleto de ambiguidades e oscila durante toda a temporada, o que nem sempre nos faz odiá-lo, graças ao roteiro que foge de esquematismos.

No que diz respeito ao mundo dos advogados, o tema da temporada é uma Ação de Classe, procedimento em que os querelantes, em conjunto, processam o (s) acusado (s), neste caso, Arthur Frobisher, responsável por, como diz Patty Hewes em determinado momento, “roubar o futuro de vocês”, referindo-se aos funcionários do empresário que ao se sentirem lesados, recorrem ao processo judicial. Frobisher teve um lucro milionário com suas transições, enquanto os funcionários perderam pensões e outros direitos.

Entre o surgimento do caso e os embates nos tribunais, muitas mãos são sujas de sangue, muitas verdades e mentiras são atiradas ao ar, tal como segredos revelados para nos surpreender, calculadamente, a cada episódio. No final da temporada, o círculo se fecha, pois se no começo de tudo Patty estava no poder, ao final, Ellen domina a situação, algo que pode ser considerada como combustível dramático para a eletrizante temporada seguinte.

A Segunda Temporada traz Patty satisfeita por ter vencido Arthur Frobisher, percebe que está ainda mais com o mundo jurídico aos seus pés. Entrevistas na mídia hegemônica, elogios e satisfação por parte dos clientes fazem o ego da personagem ficar ainda mais inflado. Num campo minado dentro e fora do escritório, Patty precisa se cuidar, pois Ellen está obstinada a acabar com a sua mentora, dada as circunstâncias da temporada anterior. Ao aceitar trabalhar para o FBI, Ellen começa o seu projeto investigativo, tendo em vista levantar todo material possível que possa enquadrar Patty judicialmente.

Os produtores, interessados em não repetir as duas linhas temporais da temporada anterior, ampliaram os flashbacks e flashfowards. Envolvidas em um caso de sabotagem numa empresa de energia, temos também o declínio do misterioso Tio Pete (Tom Aldredge), braço direito nas tramas mirabolantes de Patty fora do escritório. Sempre tendo como base elementos econômicos ou políticos da contemporaneidade, a segunda temporada focou na crise energética na Califórnia e nas tramoias da Eron, empresa de comercialização de energia que de acordo com documentos revelados, usou estratégias fraudulentas para aumentar os seus lucros, sem se preocupar com os apagões e aumentos brutais do serviço de eletricidade nos Estados Unidos.

Inspirada em Bernie Madoff, um trambiqueiro que em 2009, golpeou os seus clientes no bolso com um falso fundo de investimento, indo direto para a cadeia.Juntos, Patty e Tom enfrentam o manipulador império familiar formado por Marilyn (Lily Tomlin), o seu filho Joe (Campbell Scott) e Leonard Winstone (Martin Short), o leal advogado da família. Ellen, que achava não ter nenhuma aproximação tão magnética com Patty, descobre que ainda não conseguiu se livrar dos fantasmas do passado e se junta aos advogados para solucionar o caso.

Através de treze episódios, temas como paranoia, narcisismo e dinâmicas de poder, se desenvolvem, sob o comando de Glenn Kessler e Daniel Zelman, dois dos três criadores da série, profissionais que contam com a ótima direção de fotografia de David Tuttman e as aberturas editadas por Jason Robe, também responsável pela música tema da série. Para alguns fãs foi uma empreitada triste, pois é a despedida de Tom Shayes, informação que sabemos logo no primeiro episódio da temporada, mas como imprevisões e reviravoltas são parte de Damages, não temos absoluta certeza até a season finale. Visualmente a série continua deslumbrante, mas há alguns ruídos no roteiro e quebra de estruturas, provavelmente por conta da direção, o que torna este terceiro ciclo o menos interessante dos cinco.

Na quarta temporada temos Patty Hewes em maior desenvolvimento. Introspectiva como nunca visto anteriormente, principalmente por conta do suicídio de Ray Fiske, a personagem está mais solitária e tentando organizar a sua vida. Boa parte da temporada é sobre essa questão, pois desacelerada, ela sente o impacto da vida sem Tom Shayes, Tio Pete, o marido e o filho, alguns distantes por conta da morte, outros por terem saído da turbulenta vida da advogada. É a sua neta que se transforma numa espécie de porto seguro onde Patty deposita responsabilidades e o seu engajamento enquanto ser humano sempre em alguma missão.

Os acontecimentos desta vez surgem em média dois anos após o desenrolar da temporada anterior. O caso, agora, surge de Ellen Parsons, ao buscar Patty para juntas, solucionarem um caso contra uma poderosa empresa militar, a High Star, e seus desdobramentos corruptos no Afeganistão. Os sigilos e planos quebrados durante os dez episódios envolvem um inescrupuloso agente (Dylan Baker), uma testemunha importante sempre em perigo (Chris Messina) e um poderoso CEO, interpretado pelo sempre ótimo John Goodman. Em paralelo ao caso, temos Ellen tentando organizar a sua vida sentimental e Patty num embate com o seu filho, crescidinho e decidido a colocar fechar o cerco contra a sua mãe.

Ao produzir os roteiros como plantas baixas, na tentativa de controlar a experiência do público, esta temporada se destaca, tal como as duas primeiras, pela capacidade de dosar bem o suspense e nos deixar em estado de alerta a cada arco dramático que se fecha. Interessante observar como a dupla protagonista aparenta pacifismo, bem como o personagem de Dylan Baker, encaixado de maneira orgânica no arquétipo que Christopher Vogler, em A Jornada do Herói: Estruturas Míticas para Contadores de Histórias e Roteiristas, chamou de Camaleão, isto é, personagem dúbio que oferece como desafio, a sua interpretação no bojo da narrativa, pois está sempre mudando, tanto para os protagonistas, quanto para nós, espectadores.

