Crítica | “Dançando no Escuro” – Trilha Sonora

estrelas 5Lars Von Trier é um diretor de extremas singularidades. O cineasta dinamarquês sempre segue acompanhado de controvérsias e polêmicas por onde passa – basta tomar como exemplo sua recente aparição no Festival de Berlim, onde fez piada com Cannes ao aparecer com uma camisa com os dizeres “Persona Non Grata”, alcunha que lhe foi dada após uma citação nazista feita no Festival de Cannes de 2011. Um cineasta de extremos, o cinema de Von Trier é algo ao qual é impossível ficar indiferente: ou você ama, ou você odeia. Independente das diversas reações que seus filmes possam causar, não há como negar que Von Trier é um cineasta corajoso, um verdadeiro autor dentro de seus projetos, o que nem sempre agrada a todos. Seus filmes nunca são agradáveis ou fáceis de se ver, uma vez que o diretor possui uma forte tendência a estudar o ser humano através de olhares e interpretações pessimistas.

Von Trier também é um diretor experimental. É dele o manifesto conhecido como Dogma 95, e o próprio costuma transitar por gêneros, tal como a comédia (O Grande Chefe), filmes apocalípticos (Melancolia), filmes sobre o nazismo (Europa), e no caso em questão, filmes musicais.

Estrelado pela cantora Björk, que também compôs todo o repertório musical da obra, Dançando no Escuro poucas vezes (ou talvez nunca) figura numa lista de melhores musicais de todos os tempos. Talvez pelo fato de, como já dito, não ser um filme de fácil digestão. Mas basta assisti-lo para chegar a conclusão de que é uma obra que transcede o próprio gênero, e faz da adoção do gênero mais do que apenas um recurso para inserir músicas. Em meio ao drama de Selma Jezková (Björk), cuja situação desesperadora a levar a cometer um crime, as canções do longa surgem como uma maneira de ressaltar o quão dolorosa é a realidade de Selma, e ao tomar os números musicais como alucinações da personagem que funcionam como uma válvula de escape, Von Trier ressaltar a gravidade da tragédia que se abate sobre Selma.

O curioso é que Von Trier atinge este objetivo através do uso de opostos. Na sequência de abertura, onde ouvimos o instrumental Overture, o diretor remete aos musicais da era de ouro de Hollywood, onde a composição musical nos dá uma ideia do que devemos esperar da obra. Mas Von Trier nos engana, e ao nos trazer um instrumental que ressalta a grandiosidade do próprio gênero, nos priva de conhecermos, ao menos de inicio, o verdadeiro espírito da obra. O objetivo de Von Trier é nos pegar de surpresa.

Leva um bom tempo para que o filme assuma seu lado musical. A primeira sequência onde temos um número de dança se dá lá pelos 40 minutos de projeção, mas é recompensador: Cvalda tem um profundo efeito sobre o espectador. A sequência é alegre, contagiante, levando-nos a, junto de Selma, tentar escapar não apenas daquela realidade, mas da nossa própria. Nota-se também a extrema criatividade na composição da melodia, que se inicia com o som das máquinas do trabalho de Selma, que se misturam de maneira orgânica ao longo da canção. E quando aquele momento de felicidade é quebrado, o efeito é devastador.

I’ve seen it all é um dos momentos mais belos da obra. Assim como Cvalda, a melodia tem origem através de um som da vida real (neste caso, de um trem em movimento), e a letra carrega consigo um tom lindamente poético: Selma, apesar de seu grave problema de visão, enxerga o mundo de maneira mais profunda e verdadeira que a maioria das pessoas, justamente pelas provações que a vida lhe trouxe. O que marca, de fato, é o diálogo entre Selma e Jeff (Peter Stormare) ao término da canção:

Jeff: “Você não enxerga, não é?”

Selma: “O que há para ennxergar?”

A canção seguinte, Scatterheart, é um belíssimo momento de auto-redenção para a personagem. Após cometer um assassinato para reaver um dinheiro que lhe foi roubado, Von Trier faz com que Björk e um moribundo David Morse dancem pelos cômodos de uma casa, com belos movimentos que são lindamente capturados pela câmera de Von Trier. É uma sequência de profundo impacto emocional, pois nele Selma busca o perdão daqueles ao qual atingiu com seu crime, que na verdade foi apenas um ato desesperado para reaver seu dinheiro economizado com extremo esforço.

In the Musicals é quase que uma declaração de amor ao gênero musical. Durante seu julgamento, Selma se imagina num número musical com todos os presentes do recinto, declarando seu amor pelos musicais, o que imediatamente transforma a canção numa referência ao próprio gênero que o filme pertence.

107 Steps é, particularmente, o momento mais devastador da obra. Nos minutos que antecedem sua trágica sentença, Selma encontra dificuldades em encarar seu trágico destino, e se imagina num número musical onde dança com os presos e os guardas da prisão onde se encontra, ao mesmo tempo em que vai contando os passos que a levam até seus últimos instantes de vida. A performance é alegre, mas no fundo é carregada com um profundo sentimento de melancolia e tristeza.

Após a brutal cena final, sobem os créditos finais enquanto ouvimos uma versão cantada de Overture, intitulada New World, enquanto que em nossa mente, apenas flutua a frase estampada no último instante do longa: “They say it’s the last song. They don’t know us, you see. It’s only the last song if we let it be.”

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.