Crítica | Damien – 1ª Temporada

estrelas 3

Devido à ascensão do Cristianismo como religião dominante, o Diabo recebeu diversas definições e transformações ao longo do tempo. Satanás, um ser submisso a Deus, tornou-se ferozmente um adversário e opositor, tendo recebido denominações múltiplas: Satã, Lúcifer, Demônio, Cão, Coisa ruim, Pai da Mentira, além de assumir formas diversas, tais como serpente, bode, lobo ou corvo.

De acordo com relatos bíblicos, ele teria sido um Anjo de Luz que, ao se revoltar contra a figura divina, foi expulso do Reino Celestial. Anjo Querubim de linda forma áurea, após a sua queda, diante do pecado da soberba, assumiu formas pavorosas que provocaram medo e horror na mentalidade do povo da Idade Média, tornando-se, inclusive, símbolo do medo e do riso na época. No teatro, por exemplo, Gil Vicente o abordou, através de uma peça que semeava a predição dos castigos da vida após a morte.

Alastrou-se com força graças à pedagogia do medo que tornou rígido o discurso e o controle da moral, tendo força nos artistas que produziam o poder do maligno e o lamentável destino das almas que fosse para o inferno. O seu auge ocorreu na crise do Feudalismo e no apogeu da Renascença, graças aos terríveis acontecimentos da época, como por exemplo, a peste negra e a Guerra dos Cem Anos.

Com o surgimento do pensamento iluminista, corrente que pregava a razão e o estado laico, o diabo perdeu a sua força no imaginário social e retornou alegórico com o advento do Romantismo na literatura, no teatro e na pintura. Edgar Allan Poe, Goethe, Willian Blake, Lord Byron, Honoré de Balzac, Victor Hugo, Gregório de Matos, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, etc., chegando ao bojo do pós-modernismo através de games, filmes, novelas, quadrinhos e demais elementos que fazem parte do discurso da cultura pop. É uma figura que se tornou mercadoria, tendo na contemporaneidade, ampla força de expressão.

Na televisão, por exemplo, as forças satânicas estão em alta. Antes que o leitor pense que parto do ponto de vista de um protestante, adianto que estou me referindo ao apego da indústria cultural à figura do Diabo. Cientes do potencial desta abordagem, os produtores do canal A&E e Glenn Mazzara, criador de The Walking Dead, resolveram apresentar ao público uma versão televisiva de A Profecia, filme de terror cheio de classe.

Damien não é apenas uma adaptação, mas uma continuação direta do filme de 1976. No enredo, Damien Thorn (Bradley James) está na casa dos 30 anos. Ele atua como fotógrafo de guerra e durante uma missão, é informado que algo macabro demarca a sua trajetória nesta vida: ele é o Anticristo, personagem mitológico do Apocalipse, imaginativo trecho das sagradas escrituras. Após esta revelação, coisas macabras começam a acontecer ao seu redor: mortes de pessoas próximas, tragédias sanguinárias e situações inexplicáveis, o que denota a chegada de uma nova era para a humanidade.

Os primeiros episódios, os melhores de acordo com os ditames da direção audiovisual, foram orquestrados por Sheknar Kapur, cineasta paquistanês responsável por Elizabeth, aclamado drama histórico de 1998. O diretor encontra ressonâncias nos demais episódios, afinal, a estética urbana dos trechos iniciais se desenvolve por toda a temporada. Há elementos que nos remete ao misterioso Stigmata, lançado em 1999.

Com roteiro bastante convencional e didático ao apresentar os conflitos, Damien peca um pouco na sua estrutura textual. Não buscamos a verossimilhança de um drama neorrealista, mas ao menos alguns cuidados, como por exemplo, personagens que se deslocam em eixos temporais absurdos ou encontram documentos mais difíceis que os originais das sagradas escrituras. A série viu a sua audiência balançar em diversos momentos. Inicialmente antipatizada pelo público, foi crescendo aos poucos, caiu numa margem grandiosa no quinto episódio, mas ganhou força no sexto, estabelecendo-se de maneira mediana nos seguintes, com garantia de ao menos uma segunda temporada.

Dentre os destaques no âmbito dos personagens, podemos destacar Ann Rutledge, interpretada pela ótima Barbara Hershey, uma mulher que ocupa um espaço maternal na vida de Damien, protegendo-o dos religiosos católicos que estão numa verdadeira cruzada em busca da destruição do Anticristo. Amid Abtahi interpreta um dos melhores amigos do soturno Damien, enquanto Scott Wilson dá vida ao maquiavélico John Lyons, um homem que precisa manter a integridade do “filho do mal” para o devido estabelecimento do literário Apocalipse.

Outro personagem curioso é o detetive James Shay. O roteiro, interessado em acolher os elementos que dominam o discurso sociológico da contemporaneidade, decidiu colocar um detetive que foge, mas ao mesmo tempo, dialoga com os estereótipos da homossexualidade. Ele é casado com um homem e ambos criam uma criança. Parabéns pela coragem da abordagem, entretanto, o personagem é frio e distante de seu companheiro, pois ambos sequer apresentam um traço de proximidade, como se fossem amigos ou irmãos criando uma criança. Nem um olhar, nem um abraço, não há traço algum de afetividade entre os dois. Cabe aqui ressaltar a covardia do roteiro em ousar mais, talvez temeroso em desagradar a fatia normativa da sociedade.

