Crítica | Dançando no Escuro

estrelas 5,0

“Apenas na dança sei falar o símile das coisas mais altas.”

Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche

Após uma incursão de gosto duvidoso pelo Dogma 95, Lars von Trier engendraria um novo desafio em sua carreira. No ano 2000, ele se juntaria à cantora islandesa Björk para mergulharem em um gênero completamente novo em sua filmografia – o musical. Dançando no Escuro é diferente de tudo aquilo que o dinamarquês fizera e que faria nos anos seguintes. Lars von Trier leva ao paroxismo a frase célebre do roteirista e diretor norte-americano Samuel Fuller: “O cinema é um campo de batalha”. Para o diretor nórdico, ele é mesmo. Mesmo que muito se fantasie sobre a relação conturbada do diretor com seus atores, é certo que, no caso da islandesa, houve mesmo muitos problemas. Mas a relação caótica dos dois não foi menos produtiva. O terceiro filme da Trilogia do Coração de Ouro é uma inegável coautoria. Dançando no Escuro é um filme não só de Lars von Trier, mas também de Bjork, ainda que a mão do dinamarquês seja sentida como em qualquer outra de suas obras.

Nunca achei que a música da cantora islandesa superasse a excentricidade. Bjork, para mim, é um caso bastante notório em que se confunde a esquisitice com a genialidade. Acho sua música precária, enfadonha e sem grandes atrativos. Mas para minha grande surpresa, a trilha sonora que ela compôs para o filme de von Trier funciona. Não se ouvida em separado do filme, mas dentro de seu contexto e evolução. A personagem Selma, em sua luta para salvar a visão do próprio filho, recorre à música não como escapismo, como habitualmente se analisa. A música estranha e desacertada que a mãe solteira canta e dança é um mergulho profundo na aspereza do real. Não há sublimação na trilha sonora composta por Bjork, nem qualquer perspectiva do abstrato. O musical do auto-intitulado “melhor diretor de cinema do mundo” é o avesso dos musicais de Hollywood, em que “tudo acaba bem”. Não à toa, Dançando no Escuro termina com uma das cenas mais cruéis que a grande tela já viu.

Vale observar que este é um filme em que o próprio Lars von Trier atua como operador de câmera, controlando o processo de filmagem em todos os âmbitos. Como um excelente diretor de atores, ele extrai de Björk uma atuação memorável e bastante improvável para uma atriz estreante. Juntos introduzem uma espécie de hybris ao gênero musical. Em Dançando no Escuro, não há rompantes de felicidade, diálogos cantados com entusiasmo, nem canções de apelo fácil. Selma retira de sua realidade brutal o motivo de sua música. Os sons de metal da fábrica onde trabalha fazem nascer ritmos e melodias dentro dela e as cenas acabam em canto e dança, sem o colorido nem a assepsia que os estúdios hollywoodianos imprimiram por tanto tempo em suas produções.  As canções e as coreografias da islandesa não tem poder de resolução nem de alívio. São sempre acidentadas e inconclusivas.

Compreender o longa-metragem de Lars von Trier exige atenção a seus momentos-chave. A forte cena em que Selma assassina Bill é, sobretudo, um brutal auto-sacrifício. Se Bess renuncia ao próprio corpo por amor ao marido em Ondas do Destino, Selma renuncia à própria moral por amor a seu filho. Quando golpeia o crânio do personagem de David Morse, sua dor é evidente. Mais do que isso, expressa um inequívoco sentimento de auto-destruição, pois ali a corajosa personagem selava seu destino trágico. Ao tornar-se assassina, ela escolhe a tragédia e a morte. Abraça o sofrimento como Bess o fizera no primeiro filme da trilogia e, exatamente por isso, ambas são tão profundamente românticas. Se há tormento nas escolhas que fazem, maior ele seria se não as tivessem feito. Eis a pior condenação para um romântico – uma vida sob medida. A dignidade de Selma é poder viver seu próprio tormento.

O poeta irlandês Oscar Wilde analisa a vida de Cristo sob o signo do sofrimento em sua longa epístola De Profundis. “Não há verdade que se compare ao sofrimento” escreve o dândi encarcerado no fim da vida por ser homossexual, em um momento de profunda dor, mas de igual coragem face a seu destino trágico. Para ele, Jesus havia sido o primeiro grande modelo romântico da história humana, pois compreendeu a alma dos impuros, dos assassinos, das adúlteras e das prostitutas. Também se entregou ao suplício final com determinação, resignado. O ato de entregar-se ao martírio e vivenciá-lo de modo extremo é o que aproxima Bess e Selma e as torna duas das personagens mais interessantes de Lars von Trier. Elas trazem luz ao caráter romântico que recorre em muitos de seus filmes.

A dança é outro ponto fundamental de Dançando no Escuro. A vida da personagem de Björk é exposta como em um compasso desajustado e irregular. O desequilíbrio e o desacerto são sua marca e todas as canções surgem sem constituir nenhum clímax dentro do enredo. Nota-se isso na cena em que Selma canta e dança I’ve Seen It All como uma revelação súbita de sua cegueira total. Não é a beleza que se dança no filme de Lars von Trier. É, sobretudo, a tragédia. “A feiura é meu estandarte de guerra”, escreve Clarice Lispector em Água Viva. A feiura da vida, comportando seu sentido inamistoso de fatalidade, é o que ganha ritmo e melodia no musical do dinamarquês. Mas acima de tudo, a dança cumpre um importante papel de ação na obra. É por meio dela que Selma enfrenta seu destino de modo resoluto. A marcha para o cadafalso só é possível quando transformada na canção 107 Steps. Em seus passos finais, a protagonista é o único elemento com vitalidade suficiente para cantar e dançar livremente, enquanto os guardas que a conduzem mantem sua cadência firme e pasmada.

A música, no mais anti-musical de todos os musicais, constitui o ato de soberania de Selma sobre a própria vida e também sobre a própria morte. A cena final é devastadora como poucas já realizadas. Selma sofre em seu ato final, mas não o recusa e o enfrenta cantando. Coloca-se peremptória diante dele e ele se consuma de modo lancinante, como a queda da guilhotina, selando a tragédia no musical em que “nada termina bem”.

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark) — Dinamarca, 2000
Direção:
 Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Björk, Catherine Deneuve, David Morse, Peter Stormare, Joel Grey, Cara Seymour, Vladica Kostic, Jean-Marc Barr, Vincent Paterson, Siobhan Fallon Hogan, Zeljko Ivanek
Duração: 140 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.