Assim como nas demais temporadas, o clima de tensão do quinto percurso da série é cheio de picos dramáticos. O processo judicial da vez envolve um hacker, interpretado com competência por Ryan Phillipe, numa referência ao polêmico fundador do Wikileaks, Julian Assange. Antes de adentrar na investigação cibernética proposta pela temporada, algo que fica como pano de fundo para o verdadeiro foco dos momentos finais: o constante embate entre Patty e Ellen. Quem é a melhor? Haverá uma vencedora? A luta pessoal que sempre ultrapassou as entrelinhas fica ainda mais escancarada nesta temporada.

O destaque vai para o sétimo episódio, situado num aeroporto de uma cidade em plena nevasca, o que impossibilita as duas de voltarem de uma viagem. Os diálogos neste ambiente são fortes e duram praticamente todo o episódio. Há também o revelador episódio final, com Patty convivendo diante dos seus “fantasmas” e Ellen curtindo a renúncia e vivendo momentos mais amenos, após eletrizantes tramoias que quase ceifaram a sua vida. Em determinada cena, para não sair por baixo, Patty tenta dar uma lição de moral em Ellen, que alega ter participado de todos os processos e saído de mãos limpas. A experiente e maquiavélica advogada, por sua vez, faz questão de reforçar que ela foi responsável, mesmo que indiretamente, com duas mortes, num jogo psicológico que flerta com peso de consciência e faz até mesmo nós, espectadores, ficarmos perplexos. Entendemos também os motivos que levaram Patty a ser como é, principalmente nas cenas com o pai enfermo.

No geral, os dez episódios focam no hacker que solicita os serviços de Patty Hewes, inspirados nos polêmicos vazamentos e denúncias do site Wikileaks, organização transnacional sem fins lucrativos conhecida por publicar de fontes anônimas, documentos e informações confidenciais de líderes estatais, nações e grandes corporações, materiais que segundo os publicadores, deveriam ser de ordem pública. Julian Assange, ciberativista australiano que inspirou o hacker da temporada é conhecido por, em 2007, veicular um vídeo amador que escancara um ataque equivocado, realizado por um helicóptero estadunidense na região de Bagdá, responsável por ceifar a vida de doze pessoas, entre elas, um jornalista, num caso que repercurtiu bastante nas mídias. Assange também é conhecido por ter divulgado uma cópia de um manual de instruções  para tratamento dos prisioneiros de Guantanamo, em Cuba.

À guisa de encerramento, podemos observar que a série buscou sempre manter-se realista e atual. As temporadas focaram em histórias reais e bastante difundidas pela mídia: o caso Eron (primeira), a crise energética na Califórnia (segunda), o caso Bernie Mardoff (terceira), a empresa militar privada Blackwater (quarta) e o fundador do Wikileaks (quinta). Além destas abordagens analisados sob o ponto de vista dos profissionais da advocacia, numa análise macroscópica, Damages pode ser considerada uma série sobre o preço a se pagar pelo sucesso. Patty é poderosa, mas cheia de traumas pessoais, numa vida de fachada que lhe permite confortos materiais, mas distanciamento do que se convém chamar de “paz de espírito”. Ellen representa, ao fechar o círculo, a liberdade de escolhas que as feministas tanto gostam de ressaltar: traçou os seus caminhos, poderia ser a nova Patty Hewes, mas preferiu dedicar-se a ter uma família e levar uma vida simples, longe do inferno cotidiano do escritório de advocacia da sua mentora/antagonista/aliada (depende do momento e da temporada para classificar a relação da personagem com a chefe).

Com episódios cheios de classe, Damages durou cinco temporadas de sucesso, sendo a terceira o elo mais fraco, tamanho o número de subtextos pouco aproveitados, algo que, entretanto, esquecemos com o advento da quarta e quinta temporada, ofegantes, bem dirigidas e com conflitos trabalhados com mais afinco dramatúrgico. Damages é uma daquelas séries boas, fortes, realistas e que deixam um gosto de “quero mais”, no entanto, soube bem a hora de fechar as suas cortinas, para não cair na “Síndrome de Shonda Rhimes”, leia-se, excessos, absurdos e ciclos dramáticos quase intermináveis e embasados por tramas frágeis.

Ao fugir dos lugares comuns das séries e filmes sobre advogados e do mundo complexo do Direito, a série é envernizada por uma ótima direção de fotografia, montagem cuidadosa e episódios dirigidos com cautela para não fazer o espectador se perder diante dos intensos flashbacks e flashfowards que estabelecem saltos temporais, às vezes, gigantescos. Poucas séries acabaram com tanta dignidade. Oremos, “leitores, espectadores e internautas”, por mais narrativas assim.

Damages – A Série Completa — EUA, 2007-2012
Criação: Daniel Zelman, Glenn Kessler, Todd A. Kessler
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Glenn Close, Rose Byrne, Tate Donovan, Ted Danson, Zeljko Ivanek, Michael Nouri, Anastasia Griffith, Philip Bosco, Peter Facinelli, Marcia Gay Harden, William Hurt, Martin Short, Campbell Scott, Lily Tomli
Duração: 50 min (cada episódio).

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.