Dentre os problemas é preciso destacar as questões políticas presentes na série. O mal, como sempre, está atrelado ao “outro”. Mesmo diante de tantos estudos acadêmicos e discussões jornalísticas e do senso comum, a insistência do “Oriente” como invenção do “Ocidente” ganha contornos bastante expressivos na série. Qual o local escolhido para a epifania de Damien? A Síria, local de conflitos geopolíticos ainda na contemporaneidade. Como conhecemos bastante o discurso cultural de onde a série parte, sabemos que a escolha não foi aleatória ou fruto de uma coincidência. Percebemos, com isso, que os insistentes estereótipos continuam a gravitar no imaginário dos roteiristas estadunidenses.

O espectador que assiste ao primeiro episódio pode achar que talvez esta seja apenas uma infeliz contradição de um discurso cristalizado há tempos, mas o segundo episódio reforça ainda mais a automaticidade dos estereótipos na série. A ação começa com um exorcismo no Chile, ou seja, o mal, o estranho, o diferente, o animalesco, em suma, o “outro”, latino ou asiático, é o portador do mal, “nós, estadunidenses, temos apenas que lidar com ele”, provavelmente pensa boa parte das pessoas que ainda mantém esta linha de interpretação da cultura alheia calcificada nos dias atuais.

No entanto, não é só de problemas que se faz uma série. Os clichês do gênero, por exemplo, não incomodam, só reforçam o lugar de fala da produção. O cão que rosna e persegue os interesses do Anticristo continua presente, assim como no filme que deu origem ao material. No que tange aos aspectos técnicos, a série é interessante. O design de produção consegue trazer todos os elementos possíveis do imaginário construído acerca destes temas: imagens oriundas do cristianismo sendo deformadas, cruzes, terços, cores e ambientação sombria, além do som e da trilha sonora atuando concomitantemente, apresentando os desconfortos dos personagens através de manifestações sonoras para o espectador. Os ângulos oblíquos, principalmente os zenitais que nos demonstram cruzamentos nas ruas, remetem o público ao famoso crucifixo invertido, numa representação simbólica do discurso que abomina a presença de Cristo.

Damien deflagra o interesse constante da indústria pelo imaginário do “fim dos tempos”, presente na sociedade desde a Idade Média. Personagem que de acordo com o Novo Testamento, dominará o mundo, o Anticristo vencerá e conquistará o seu posto através da diplomacia, ao convencer as pessoas do seu espaço através de um engenhoso uso da sua sabedoria. “Muitos esperam que a besta venha do mundo da política”, afirma um personagem durante um importante diálogo. Conforme apontam os dados de um dos maiores clássicos da literatura mundial, ele será um líder com cargo político importante.

Ao possuir o admirável dom de atrair as pessoas, haja vista a sua personalidade e jeito fascinante (a escolha de Bradley James e os enquadramentos que valorizam o seu físico não foram colocados na série aletoriamente), o “filho do mal” governará o mundo inteiro, controlará a economia e ainda fará um acordo de paz com Israel, tendo ainda consentimento internacional para as suas ações. Estas informações, citadas de maneira esparsa em três livros bíblicos: Daniel, Tessalonicenses e Apocalipse.

Nero, Napoleão, Hitler, Bush e Osama Bin Laden, em suas respectivas época, foram associados ao Anticristo, uma personalidade dotada de multifacetadas características: gênio intelectual (Daniel 7:20), um homem de dom político (Daniel 11:21), engenhoso militar (Daniel 8:24), detentor de poderoso dom da oratória (Daniel 7:20), ótimo comerciante (Daniel 8:25), excelente administrador (Apocalipse 13: 1-2) e aparentemente religioso (Tessalonicense 2:4). Por enquanto, Damien apresentou poucas das características supracitadas. Apenas no último episódio, o personagem pareceu começar a adotar o devido espaço na sociedade: o representante do “fim dos tempos”.

Enquanto Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e O Exorcista não chegam ao formato televisivo, A Profecia garantiu a sua primeira temporada de 10 episódios, sendo mais um dos clássicos do terror a estabelecer o seu espaço na seara televisiva, ao lado de Pânico, Hannibal, Scream Queens (pastiche de clássicos) etc. O terror está em alta, mais uma vez, entretanto, de maneira bastante dispersa: não estamos diante de vanguardas dominantes de uma época, mas numa mistura que aponta para os suspiros ofegantes do slasher e do subgênero

Damien – 1ª Temporada (Canadá, EUA e Reino Unido, 2016)
Showrunner:  Glen Mazzara
Direção: Vários
Roteiro: Vários, baseado nos personagens de David Seltzer
Elenco: Bradley James, Barbara Hershey, David Meunier, Melaine Scrofano, Robin Weigert, Viv Moore, Scott Wilson, Omid Abtahi, Brody Bover, Michael  Therriault
Duração: 42 min (cada episódio – 10 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.